Cidades

20 de julho de 2019 07:53

Trecho da Lagoa Mundaú tem avanço de 100 metros

Novos estudos do professor Abel Galindo mostram que o afundamento do solo tem impactado na região lagunar

↑ Comparativo feito na região entre os anos de 2002 e 2019 mostra avanço de 100 metros da Lagoa Mundaú (Foto: Edilson Omena)

Desde a divulgação do relatório pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), o professor e pesquisador Abel Galindo tem se debruçado em um tema específico: a Lagoa Mundaú. Com exclusividade à reportagem da Tribuna Independente, o pesquisador afirma que, em um trecho, há avanço de 100 metros da lagoa. A área fica nos fundos da antiga Casa de Saúde José Lopes. Segundo Galindo, o local fica “no olho do furacão” acima das cavernas que desabaram e possuem vazios maiores que a extensão de dois campos de futebol. O estudo considera informações de 2002 até agora.

“Essa é a áreas das minas, o olho do furacão. A Casa José Lopes é no olho do furacão. O conjunto de minas está coladinho e já foi confessado pela Braskem que se fundiram. São três minas juntas que dá 250 metros. O que eu estou falando é que isso é o olho do furacão, essa área que eu estou mostrando é que essas minas que estão dentro da lagoa estão afundando. Gente isso é mais que dois campos de futebol. É a M7, M18 e M19. Por isso que afundou tanto, são três de um lado, as duas do outro lado M9 e M12, tem outra que é enorme M27, tem 120 metros de diâmetro, só seria estável se tivesse até 60 metros, ela tem o dobro. Esse conjunto de minas é praticamente um buraco só, é um conjunto com 180 metros, outro com 90”, esclarece.

De forma simplificada, o processo que tem ocorrido é que o rebaixamento do solo está provocando o avanço contínuo da água.

“O que está acontecendo é que em 2002 era tudo bonitinho, a maré chegava em maré máxima a 10cm. A diferença de nível entre as construções era de 2,5 metros, entre a casa e o sítio. Em 2019, a água em maré cheia, naquele desnível de 2,5 metros está chegando. Está avançando. Onde era 80 cm hoje é 2,5 metros. São 100 a 120 metros na parte do José Lopes, o sítio era plano, não havia invasão de água. O solo abaixou e a água subiu. Não há mais mangue. A mina rompeu, desabou, quando ela rompeu o solo foi se acomodando”, ressalta o professor.

Os estudos comparam imagens de satélite, relatos de moradores e visitas in loco; e apontam que em 2002, a margem da lagoa tinha cerca de 80 cm de profundidade, hoje essa antiga margem possui mais de 2 metros.

“Estive lá várias vezes, conversei com moradores e antigos moradores, funcionários, para sair juntando informações de como era antigamente de como está hoje. O que eles me disseram é que até três anos atrás a clínica estava funcionando. Faz pouco tempo. (…) Também ouvi barqueiros, pescadores, que atrás da Braskem, da clínica Miguel Couto as pessoas transitavam. Havia um sítio atrás da Clínica José Lopes (…) Em 2002 toda essa área [aponta para a imagem] era um sítio, 150m mais ou menos isso, tudo sequinho. Agora em 2019, toda essa área é água. Não tem mais mangue. As antigas construções estão submersas, onde eram as pocilgas, casa de cachorro, galinheiro… Fui lá de barco mais de uma vez. É possível passar de barco nessa região. Na maré baixa eu medi 70cm, num local onde era seco, tinham construções. O capim é superficial, embaixo tudo é água. Na maré alta eu medi 1,60, onde era tudo seco”, aponta Abel.

Camadas de sal estariam se recompondo, diz pesquisador

 

Ao se aprofundar nos estudos, ele destaca que descobriu que as rachaduras no Pinheiro podem também estar relacionadas com um processo de recuperação da camada de sal. Ou seja, por conta dos espaços vazios, o sal nas camadas profundas se movimenta para recompor o que foi tirado e isto estaria também provocando a instabilidade.

Perfil transversal do Mutange (Imagens: Reprodução)

“É um conhecimento complementar, que eu comecei a me aprofundar, ver que tinha ver. É a chamada Tectônica Salina. Porque essas rachaduras que apareceram só o movimento de mergulho não seria capaz de fazer. O que está causando a rachadura no Pinheiro é o mergulho, a força gravitacional que rompeu, mas a rachadura que vai até depois da Rua Belo Horizonte, esse movimento de mergulho sozinho não seria capaz de fazer. Foram feitas escavações enormes nas camadas de sal, 200 de um lado, 200 de outro. Causou um desequilíbrio enorme de pressão entre o maciço interno e externo. É uma força de arrasto, querendo fechar se recompor. É um conjunto, o desabamento e o sal querendo se recompor. Agora isso é milimétrico”, aponta.

“De 35 minas, 33 desabaram”, diz Abel

 

Abel Galindo ressalta que apesar do grande avanço da água no trecho, a diferença no terreno é imperceptível a olho humano. A movimentação conforme seus estudos, chega a 3 ou 4 décimos de milímetros por mês.

“Das 35 minas, pelos meus cálculos, 33 desabaram o teto. A própria Braskem disse que vem desabando desde a década de 1980, mas só veio falar agora. Todo o solo está em deformação. O campo do CSA só está bonitinho porque colocaram muito aterro. Isso é um processo lento. Mas se você chegar nos fundos, está lá a água, onde não tinha água nenhuma. Entre o campo do CSA e a Miguel Couto é 1km, mas não dá para perceber a olho nu a diferença. Para perceber um metro é muito difícil. Afundou, a água invadiu e continua afundando. Os moradores dizem que a água continua aumentando, subindo pelos esgotos”, comenta.

Conforme os estudos do Serviço Geológico do Brasil há na região uma falha denominada Falha do Mutange, que foi reativada pela exploração do sal. Essa falha “corta” boa parte das minas exploradas. Questionado se há uma relação ao menos que indireta da existência dessa falha, Galindo explicou que há comprovações científicas de que as áreas com jazidas de sal tendem ao aparecimento de falhas.

Pesquisador se debruça na descoberta dos efeitos do afundamento no Pinheiro, Bebedouro e Mutange (Foto: Edilson Omena)

“A literatura técnico-científica diz que onde há jazidas salinas, sempre há falhas geológicas, então não foi novidade nenhuma o CPRM ter encontrado. Essas falhas vieram ser reativadas por conta da exploração. A rocha salina é uma rocha muito perigosa, é uma rocha viscosa. Se mexer com ela, ela tende a se movimentar. Não é uma rocha granítica. Ela tem resistência, mas se mexer na pressão que está nela e na temperatura ela pode se movimentar, ela se movimenta. Mas é um movimento muito lento, é coisa de 1mm por ano. Eu diria que isso foi o mesmo que mexer numa casa de abelha”, diz Galindo.

O professor explica ainda que com o desabamento dos tetos das minas, houve acomodação das camadas de solo, essa acomodação é que tem provocado a instabilidade. Segundo ele,  há outro problema: a parte intacta está sofrendo compressão por conta da carga.

“Antes na camada de sal estava tudo bonitinho, as camadas, enfim, tudo era sal. Acontece que como ele [Braskem] abriu muito, isso [mina] desabou. Quando desabou a mina, ficou um vazio, o teto foi para o fundo. Antes as camadas, quando eram cheinhas, sustentavam tudo, quando abriu e desabou, ficou o vazio, e agora está sustentado pela parte intacta, que agora está sendo comprimida. A parte da caverna não existe mais, foi tudo para o fundo porque ficou o buraco. E aí o que era sustentando por tudo isso, agora está para as extremidades onde não há vazio, e a concentração de carga está muito grande, tudo está sendo esmagado e está descendo, porque não são rochas boas. Você não vê uma baixada local, porque é um conjunto geral, de mais ou menos 300 metros”, afirma o pesquisador que auxiliou o CPRM a comprovar a causa do afundamento nos bairros de Bebedouro, Mutange e Pinheiro.

NOTA

A Braskem emitiu nota trazendo esclarecimentos quanto aos argumentos  sem base científica que constam na entrevista:

A primeira das alegações é a declaração de que “33 minas desabaram”, o que simplesmente é desmentido pelos sonares feitos pela empresa francesa Flodim, uma das mais conceituadas do mundo. Até agora, 15 sonares ficaram prontos e não demonstram desabamento das minas como afirma o engenheiro. Toda a realização dos sonares é acompanhada pela Agência Nacional de Mineração (ANM). O IMA e a CPRM recebem todas as comunicações e dados desses sonares assim como são convidados para a realização deles. A inferência propalada pelo engenheiro Galindo de que “ficou um vazio” quando houve a suposta série de desabamentos e de que “ficou um buraco” é de tal sorte impossível que beira a irresp onsabilidade. 

A Braskem tem uma relação de mais de 40 anos com a sociedade alagoana e seu primeiro compromisso é com a segurança das pessoas. Neste momento, está empenhada em completar estudos que contribuirão para esclarecer as causas dos fenômenos que afetaram os bairros do Pinheiro, Bebedouro e Mutange. Só com o esclarecimento científico dessas causas é que soluções poderão ser delineadas para garantir a volta das pessoas para suas casas.

 

Fonte: Tribuna Independente / Evellyn Pimentel

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