Cidades

12 de julho de 2019 08:44

Instrumentos contra assédio em transporte coletivo não são usados em Maceió

No Brasil, 97% das mulheres afirmam já ter passado pelo problema, campanhas ainda não surtem efeito para denúncias

↑ Com o ônibus lotado, problema do assédio se agrava e deixa as mulheres vítimas ainda mais vulneráveis (Foto: Divulgação)

Os poucos recursos disponíveis para combater o assédio sexual no transporte coletivo em Maceió ainda não são utilizados pelas mulheres. Trata-se de uma campanha fixa do Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Passageiros (Sinturb), que orienta as usuárias a denunciarem em casos de assédios dentro dos ônibus urbanos da capital, além da opção do “botão do pânico”, por meio do aplicativo CittaMobi. O problema é uma constante na vida delas: 97% das brasileiras afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio no transporte coletivo, conforme pesquisa do Instituto Patrícia Galvão.

“Nós queremos fortalecer ainda mais a cultura da denúncia, lançamos recentemente através do CittaMobi, a opção botão de pânico, onde os passageiros podem denunciar casos de violência e os dados vão para a SMTT e depois Segurança Publica. Vimos a necessidade de lançar uma campanha para conscientizar as mulheres e principalmente de combate, pois esse tipo de crime acontece, infelizmente, em qualquer lugar”, informou o Sinturb.

O “botão do pânico” criado é uma opção dentro do aplicativo CittaMobi que permite que o usuário reporte alguma ocorrência neste sentido.

Mesmo a campanha sendo fixa, não há números sobre as ocorrências até agora registradas. Segundo a entidade, faltam registros das ocorrências.

“Nossa intenção com a campanha é alertar sobre o crime e principalmente pra incentivar que as mulheres denunciem. Não tem dados de registros. Mas sabemos que existe assédio. Em todo o país. E por isso a campanha é fixa. Estamos nas redes e também com cartazes nos ônibus. Para alertar sobre a importância de denunciar o assédio”, pontua a entidade.

Ainda de acordo com o Sinturb, existem os canais convencionais de denúncia como 190 e 180 (centro de atendimento a mulher).

A Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP) afirma não dispor da quantidade de ocorrências envolvendo assédio sexual em meios de transporte. Também questionado pela reportagem, o Ministério Público Estadual (MPE) disse por meio de assessoria que não há até o momento nenhum projeto ou ação que envolva o combate do assédio sexual em transportes públicos.

VÍTIMAS

A Tribuna Independente foi às ruas da capital alagoana para ouvir usuárias do transporte público e os relatos apontam que a situação é mais comum do que se imagina.

Segundo as mulheres ouvidas pela reportagem a tensão é constante. Algumas nem querem falar muito sobre o assunto. Tem quem crie estratégia para se desvencilhar de possíveis ataques ou ainda quem só perceba que foi vítima algum tempo depois. “Você se sente com medo, não sabe o que fazer. Se sente até culpada”, diz uma das vítimas.

Mulheres dizem se sentir desnorteadas e constrangidas quando são vítimas

 

“Eu já sofri. Você se sente com medo, não sabe o que fazer. Se sente até culpada. Foi num transporte interestadual. Aqui na cidade ainda não, espero que nunca. Geralmente todo mês viajo, e foi uma situação bem constrangedora, porque eu estava dormindo. Quando viajo eu sinto muito enjoo, então tomo remédio para ir dormindo. Para Aracaju são quatro horas de viagem então eu durmo, quando me acordei já senti alguém se encostando em mim. Embora o outro lado estivesse vazio eu me senti coagida a tomar alguma atitude, faltavam ainda 2 horas para a viagem acabar, não sabia o que poderia acontecer ou qual a capacidade da pessoa. Não sabia o que fazer a respeito daquilo. Quando me acordei fiquei sem saber o que fazer. Não sabia se gritava, se falava alto, fiquei inerte. Fiquei muito assustada e ao mesmo tempo não acreditei se aquilo tudo teria acontecido”, detalha Tainá Mendonça de 27 anos.

Tainá vivenciou assédio e Gilza afirma não ter sido vítima, mas que é comum mulheres serem constrangidas (Fotos: Edilson Omena)

Tainá diz que além de ter vivenciado a experiência também já presenciou no ônibus. Ela diz que muitas pessoas acham errado a pessoa reagir, fazer escândalo, mas que o assédio constrange, incomoda.

“Dentro da cidade eu pego ônibus todos os dias e a gente que é mulher sempre tem medo que isso possa acontecer. Porque onde moro os ônibus são sempre muito cheios. Quando você está sentada sempre tem alguém se encostando, já vi acontecer e quase acontecia comigo, mas eu tomei uma atitude mais rápida. Sempre tem um homem ali tentando se encostar. A mulher se sente coagida. Já vi muito isso”, afirma.

Mesmo assim, ela diz que demorou um tempo até assimilar que de fato tinha sido assediada. Agora ela afirma que com mais informações tem tomado também precauções.

“Não pensei em fazer Boletim de Ocorrência, porque não sabia que isso era assédio, não sabia exatamente o que era. Quando conversei com uma pessoa, ela me disse que era assédio, só que aquilo já tinha passado, eu não conhecia a pessoa, não tinha mais o que fazer. Não tive o pensamento de fazer a denúncia. É complicado saber como reagir. Não sabia como reagir antes, agora tomo precauções”.

Gilza da Silva de 34 anos afirma nunca ter sido vítima de assédio no transporte público, mas diz que é comum observar situações em que mulheres são constrangidas e agredidas.

“A gente vê direto. Outro dia uma moça subiu no ônibus e um senhor de idade, idoso, já subiu ‘encoxando’ ela, empurrando. Isso é direto. Dentro do ônibus a gente fica naquela tensão, com medo que as pessoas passem perto demais, quando o ônibus tá cheio é ruim, é difícil.  Tenho medo de que aconteça comigo, é a minha segurança. Quem quer sofrer um assédio? Ninguém né. Nós que somos mulheres, que pegamos ônibus lotados  todos os dias estamos vulneráveis a isso”, destaca.

 

Fonte: Tribuna Independente / Evellyn Pimentel

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