Cidades

14 de maio de 2019 13:16

OAB adotará providências contra ataque que destruiu terreiro de candomblé

Comissão cobra delegacia específica para apurar crimes contra a dignidade humana

↑ Mãe Vera é recebida por comissão da OAB com apoio de religiosos de matriz africana (Fotos: Sandro Lima)

O presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Social, Alberto Jorge, o “Betinho”, recebeu nesta terça-feira (14), na sede da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Alagoas, em Jacarecica, representantes de religião de matriz africana para tratar da invasão e quebra do terreiro da Mãe Vera, ocorrido durante a madrugada dessa segunda-feira (13), no bairro Cidade Universitária, na parte alta de Maceió.

Mãe Vera quer providências quanto à destruição da frente do ‘barracão’ que aconteceu por volta das 4h de ontem. Ela se diz estarrecida com o fato que ocorreu pela primeira vez em 29 anos de existência do terreiro. “Nunca imaginei que isso poderia acontecer comigo, logo eu que trabalho com a comunidade local, a gente tocava sem problema nenhum”, mencionou.

A mãe de santo disse ainda que não sabe a quem apontar pelo ato discriminatório e que não irá baixar a cabeça para ninguém. “Não tem a quem desconfiar, é só intolerância religiosa mesmo, mas foi planejado porque aconteceu justamente no dia em que não estava funcionando nenhuma delegacia, sei bem como é, sou negra e mulher…”, comentou.

Mãe Vera, vítima de intolerância religiosa, diz que não vai baixar a cabeça

Apesar do susto, mãe Vera diz que não tem medo de que volte a acontecer episódios como o de segunda-feira no seu terreiro, afirmando que está amparada para o que vier acontecer no futuro. “As atividades de funcionamento já voltaram e não vou parar, continuarei tocando, não baixo a bandeira e seguimos lutando”, acrescentou.

“Nivaldo Barbosa, presidente da OAB-Alagoas vai levar a reivindicação para o Conselho de Segurança (Conseg), como pauta da próxima reunião, que irá analisar essas agressões à religiosidade afro-brasileira, inclusive pedindo que as autoridades possam visualizar esses crimes e buscar soluções, como a criminalização de quem pratique atos de intolerância religiosa”, ressaltou Betinho.

O presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Social destacou também a importância da criação de uma delegacia especializada, já que, segundo ele, geralmente o fato é direcionado para uma delegacia do bairro. “Não que os delegados das distritais não tenham capacidade de apurar o fato, mas para garantir a celeridade da investigação, como existem as delegacias: da mulher, da criança e do adolescente, roubos e furtos, entre outras”, frisou.

“Se tivéssemos uma delegacia especifica para apurar crimes contra a dignidade humana, que envolve os LGBTs assassinados em Alagoas, negros com a discriminação, o povo da religiosidade afro-brasileira com agressões e invasões constantes aos templos sagrados e indígenas a realidade poderia ser outra”, emendou, reforçando a intenção de discutir a criação de uma delegacia especializada para quem sofre agressão no estado.

20 casos de intolerância por ano

Por ano cerca de 20 casos de intolerância religiosa são registrados pela Federação Zeladora das Religiões Tradicionais Afro-Brasileiras em Alagoas nos mais de 1.200 terreiros existentes no estado. De acordo com Paulo Silva, presidente da entidade, o fato é lamentável em pleno século 21. “Há a subnotificação porque sabemos que muitas pessoas têm medo de denunciar, mas os casos de intolerância são todos os dias desde agressões morais até físicas”, disse.

“Acontecimentos como este caracterizam regressão e Alagoas não pode ficar nesse patamar. Temos que tomar atitudes e as autoridades devem garantir os direitos. Estamos solidários ao Ilê Axé de mãe Vera e com todos os outros, mas temos certeza que iremos conseguir nosso objetivo”, salientou.

Paulo Silva

Mãe Mirian, uma das mais antigas sacerdotisas do candomblé em Alagoas, atualmente conselheira do Conepi – Conselho de Discriminação Racial Estadual, – estava na reunião da OAB e destacou os últimos acontecimentos. “É inadmissível que nos tempos de hoje ainda haja intolerância contra a religião de matriz africana, sei que melhorou um pouco depois das políticas públicas, porém a discriminação continua e cobramos uma solução, um caminho para que as pessoas nos respeitem, não estamos chamando ninguém para ser do candomblé, essa religião se chega pelo amor ou pela dor, igual às outras, onde adoramos o nosso grande Deus, que recebe o nome de Olorum e os elementos da natureza, que é Deus e Deus é a natureza”, defendeu.

Mãe Mirian

 

 

Fonte: Tribuna Hoje / Ana Paula Omena

Comentários

MAIS NO TH