Cidades

16 de fevereiro de 2019 08:03

Esvaziamento de imóveis pode tornar Pinheiro um bairro fantasma

Especialistas avaliam impactos provocados pelo fenômeno das rachaduras no bairro

↑ Campanha incentiva ex-moradores a continuar comprando nos estabelecimentos do Pinheiro que costumavam frequentar quando moravam no bairro (Foto: Adailson Calheiros)

Enquanto especialistas se debruçam nos mais diversos estudos para descobrir as causas do fenômeno no bairro do Pinheiro e os órgãos públicos atuam em força tarefa para resolver problemas decorrentes dele, outro fenômeno ocorre paralelamente a este: a ruptura social e cultural do bairro. A Tribuna Independente consultou especialistas de várias áreas do conhecimento para entender quais os impactos da desocupação, até agora temporária, do bairro.

Uma urbanista, um psicólogo, um geógrafo e um historiador analisaram cada um sob seu viés como a intensa desocupação de imóveis no Pinheiro pode afetar a história do bairro e até a estrutura urbana da capital.

Em 15 de fevereiro, há exatos um ano e um dia, um temporal provocou o surgimento de crateras e o aparecimento/aumento de fissuras na região deixando a comunidade em alerta. No mês seguinte, um tremor de 2,4 pontos na Escala Richter “decretou” o fim dos dias pacatos num dos bairros mais antigos de Maceió.

A constante chegada de estudiosos, equipes da Defesa Civil e imprensa foi aos poucos movimentando o até então pacato bairro do Pinheiro. De lá para cá, não há um só dia em que não haja atividades relacionadas ao fenômeno no bairro seja por protestos, reuniões, presença de pesquisadores, técnicos, equipes trabalhando, interdições, imprensa…

Pouco mais de 500 imóveis tiveram a recomendação de desocupação, entre os mais de 6 mil que existem no bairro, segundo a Defesa Civil Municipal. Isto sem contar os imóveis que diariamente têm sido esvaziados por conta própria, pelo medo ou incerteza da população. E o que isso pode e tem provocado? Qual a consequência de um bairro populoso, até então com população de mais de 20 mil pessoas, e importante econômica e historicamente, ser esvaziado desta forma?

Para o geógrafo, especialista em Ciências Ambientais e Mestre em Recursos Hídricos e Saneamento, Jeilson Vieira, as consequências do esvaziamento no bairro podem ser irreversíveis, porque além de impactarem estruturas e edificações, afetaram diretamente o cotidiano das pessoas.

“O que vem acontecendo com o bairro com os recentes problemas no solo da localidade, causando dano na malha viária e nas edificações, faz com que pessoas que lá residem a décadas saiam de suas residências e migrem para outras localidades. Esse êxodo forçado implica em uma ruptura social imensurável, causa um impacto social, na maioria das vezes, irreversível. Pessoas que tinham suas raízes estabelecidas com muita afinidade no bairro, se veem agora obrigadas a romperem seus laços sentimentais com o local onde viveram parte de suas vidas. As consequências de uma ruptura drástica como essa levam a consequências muitos sérias, que vai desde o declínio do comércio local, passando pela vida escolar principalmente das crianças, até chegar a afetar a saúde das pessoas, é um situação bastante grave vivenciada por essa pessoas. Existem localidades no Pinheiro em que os cidadãos convivem com seus vizinhos há anos, uma comunidade que cada um tem intimidade e conhece os hábitos dos outros, e essa ruptura nesse convívio social, com certeza afetará negativamente a vida dessas pessoas, principalmente as de idade mais avançadas que têm uma identidade e grande afinidade com o bairro onde nasceram, cresceram e desenvolveram parte do ciclo de suas vidas. Essas pessoas serão as que mais vão sentir esse processo de ruptura social. Vejo com muita preocupação esse impacto social na vida dessa comunidade”, explica.

Bairro vive processo de isolamento, diz urbanista

 

O Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento Alagoas (IAB-AL), Isadora Padilha, o bairro do Pinheiro vive um momento de isolamento da cidade do ponto de vista urbano.

“O que acontece hoje com o bairro é que aos poucos está se tornando um bairro fantasma. O bairro está momentaneamente isolado, vamos dizer assim, muitas pessoas preferem não trafegar por lá, quem mora no perímetro mais crítico está saindo. Tudo isso está gerando uma sensação de insegurança e incerteza muito grande. E aumenta a possibilidade de esvaziamento, é um bairro inteiro que aos poucos vai se tornando fantasma. Mesmo em áreas que não estão cotadas para esvaziamento imediato, só pelo fato de se ter ruas interditadas e essa incerteza gera nas pessoas a vontade de não estar ali. A vida urbana corriqueira passa a ter uma série de obstáculos”, afirma ela que é também arquiteta e urbanista.

O historiador Osvaldo Maciel considera a concretização do esvaziamento do bairro uma “tragédia social” e que vai exigir de pesquisadores uma atenção sobre os aspectos de formação das memórias e do processo histórico.

Osvaldo Maciel diz que esvaziamento vai gerar uma “tragédia social” (Foto: Sandro Lima)

“Até onde eu conheço existe pouca pesquisa sobre a formação histórica do espaço urbano de Maceió. Isso parte das carências das nossas produções historiográficas, apesar dos avanços temos pouca coisa feita sobre isso. Apesar de ser uma história muito inaugural, a gente tem uma visão mais ampla de desenvolvimento do espaço urbano nessa região, que a concretização mais ruim dessa tragédia vai exigir um esforço extra de historiadores, arquitetos, economistas para a gente reconstruir e recuperar essa história. Elaborar uma história para essa eventual lacuna que venha ficar tem uma dupla dimensão. Essa tragédia social se concretizando de fato vai gerar um imperativo moral para recuperarmos essa memória, mas por outro lado a gente vai ter uma memória traumática em função dessa tragédia, que é uma memória muito mais difícil para recuperar”, comenta.

Efeitos
Identidade do local também é afetada pelo esvaziamento

 

Para o psicólogo Carlos Gonçalves há uma ruptura no processo de identidade cultural dos moradores do bairro, principalmente dos mais velhos e dos que deixaram ou precisam deixar o bairro.

“Passar por uma situação dessas requer muito conhecimento de si mesmo, além do que existe a questão que o ser humano é um ser biopsicossocial. Nós também temos essa questão cultural, nos apegamos aos costumes de um determinado local, região, pessoas. Temos identidade, com as lembranças afetivas, memórias que foram construídas também. Então se desvencilhar disso, traz também muita dor, sentimento de paralisia. E por isso é muito importante pedir ajuda”, destaca.

Na opinião de Isadora Padilha, de imediato, diversos impactos são gerados a partir do esvaziamento dos imóveis, seja por questões de segurança, pertencimento, emocionais. Segundo Padilha a realidade urbana do bairro tem sido afetada.

“O bairro do Pinheiro é um bairro antigo e predominantemente residencial. Numa faixa de extensão do bairro foram esvaziados mais de 400 imóveis e esse esvaziamento faz com que as ruas fiquem vazias, as casas vazias, e isso cria uma sensação de insegurança. Óbvio que antes disso, o maior impacto é na vida das pessoas, que estabeleceram suas vidas ali e ao saírem rompem laços de vizinhança e pertencimento. Se elas vão poder voltar ou não isso é uma situação de instabilidade e insegurança em vários sentidos, tanto no sentido prático quanto no sentido psicológico. Há também um impacto em relação a mobilidade, vias interditadas por questões de segurança, esse impacto acontece em uma área que fica nas imediações da Avenida Fernandes Lima, uma das mais importantes da cidade, que liga vários bairros, a parte alta e baixa da cidade”, pontua.

“Quebra a sensação de pertencimento”

 

Olhando sob outro aspecto urbanístico, segundo a presidente do IAB, Isadora Padilha, há um processo de ruptura no pertencimento das pessoas em relação ao bairro.

“Hoje há mais incertezas do que certeza. E a incerteza em relação ao bairro concorre para que as pessoas não vivenciam o lugar e portanto não se sintam a vontade para estar ali. Isso quebra a sensação de pertencimento. Se você foi morador, é morador e antes de tudo isso tinha com o bairro uma relação de pertencimento, de onde viveu construiu a vida, hoje esse laços estão quebrados, podem estar quebrados temporariamente caso isso se resolva, ou podem ser rompidos para sempre se as pessoas realmente decidirem refazer suas vidas em outro lugar”, aponta.

O geógrafo Jeilson Vieira considera que é preciso que todos os estudos sejam concluídos para então determinar o que de fato vai permanecer como efeito e o que pode ser minorado. Entretanto na avaliação do geógrafo algumas consequências práticas estão em curso.

“Diante dos estudos que estão sendo feitos, logo que tenha um resultado concreto do que realmente está acontecendo, é possível sim prever os impactos para cidade de Maceió, alguns já são evidentes e já ocorrem, como a mudança na rotina das pessoas, os prejuízos dos comerciantes da localidade, e a consequente desvalorização dos imóveis, esses efeitos já estão sendo sentidos na cidade. Eu vou um pouco mais além, acredito que se for confirmada o que se vem conjecturando e que já foi amplamente divulgado nos meios de comunicação, as consequências em termos econômicos poderá ter impactos significativos na economia do Estado, mas é preciso esperar as conclusões dos estudos que estão sendo realizados para que se possa ter uma dimensão real dos impactos, que poderá ocorrer tanto para o município como para o Estado como um todo” diz Vieira.

Geógrafo Jeilson Vieira avalia que consequências poderão trazer impactos significativos na economia do Estado (Foto: Arquivo pessoal)

Do ponto de vista emocional, sair de sua residência, o que para muito é o único patrimônio, construído ao longo de uma vida, pode ser extremamente traumático. Segundo o psicólogo Carlos Gonçalves algumas pessoas diante da situação, não conseguem lidar.

“É o que a gente chama na psicologia de Transtorno Pós Traumático, porque as pessoas vão sofrer algum tipo de ansiedade, depressão, pânico, alguma coisa transformada nesse sentimento dessa tragédia. Eu investi, aqui eu vou criar meus filhos, meus netos e vou morrer aqui, há uma acomodação e de repente é preciso sair e para alguns vem o desespero. Alguns vão ter mais dificuldade. Nisso soma-se algum tipo de transtorno que vai ser desencadeado por pensamentos disfuncionais, que a casa vai desabar, que a rua vai desaparecer, que a vida vai junto nesses buracos e não conseguem sair desses pensamentos”, afirma Gonçalves.

Especialistas vislumbram saídas para efeitos vivenciados por moradores

Segundo Isadora Padilha, apesar da situação, é possível sim que aos poucos o bairro se restabeleça nos aspectos sociais, urbanos e econômicos desde que a população possa se sentir segura novamente.

“Para que esse bairro volte à normalidade, isto é, volte a estar integrado à cidade, algo que hoje ele não está, é preciso que as pessoas se sintam em segurança novamente e isso só vai acontecer quando se souber o que está havendo no pinheiro e quais medidas podem ser tomadas. Se esse problema for algo que possa ser sanado é possível que o bairro volte aos poucos a um status de reintegração à cidade”, avalia Padilha.

O historiador Osvaldo Maciel fala em processo de reconstrução do imaginário e das memórias tanto para a população quanto para o corpo de estudiosos que atuam na coleta de informações sobre o processo de formação histórico alagoano.

“É um tipo de memória traumática, que dificulta o processo e vai ser uma exigência ética muito mais forte para recompor essa memória a história desse bairro”, diz Maciel.

Carlos Gonçalves destaca que novas histórias podem ser determinadas a partir de perdas como as vivenciadas pelos moradores do Pinheiro. Ele ressalta que apesar das informações negativas e até o acúmulo de divulgação de fake news, é preciso ter uma visão em que é possível se refazer.

“O ser humano é um megafone de coisas negativas. O ser humano tem a pulsão de vida e a de morte, mas a de morte é mais evidenciada. Têm pessoas que reagem muito bem, sofrem perdas e pensam em se reerguer, em tocar a vida, apesar do sofrimento. Mas tem gente que vê as informações, absorve o papel negativo das redes sociais, de matérias que mostram sofrimento. Tudo isso, para quem está com o pensamento negativo é não ter possibilidade de acreditar que existe luz no fim do túnel. Já tem em si a tristeza, a dúvida se vai conseguir sair, aí vem a questão econômica, a queda na qualidade de vida, aí a pessoa só vai atrás de sofrimento, aliado ao que é passado de informação. Infelizmente existem as fake news, as informações concretas de que se busca por uma solução, mas as informações não chegam dessa forma. É muito importante o apoio familiar, o apoio psicológico e até psiquiátrico em casos em que é necessário medicação. Tudo isso vai ser ponto positivo para entender que nesse processo é preciso tomar iniciativas e tomar as melhores decisões”, finaliza.

“Mesmo com impactos atuais, é preciso cautela para avaliar desdobramentos”

 

Os especialistas destacam a necessidade de evitar previsões em longo prazo. Apesar dos impactos imediatos estarem afetando diretamente a população e os aspectos socioeconômicos, não dá para determinar se essa condição será permanente.

Para Jeilson Viera é preciso cautela. “Entendo que o que essas pessoas estão passando são percalços que a depender dos resultados dos estudos poderiam ou não ser evitados. Se chegarem a conclusão que o que vem ocorrendo é motivado por causas naturais, da forma que o bairro foi ocupado ao longo do tempo, não tinha como prever que o problema iria ocorrer, já que não houve um ordenamento efetivo para ocupação da localidade. Neste caso, se o problema for de grande complexidade e difícil solução e que nesses locais não será mais possível o retorno das pessoas para suas residências, podemos dizer que sim é uma tragédia social que impactará negativamente para a capital alagoana e principalmente para a vida das pessoas dessa comunidade. Por outro lado, em se confirmar que o problema foi motivado pelo desenvolvimento de atividades antrópicas (humanas), não podemos falar em tragédia e sim em responsabilidade concreta de que causou esse evento. Mas é preciso ter cautela e só levantarmos questionamentos acerca de eventual responsabilidade após a conclusão dos estudos. Antes disso são só conjecturas”, avalia.

Opinião compartilhada pela arquiteta Isadora Padilha. Ela é enfática ao destacar que é cedo para apontar as consequências em longo prazo. Além de ser necessário descobrir as causas, é preciso ainda saber se o problema pode ser resolvido.

“Fazer um planejamento para o futuro é muito prematuro, é preciso esperar as análises e resultados, saber de fato a extensão do problema e a possibilidade de reversão disso. Mas a depender do que aconteça mais para frente temos uma desvalorização econômica dos imóveis e uma alta nos valores de alugueis em toda a cidade. Infelizmente são consequências nefastas, onde pessoas se aproveitam de uma situação negativa, do sofrimento de outras pessoas. Houve um aquecimento temporário dos alugueis, isso também é um efeito e está ligado à questão urbanística porque imagine que não é só o pessoal do Pinheiro que precisa alugar imóveis, mas outras pessoas por outros motivos. E a depender dos resultados desta situação no Pinheiro, isso [aumento] pode deixar de ser temporário e passar a ser contínuo, aquece uma fatia de mercado mais incide em outros aspectos econômicos”, enfatiza.

Fonte: Tribuna Independente / Evellyn Pimentel

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