Cidades

15 de setembro de 2018 09:10

Sonho de ser mãe supera um dos vilões da gravidez: trombofilia

Mulheres concluem gestação mesmo apresentando alto risco

↑ Para engravidar do pequeno João Miguel, a mãe Cassandra teve que acionar a Justiça para ter direitos à cobertura durante o tratamento (Foto: Arquivo pessoal)

Maternidade é o sonho de muitas mulheres, mas, por diversos motivos naturais ou não, algumas acabam adiando o sonho ou até mesmo desistindo de um dia gerar um bebê em seu ventre. Uma das muitas condições que interferem na hora da gravidez é a trombofilia, doença que acomete muitas mulheres. Porém, com diagnóstico e tratamentos corretos, este desejo ainda é possível.

De acordo com a medicina, trombofilia consiste em um conjunto de alterações na coagulação do sangue, que favorece à formação de fenômenos tromboembólicos. Ou seja, é a predisposição ao chamado ‘sangue grosso’, que contribui para o entupimento das veias. Ela se trata de uma doença que pode trazer diversas complicações à saúde da mulher, uma delas é a dificuldade de gerar um bebê.

Para o obstetra Ramon Carneiro, o tratamento torna-se muito importante já que a mãe com trombofilia traz muitos riscos a sua gestação e ao bebê que está em seu ventre, principalmente porque o problema se agrava ainda mais durante a gravidez. “Mulheres com trombofilia e que ficam grávidas são consideradas de risco por ter riscos maternos de trombose e assim, consequentemente, de embolia pulmonar e risco obstétrico. Os mais frequentes são os abortamentos de repetição que é bem habitual, os óbitos fetais intrauterinos, partos prematuros e restrição de crescimento intrauterino”, explica o obstetra.

Diagnóstico

Ainda de acordo com Ramon Carneiro, a suspeita clínica é feita através de uma anamnese. “Procuramos conhecer o passado clínico e obstétrico da paciente, por meio de história pregressa de trombose, história familiar de primeiro grau de trombose, abortamentos de repetição, perda fetal intrauterina em gestação anterior e/ou restrição de crescimento sem causa primária diagnosticada”, informa.

Quando os pacientes são de risco, o diagnóstico e o rastreamento são feitos de outra forma. “Através de exames de sangue que avaliam as proteínas que participam da cascata de coagulação e presença de anticorpos que influenciam na cascata de coagulação. Este rastreamento deve ser realizado fora da gestação e pelo menos seis meses após o episódio trombótico”, pontua o obstetra.

Para não contrair a doença, o especialista ainda informa que é necessário tomar alguns cuidados com o estilo de vida e com o corpo ao longo da vida fértil. “É importante se preocupar com alguns fatores como evitar sedentarismo e a obesidade; anticoncepcional que contenha estrogênio; fazer planejamento familiar por meio de métodos não hormonais (camisinha, DIU de cobre) e hormonal com progesterona isolado (desogestrel mirena e medroxiprogesterona); tabagismo; usar meias compressivas e evitar imobilização de membros por tempos prolongados sem que haja nestes períodos exercícios para circulação do sangue nos membros inferiores. Pacientes que trabalham sentadas sugiro que levantem frequentemente ou façam exercício com a panturrilha. Dessa forma é possível evitar futuros problemas relacionados à trombofilia. E caso a mulher saiba que tem trombofilia e deseja engravidar, o ideal é que tenha acompanhamento médico com hematologista, além do obstetra”, orienta Carneiro.

Obstetra Ramon Carneiro alerta futuras mães sobre os vários riscos da gestação quando se tem trombofilia (Foto: Arquivo pessoal)

Mães passaram por vários abortos até entenderem razão de dificuldades

A funcionária pública Caline Gondin e a analista de sistemas Cassandra Cedo são exemplos de mães que após serem diagnosticadas com trombofilia se submeteram ao tratamento indicado e conseguiram ter uma gestação de sucesso. Hoje elas carregam seus bebês nos braços e garantem que o esforço valeu muito a pena.

Caline Gondin, com apenas 24 anos, passou por três abortos até entender que tinha trombofilia. Segundo ela, o seu obstetra desconfiou e o diagnóstico foi bem difícil. “Tentei engravidar aos 21 anos e só consegui levar a gravidez adiante aos 23. À época meu plano só permitia que os exames fossem cobertos a partir do terceiro aborto. Até chegar ao diagnóstico a frustração era imensa demais. Eu não conseguia nem ficar feliz com as minhas amigas que engravidavam. Parece um pouco egoísta, mas quando via gente que não queria engravidando, questionava muito a Deus o porquê de eu não conseguir. Eu pensava que nunca ia conseguir levar uma gravidez adiante. Me sentia completamente impotente”, explica Caline, que é mãe da saudável Helena.

Assim que engravidou, Caline começou a ingerir comprimidos de AAS (ácido acetilsalicílico), orientada por seu obstetra. E após seis meses de gestação veio o diagnóstico de que ela, de fato, tinha trombofilia. Após a certeza, ela deu continuidade ao tratamento incluindo em sua rotina dosagens de heparina (substância anticoagulante natural), por meio de injeções. E dessa forma conseguiu segurar a gestação.

“Dependendo do caso, o médico define a dosagem da heparina. No meu caso foi uma injeção de 40mg e um comprimido de AAS, todos os dias, até 40 dias após o nascimento da minha filha para evitar trombose”, informou.

Mães acionam Justiça para tratamento

 

Graças ao tratamento realizado contra a trombofilia, Caline Gondin conseguiu ser mãe da pequena Helena (Foto: Arquivo pessoal)

Com Cassandra Cedro não foi diferente. Ela começou as tentativas de gravidez aos 33 anos, mas só conseguiu segurar a gestação aos 38 anos após diagnóstico correto. Cassandra descobriu a doença depois do obstetra desconfiar dos dois abortos que aconteceram ainda no

primeiro trimestre da sua gravidez. A orientação para ela também foi a mesma. Cassandra deu continuidade às dosagens da injeção após o parto por mais seis semanas e atualmente continua ingerindo AAS para não ter trombose.

“Meu obstetra suspeitou e me encaminhou imediatamente para o hematologista que, consequentemente, passou todos os exames específicos. Após os resultados que comprovaram a doença, iniciei o tratamento. Consegui levar a gravidez adiante depois de começar os medicamentos (injeções e comprimidos de AAS). Até saber o que motivava meus abortos eu vivia frustrada achando que nunca seria mãe. Pensava que nunca conseguiria segurar e se tentasse engravidar novamente iria abortar. Atualmente meu João Miguel, (filho da Cassandra), tem quatro meses e ainda tomo AAS para não coagular meu sangue”, conta Cassandra.

“Picadinhas do amor”

Picadinhas do amor, assim que as duas mamães, marinheiras de primeira viagem, chamam carinhosamente o tratamento no qual foram submetidas. Isso porque elas tiveram que aprender sozinhas a se automedicar durante o período do tratamento. Rotina e perseverança eram fatores importantes para a realização do sonho de ser mãe.

“No começo foi um pouco difícil. Tive que aprender aplicar a injeção direitinho. E ao ver que ela, (sua filha) estava superbem nas ultrassons, tudo passou a ser mais leve. Eu sempre pensava: hoje é menos uma”, diz Caline Gondin, que ainda informa que para não pensar muito, se ocupou bastante durante a gestação.

“Me ocupei muito durante a gravidez. Trombofilia não nos impede de fazer absolutamente nada, pelo contrário, temos que fazer com que o sangue circule. Fiz hidroginástica, trabalhei a gravidez toda, subia e descia as escadas da minha casa o dia inteiro, fiz absolutamente tudo e isso me ajudou muito a não ficar ansiosa” comenta.

Cassandra também teve que aprender a aplicar a injeção sozinha diariamente por longos 10 meses. No início veio o medo de não conseguir. Mas com o apoio do marido e da família ela se sentia confortada.

“No começo era muito difícil. Eu tinha medo e ficava nervosa, mas sabia que era para realização de um sonho. Tive que aprender pelo meu filho, afinal, foram dez meses de tratamento. Ainda assim eu tinha medo de não conseguir. Eu tomava as injeções diariamente, mas confesso que pensava: e se não der certo? Mas era necessário, e isso me fortalecia”, afirma Cassandra.

Desgastante

O tratamento para mulheres com trombofilia que desejam engravidar, além de desgastante, é bem alto, gira em torno de 22 a 25 mil reais. Para serem submetidas ao tratamento, Caline e Cassandra tiveram que acionar a justiça, já que os planos particulares não cobrem todo o procedimento. Após conseguirem, o tratamento foi custeado pela Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau) e as injeções concebidas pela Farmácia de Medicamentos Excepcionais (Farmex).

“Tive que acionar um advogado para mover uma ação contra o Estado para conseguir as injeções”, informa a funcionária pública.

“Fiz vários exames de sangue. A maioria foi paga porque meu plano não cobria. Comprei as injeções apenas no primeiro mês. Após a hematologista dar o diagnóstico por escrito precisei acionar a Justiça para dar continuidade ao tratamento. Depois dei entrada com uma ação para pegar as demais injeções na Farmex”, conclui Cassandra Sá.

Fonte: Tribuna Independente / Daniele Soares

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