Cidades

15 de setembro de 2018 10:45

Sem rosto, mas cheio de personalidade

Trabalho da ceramista Maria Corá impressiona pela riqueza de detalhes

↑ Argilas coloridas dão um tom diferenciado às peças; artista também produz colares com flores e contas de cerâmica e vidrilhos (Foto: Edilson Omena)

“O que é mais bonito? É uma mulher bonita ou uma mulher que sabe o que está carregando no seu corpo?” A frase é da artista Silvana Maria Vieira de Oliveira, de 43 anos, ou simplesmente Maria Corá, e resume a visão sobre seu trabalho.

Para muitos, é uma desconhecida. Mas a ceramista já está há 17 anos se dedicando a um trabalho que impressiona e enche os olhos. São bonecas de argila cheias de cores, tons e rendas, mas com um detalhe: sem rosto.

“Uma mulher bonita é apenas uma mulher bonita. Mas o que é uma mulher sem rosto com um vestido cheio de rendas e flores, que mostra todo o trabalho, o peso das rendas de Alagoas?”, questiona a artista.

“Eu comecei a entender que essa poética apelava para uma necessidade de transcender a lógica. Eu acho que o fato de não ter rosto é isso. Eu não preciso de amarras. O rosto é um pequeno detalhe. Eu gosto de trabalho nas cores, nas tramas, nas formas e texturas. Gosto mais de me aventurar nisso, ao invés do que é lógico. Para o artista, o que é lógico amarra, prende…”, explica.

Apego às rendas remonta da infância

Maria Corá conta que começou a estruturar sua poética estudando a renda feita por mulheres alagoanas: ‘Fui vendo e querendo isso para mim, só que sou uma rendeira do barro’ (Foto: Edilson Omena)

Autodidata, a ceramista conta que seu apego à arte e especificamente às rendas remonta da infância, mais precisamente da mãe, que ensinou a arte do crochê. Algo que segundo ela, abriu os olhos e o coração para o trabalho feito à mão.

“Eu aprendi crochê com minha mãe. Sempre a vi fazendo crochê. Ela conta que eu engatinhava e brincava com as linhas, enquanto ela fazia. Foi aí que veio minha aptidão manual. Eu sempre gostei de artes, eu tenho uma aptidão para as coisas de arte. O meu trabalho é fruto de uma pesquisa, que existe até hoje. Quando eu estava tentando estruturar minha poética eu fui estudando as rendas que as mulheres fazem aqui em Alagoas, que é algo muito forte, tem famílias que são sustentadas por mulheres rendeiras. A partir daí eu fui vendo e querendo isso para mim, só que eu sou uma ‘rendeira do barro’. Eu criei uma poética em cima das rendas e isso cerca minha existência”, comenta.

E lá se vai quase uma década desde a primeira boneca de cerâmica, que surgiu de forma despretensiosa. O objetivo era fazer das bonecas apenas um “cabide”, uma peça secundária para que fossem expostos os vestidos que ela fazia.

“Minha trajetória de ceramista começou quando eu ainda fazia trabalhos manuais. Eu sempre fiz crochê, tá aqui o meu vestido que não me deixa mentir [risos], e eu sempre bordei. Sempre fui muito boa em trabalho manuais. Quando eu comecei a trabalhar com argila, foi porque queria colocar os vestidos de crochê nas bonecas, imagina que loucura. Até chegar no produto final eu levei onze anos”, detalha.

Maria Corá foi criando suas próprias técnicas a partir do desejo de produzir peças que expressassem seu olhar, sua forma de ver o mundo.

“Eu fui aprendendo sozinha, eu fazia as técnicas. Ia para congressos, aprendia as técnicas e trazia as técnicas e tentava fazer. Fui estruturando meu trabalho, que na verdade é uma colcha de retalho de técnicas e cheguei nesse final visual tão impactante. Na verdade quando eu comecei a fazer cerâmica eu não consegui largar. A argila é algo que me incomoda todo dia. O trabalho com argila é uma aventura todo dia. A cerâmica me possibilita fazer coisas diferentes todos os dias”, diz a artista.

“Eu sou professora de educação artística, conclui o curso, mas nunca lecionei. Eu gosto muito de artes. Mas quando eu comecei a fazer as bonecas, as pessoas falavam para e

curso de desenho, para fazer um trabalho perfeito. Mas eu dizia que queria no meu estilo, que se fizesse um trabalho hiper-realista, qual graça teria?”, destaca.

Autenticidade como marca registrada

Questionada sobre as influências, Corá acredita que a autenticidade é encarada como sua marca registrada. Ela considera que seu trabalho, apesar de reunir diversas técnicas, e sua “bagagem” pessoal é muito próprio, isto é, não se encontra em lugar algum.

“O fato de ter aprendido sozinha foi muito desesperador, mas acredito que traga algum valor às peças, que agregue à minha história. Não que eu não considere o trabalho dos mestres artesãos em Alagoas, pelo contrário. João das Alagoas, por exemplo, para mim é um deus do artesanato, tem seus seguidores, um trabalho belíssimo, mas no meu caso eu queria fazer algo que mostrasse quem sou, que falasse sobre mim. Foi bom eu ter aprendido só, porque é um estilo só meu, eu criei um mundo só meu, foi um trabalho muito longo e cansativo, mas eu estou começando a gostar do resultado, porque há um caminho pela frente”, aponta.

A riqueza de detalhes que envolve rendas, bordados, flores e estampas, cores e tons são fruto de uma extensa pesquisa em várias partes do país e com diversos artistas que produzem as rendas que Corá utiliza nas bonecas.

“Utilizo rendas de verdade, vou comprando rendas das minhas amigas e todo o material é feito com argila colorida. Utilizo pigmentos naturais, minerais, o barro também é mineral e eu consigo mudar a cor da minha matéria prima só colocando óxidos. Por conta disso eu consigo as cores tão diferentes, nesses tons. Foram muitas viagens para conseguir os barros, que são de vários lugares diferentes. Tem muita coisa agregada no meu trabalho, ele tem um pedacinho de cada lugar”.

Ela conta que recebe pedidos de vários lugares do país e fora do país. Realidade que até cinco anos não parecia algo palpável. Mesmo assim, segundo Corá, o “anonimato” tem sido escolha pessoal.

“O fato de não ser tão conhecida é muito por minha causa. Eu não sou uma artista emergente, não me vejo como uma artista conhecida. Ainda tenho muito para percorrer, muito para ser conhecida. O alagoano ainda não conhece meu trabalho, ainda. Eu quero estar perto do público, mas por outro lado eu gosto de ficar sozinha no meu canto, para trabalho. Eu só consigo produzir no meu ateliê e lá eu gosto de ficar sozinha, nem celular atendo. Quem faz um trabalho assim não tem tempo de ficar nas mídias sociais. Eu preciso ficar enclausurada para poder trabalhar. Eu preciso disso. Mas agora estou me abrindo mais para o público e estou feliz”, detalha.

Além das bonecas, Maria Corá produz acessórios. São colares com flores e contas de cerâmica e vidrilhos. As bonecas também começaram a receber novas técnicas, como a incrustação de vidro.

“Os acessórios surgiram por uma pressão do meu consumidor. Como eles acham que meu trabalho é muito feminino, diziam que eu tinha que trabalhar com acessórios. Eles surgiram por conta disso. Estou começando a pegar gosto e estou achando maravilhoso.”

Fonte: Tribuna Independente / Evellyn Pimentel

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