Cidades

23 de agosto de 2018 15:53

736 animais encalharam no litoral alagoano de maio a julho deste ano

Números foram registrados após o Instituto Biota dar início ao monitoramento diário no Estado

↑ Espécie foi encontrada no início da noite de hoje (Foto: Instituto Biota - Arquivo)

Na manhã de quarta-feira (22), um filhote de baleia jubarte foi encontrado morto na praia de Garça Torta, no Litoral Norte de Maceió. O animal estava em estado avançado de decomposição. Este foi o quarto encalhe de baleia somente este ano no Estado.

No último dia 15, um filhote de boto também foi encontrado morto, só que na praia de Lagoa do Pau, no município de Coruripe, Litoral Sul de Alagoas. O animal foi achado por um pescador. A causa da morte foi afogamento, devido à interação com rede de pesca. De acordo com Instituto Biota, só entre maio e julho deste ano já encalharam no litoral alagoano 736 animais.

Entre os 736 animais encalhados estão: 149 aves – destas 28 vivas, três foram soltas, outras três ainda encontram-se em reabilitação e 22 foram a óbito. O número de tartarugas marinhas que encalharam é impressionante. Já foram 577, sendo apenas 14 vivas. Dentre as 14 vivas, três continuam em reabilitação e 11 foram a óbito.

Já a quantidade de mamíferos (golfinhos, baleias e outras espécies) encalhados entre maio e julho soma 10 animais e todos em óbito segundo o instituto.

Somente em agosto já são 13. O segundo encalhe foi do filhote de boto no dia 15.

A coordenadora de pesquisa do Biota, Waltyane Bonfim, explica que o quantitativo de tartarugas do último trimestre já é maior do que todo o número de registros do ano passado, em que foram contabilizados 342 encalhes de tartarugas. Segundo ela, se compararmos apenas o trimestre, no mesmo período do ano passado foram 45 animais. Ela ressalta que os números podem ser maior.

“Até abril, nossos registros eram feitos sob demanda da população e por meio de monitoramento de praia três vezes na semana, só no trecho entre riacho doce e Carro Quebrado. Apenas a partir de maio, por meio de uma condicionante ambiental do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] iniciamos um monitoramento de praia diário em quase todo o litoral, desde Feliz Deserto até Maragogi. Com esse monitoramento, temos condições bem melhores de ter um panorama maior e mais real do que está acontecendo com esses animais ao longo do nosso litoral”, explica Waltyane.

Quatro baleias encontradas mortas

Esse ano já teve quatro encalhes de baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) segundo o Biota. “Mas ainda esperamos mais, visto que até novembro esses animais se encontram na costa do Brasil. Além disso, no ano passado tivemos oito encalhes de jubarte e sete deles foram entre os meses de agosto e setembro”, ressalta.

Em 2017, Alagoas ocupava a quarta posição do país no número de encalhe de baleias da espécie jubarte segundo dados do Instituto Baleia Jubarte (IBJ). A reportagem do jornal Tribuna Independente entrou em contato com o IBJ para saber qual o ranking atual, mas até o fechamento do material não obteve retorno.

ESPÉCIES

A coordenadora de pesquisa ressalta que no estado já foram registrados encalhes de quatro tipo de espécies de tartaruga marinha e quatro de mamíferos.

“Temos encalhes de quatro espécies de tartaruga marinha. A tartaruga-verde, a tartaruga-cabeçuda, a tartaruga-oliva e a tartaruga-de-pente. Quatro espécies de cetáceos (três de golfinho e uma de baleia). O boto-cinza, o golfinho-de-dentes-rugosos, o golfinho-pintado-pantropical e a baleia-jubarte”, conta.

Já encalhes de aves foram oito espécies; pardela-do-bico-amarelo, atobá grande, albatroz, mandrião pomarino, pardela-de-óculos, pardela-preta, fragata e pardela-de-bico-preto.

Exames detalhados devem ajudar a identificar causas de mortes

A coordenadora de pesquisa do Biota, Waltyane Bonfim, disse que muitos animais já chegam às praias em avançado estágio de decomposição, o que impede uma avaliação mais detalhada para identificar a causa da morte.

“Para ter uma conclusão sobre os motivos é preciso uma série de exames detalhados. Assim, para os animais que encalham com morte recente, é realizada a necropsia e a gente coleta uma série de amostras que serão analisadas em laboratórios e que podem nos dar algum panorama sobre contaminação, ingestão de conteúdo antrópico, parasitoses, e outros fatores. Agora com esse monitoramento diário é que poderemos ter um banco de dados mais robusto para investigar o que acontece com os animais daqui”, explica Bonfim.

Em relação ao boto encontrado morto semana passada, Waltyane disse que foi possível identificar uma interação antrópica negativa que levou a morte do animal.

Já em relação a encalhes de jubartes, ela explica que essa é uma época mais comum. “Por isso, falei que é possível que ocorram mais encalhes, pois de julho a novembro é o período que os animais migram da Antártica para se reproduzir em águas brasileiras’’, comenta.

IMPACTOS

O professor Dr. Diego Freitas Rodrigues, do Mestrado em Sociedade, Tecnologias e Políticas Públicas da Unit e líder do grupo de pesquisa Observatório de Impactos Ambientais e de Saúde do CNPq ressalta que os impactos ambientais que produzem o encalhamento de cetáceos em geral se deve a áreas marinhas com elevado trânsito de navios, que terminam por ser áreas com ondas de radar de alta frequência e também produzem abalroamentos, acidentais com navios.

“Além do aumento do tráfego de navios elevar o risco de mortes de baleias, os oceanos de forma geral encontram-se altamente poluídos, o que interfere diretamente com os habitats das espécies e na sua alimentação, resultando em distúrbios metabólicos em baleias, golfinhos e outras espécies marinhas”, explica Rodrigues.

Segundo Rodrigues, neste período, aumenta o trânsito de animais por essa região. ‘’É possível ver e ouvir relatos surgindo do Litoral Norte ao Sul de Alagoas.

Especialmente no caso das baleias. Como sua alimentação é basicamente o plâncton e caso o mesmo conter altas doses de saxitoxina e num grande volume, pode acabar se tornando letal para os espécimes que dependem dele para alimentação”, ressalta.

O professor ressalta ainda que sem dúvida parte dos encalhes está relacionada com a ação do homem. “As atividades humanas impactam diretamente na qualidade ambiental dos mares e oceanos. Não é de se estranhar e chocar que mais e mais espécimes sejam encontrados encalhados e em seus estômagos existam plástico não digerido. Os oceanos recebem em torno de 25 toneladas de plástico por ano. É impossível não associar a uma catástrofe ambiental”, relata.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Lucas França

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