Cidades

11 de agosto de 2018 10:03

Acessibilidade: cadeirantes em Alagoas afirmam que falta respeito

Apesar de dispositivos legais que garantem direitos, obstáculos fazem parte da rotina dos deficientes físicos

↑ Presidente da Adefal, João Ferreira Lima classifica a situação de acessibilidade como péssima: “A gente vem lutando há muitos anos e embora exista uma legislação para os transportes, essa legislação nem é cumprida” (Foto: Sandro Lima)

“A violência simbólica não é percebida. É uma violência que não causa dores físicas, mas causa estragos na vida das pessoas. Porque se eu não tenho acesso, eu não consigo chegar. Não consigo educação, saúde, trabalho”. Estas foram as palavras usadas pelo  professor de educação física Guilherme Vasconcelos, de 39 anos, para explicar as limitações impostas em sua rotina.

Quem compartilha as mesmas dificuldades é a também professora Adriana Correia Soares, de 48 anos.  “Cada dia a gente se depara com um obstáculo diferente. Não há fiscalização. Legislação a gente tem aí até uma legislação boa, que favorece pessoas que têm limitação de mobilidade, mas quando você vai olhar de fato, não tem condições. E os órgãos públicos não fiscalizam, não fazem essa fiscalização”, reclama.

Um estudo internacional promovido pela Toyota Mobility Foundation apontou que no Brasil 63% dos cadeirantes precisam de ajuda para locomoção diária; 55% não encontram banheiros que atendam suas necessidades; 41% precisam esperar mais de um veículo de transporte público para conseguir espaço; e assustadoramente, 23% já tiveram o acesso negado ao transporte público.

Recentemente, a reportagem da Tribuna Independente mostrou que nenhuma cidade alagoana possui frota de transporte público 100% adaptada. Seis cidades, das 102 no estado, têm frota parcialmente adaptada.

O presidente da Associação de Deficientes Físicos de Alagoas (Adefal), João Ferreira Lima classifica a situação de acessibilidade como “a pior possível”.

“A situação é a pior que se possa imaginar, é a pior possível. A gente vem lutando há muitos anos e embora exista uma legislação para os transportes, essa legislação nem é cumprida, nós sempre estamos cobrando isso. Mas infelizmente ninguém é punido e nós continuamos andando devagar e bem devagar. Quem sofre é quem está na ponta, é quem depende”, pontua.

Professora diz que limitação é imposta pela sociedade

A professora Adriana conhece bem as dificuldades de encontrar um banheiro em condições adequadas de uso. Segundo ela, apesar da indicação de acessibilidade, poucos conseguem suprir a necessidade.

“A questão do banheiro é bem delicada, porque não é em todo lugar que você pode ir. Porque a porta às vezes é muito estreita, ou então quando entra com a cadeira, não tem condições de fechar a porta. Nem todo lugar os banheiros são acessíveis, mesmo tendo a indicação. Nem em shopping, que deveriam ser, a gente não tem banheiro tão acessível. O adesivo de acessibilidade é colocado muitas vezes por exigência legal, mas quando você vai usar não atende a sua necessidade”, diz Adriana.

“Por experiência própria eu fiz uma atividade, um passeio e no ônibus tinha o adesivo de que o ônibus era acessível, mas não havia elevador. Para ter acesso ao ônibus, os passageiros e o motorista precisavam ajudar, porque não tinha a acessibilidade devida, embora tivesse o adesivo”, ressalta a professora.

A limitação, de acordo com Adriana, é imposta não pela condição individual, e sim pela própria sociedade.

“A sociedade de certa forma limita você quando não dá acessibilidade. Por exemplo, órgãos públicos, escolas, o meu local de trabalho tem rampas, mas eu não consigo subir sozinha porque é muito íngreme. Já precisei ir a um órgão público e como não havia elevador, precisei contar com a boa vontade do servidor para descer do setor dele para me atender”, destaca.

Ela conta que apesar de dirigir diariamente, acaba precisando apelar para táxi ou carona para chegar a determinado destinos. “Tento ser o mais autônoma possível. Eu dirijo, venho trabalhar pego meu filho na escola. Mas é muito difícil. Quando vou para uma consulta, ou chamo um táxi, ou peço para alguém me levar porque sei que não vou ter facilidade para estacionar, ou transitar, por exemplo. A parte de mobilidade nas ruas é a mais difícil para mim. Me movimentar pelas ruas é praticamente inviável, tanto onde moro, quanto onde trabalho”

Na luta pela própria autonomia, Adriana considera a sociedade pouco aberta para as necessidades e limitações das pessoas com deficiência. Para ela faltam respeito e empatia.

“Outro ponto é o respeito das pessoas com a dificuldade do outro. Elas agem como se não fossem ter dificuldades nunca. Acho que é um conjunto de conscientização, respeito, empatia. Tanto a questão da educação que infelizmente algumas pessoas não têm, como o saber se colocar no lugar do outro, partilhar da dificuldade. Cada um tem seu tempo, seus limites e falta que a gente aprenda a se colocar no lugar do outro”.

ENFRENTAMENTO

Apesar de nunca terem se visto, os dois professores vivenciam realidades muito semelhantes. Para Guilherme Vasconcelos, as “barreiras atitudinais” são as mais difíceis de enfrentar.

“Essas barreiras arquitetônicas e atitudinais causam uma violência chamada simbólica. A Lei Nº10098 é a lei que garante acessibilidade. Mas essa lei precisa ser cumprida. É preciso contatar os órgãos responsáveis, para que a cidade seja totalmente acessível. Falta conscientização, sensibilidade e respeito”, aponta.

A realidade em todo o país, segundo Vasconcelos, está espalhada em diversos aspectos. “Eu tive a oportunidade de apresentar um trabalho acadêmico na Espanha e tudo lá é acessível para o deficiente físico. Eu não precisei andar no meio da rua. Aqui no Brasil e em Maceió, eu preciso constantemente andar pelo meio da rua por conta das calçadas, transportes, prédios públicos e privados pela falta de acessibilidade.”

Para ele, que precisa utilizar o transporte público, a rotina escancara a falta de preparo de alguns profissionais, e os riscos decorrentes disso.

“A maioria dos ônibus tem elevador, mas enfrentamos as barreiras atitudinais, porque alguns motoristas e cobradores alegam que o elevador está quebrado ou não esperam os cadeirantes se arrumarem no espaço reservado para a cadeira de rodas. O que arrisca cair da cadeira. Muitas vezes no transporte público, os rodoviários não esperam os cadeirantes se organizarem, colocar o cinto, em outros casos nem cinto tem. Na minha opinião é preciso capacitação humanizada e técnica para eles”, questiona.

Fonte: Tribuna Independente / Evellyn Pimentel

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