Interior

31 de julho de 2018 08:49

Chefe de volante teria conluio com Lampião

Tese é apresentada em seminário sobre 80 anos da morte do cangaceiro

↑ Pesquisadores durante debates sobre novas teses no episódio da morte de Virgulino Ferreira, o Lampião, no Seminário Sertão Cangaço (Foto: Cortesia)

A depender de fatos conclusivos sobre a história da morte de Virgulino Ferreira, o “Lampião”, pesquisadores e estudiosos ainda terão muito o que buscar sobre o mito do Sertão, morto no dia 28 de julho de 1938.

Como a Tribuna Independente adiantou na Edição Especial do fim de semana sobre os 80 anos da morte do cangaceiro, um documentário com depoimentos e imagens inéditas de volantes (policiais) que participaram do cerco à Grota de Angico – na divisa entre Alagoas e Sergipe – agitou as discussões em torno do tema, entre pesquisadores, escritores e curiosos. O debate ocorreu durante o seminário “Sertão Cangaço”, no município de Piranhas.

No documento do cerco a Angico, uma parte dos pesquisadores defendeu a tese de que o cerco foi um “teatro” montado pela volante (polícia) comandada pelo tenente João Bezerra.

Plateia composta de pesquisadores, estudiosos e curiosos sobre o mito Lampião esteve atenta aos debates

“Acredito que chegou o tempo e a hora de revelar fatos que não podem mais ficar escondidos do público”, disse Jairo Luiz Oliveira, pesquisador que há 28 anos se debruça sobre a história do cangaço. Os depoimentos mostraram, de acordo com os relatos, que o tenente João Bezerra teria conchavos com Lampião. “Acredito que muitas máscaras caíram diante do que expomos no seminário porque foram vários depoimentos colhidos em épocas diferentes e que se confirmavam entre si”, defende Oliveira. Como a Tribuna revelou no fim de semana, o plano de Bezerra  “salvar” Lampião da emboscada teria dado  errado porque o sargento Ferreira de Melo, infiltrado na polícia como membro do governo federal que queria acabar com bando de Lampião, forçou Bezerra a mudar de lado.

Outro fato colocado em discussão no seminário foi o depoimento de Durval Rosa, irmão daquele considerado o maior coiteiro de Lampião, Pedro de Cândido.

Até hoje alguns historiadores defendem que os irmãos teriam sido traidores. “Os depoimentos deixam claro que eles não foram traidores, mas forçados a apontar onde estaria o local em que Lampião estava naquele dia fatídico.  São vários depoimentos que dizem a mesma coisa e que para mim batem o martelo de que são inocentes”, disse à Tribuna o pesquisador Aderbal Nogueira, realizador do documentário.

Na visão do pesquisador paraibano Wescley Dutra, há uma ambiguidade na narrativa. “Não acredito no vínculo direto entre Bezerra e Lampião, embora houvesse um certo parentesco da família de sua esposa e alguns coiteiros do cangaceiro, além da história de que Bezerra teria frequentado o local alguns dias antes onde Lampião estava”, opina Dutra. O documentário é emblemático pois traz falas de policiais e cangaceiros que participaram do 28 de julho de 1938. Nele aparecem figuras como os cangaceiros Candeeiro, Vinte e Cinco, Sila, e soldados, como Panta (que avoca para si ter dado os tiros que mataram Maria Bonita e o que ceifou a vida de Lampião), e outros que depõem em épocas diferentes e que se cruzam. “Para mim isso joga luz sobre muitas questões porque não foram feitos no mesmo momento”, defende Aderbal Nogueira, responsável pelo material.

”Fogo-amigo” causa controvérsia em evento

 

Outro episódio que os pesquisadores levaram ao debate foi quanto à possibilidade de a morte do único membro da volante, o soldado Adrião Pedro de Souza, ter sido abatido no combate por questões passionais, o famoso ‘fogo-amigo’, justamente por que teria se envolvido com uma mulher que teria um caso com o tenente Bezerra.

“Acho temerário se afirmar isso, embora tenha sido dito por alguns dos soldados da volante. Naquela manhã de julho de 1938, a caatinga estava fechada, o mundo coberto de fumaça, havia uma neblina, conforme depoimento de alguns depoimentos do documentário. Não teria, ao meu ver, neste cenário, como especificar quem atirou em quem, dado o nervosismo da situação uma vez que o movimento natural seria uma correria de todo mundo atirando em todo mundo”, disse o pesquisador.  “Acho um pouco forçoso isso”, disse Dutra.

“Na minha visão, de acordo com os depoimentos, não houve fogo-amigo. Segundo os relatos, o cangaceiro Elétrico é que teria matado Adrião”, disse Nogueira.

Seminário em Piranhas teve “saia justa” entre pesquisadores por causa de imagens

 

Logo no início do seminário uma saia justa  e imbróglio. O pesquisador cearense Aderbal Nogueira flagrou alguém na plateia filmando o documentário. “Peço encarecidamente que ninguém filme porque prometi ao filho de um dos envolvidos neste material que essas imagens não iriam além deste seminário”, exigiu o pesquisador Nogueira, ao pedir que respeitassem o filho do tenente João Bezerra, Paulo Brito, que mora no Recife.

“DURVAL MENTIU”

Em relação ao documentário sobre a participação de Durval Rosa, irmão de Pedro de Cândido, em que ele diz que foi levar mantimentos com três sacos de bala de fuzil para Lampião na véspera, o pesquisador João Marcos Carvalho tem uma posição. “Ele diz claramente quem mandou entregar as balas, João Bezerra!”. Eu contesto porque comprovadamente o tenente Bezerra estava na cidade de Delmiro Gouveia no dia que Durval disse isso. E se Bezerra estava preparando um ataque a Lampião, é improvável que ele mandasse balas para alguém que ele iria  atacar. Então para mim, Durval Rosa mentiu descaradamente”, opinou Carvalho.

“No meu entender o ‘teatro’ estaria somente no fato de o sargento Aniceto ir à feira e espalhar aos quatro ventos que a volante estaria abandoando Piranhas para atacar em outro lugar com o famoso aviso ‘Tem boi no pasto!’. Deu certo porque Lampião foi informado pelos coiteiros e caiu numa armadilha”.

Para Carvalho,  desde de sua primeira edição, há vinte anos, os seminários que discutem o cangaço prestam relevantes serviços à História no sentido de separar a ficção da realidade e as histórias que o povo conta – sempre cobertas de crendices e exageros – dos fatos que podem ser provados por meio de documentos escritos, sonoros, fotográficos, cinematográficos e cartoriais, com o consequente cruzamento de informações.

“Nessas duas décadas, muitas teses delirantes, como o envenenamento do bando antes do tiroteio e a existência de um sósia que teria morrido no lugar de Lampião, foram derrubadas; entretanto, outras continuarão a ser discutidas ao logo dos anos, já que o cangaço é um tema que desperta paixões. No seminário dos 80 anos, os debates foram acalorados. Mas a bomba prometida pelo nosso querido Jairo Oliveira só deve ser revelada no livro dele, a ser lançado ainda este ano. Vamos aguardar, já que me parece estar guardada a sete chaves”, completou.

Missa em Angico encerra lembrança de dia fatídico 

 

Com a participação ativa de muitos nativos e turistas de várias partes do Brasil, a XXI Missa do Cangaço encerrou no sábado (28) as lembranças dos 80 anos de morte de Lampião, Maria Bonita e cangaceiros, na Grota do Angico, em Poço Grande, em Sergipe, local onde o bando do Rei do Cangaço foi emboscado. A celebração foi comandada pelo padre Agostinho dos Anjos e contou com uma série de homenagens.

Vera Ferreira, neta de Lampião e Maria Bonita, fez parte da celebração da Missa do Cangaço (Foto: Divulgação)

A missa encerrou o Seminário Sertão Cangaço, realizado em Piranhas, no Sertão de Alagoas, de onde partiu a volante que atacou o bando.

Uma das personagens que mais chamaram atenção do público foi a neta de Lampião e Maria Bonita, Vera Ferreira, 63 anos, presente ao evento. Ela é filha de Expedita Maria da Silva, 83 anos, por sua vez filha de Maria Bonita e Lampião.

Turistas de todo o Brasil visitaram a Grota de Angico, situada na divisa entre os estados de Alagoas e Sergipe, onde o cangaceiro Lampião e parte do bando foram mortos no fatídico dia 28 de julho de 1938 (Foto: Divulgação)

“Escreveram coisas de meu avô sem prova”, diz neta de Virgulino

 

Em entrevista à Tribuna Independente sobre o que representava o 28 de julho e a celebração da tradicional missa, Vera opinou. “O sentido disso aqui é manter viva a história e lançar sementes para que as pessoas, os jovens, leiam e conheçam a história, voltando ao passado par analisar com responsabilidade”. Questionada pela Tribuna como o leitor poderia filtrar quais os autores mais confiáveis depois de mais de dois mil livros escritos sobre seu avô, Vera não deixou de dar uma estocada.

“É preciso que alguns escritores tenham um olhar de responsabilidade com o que escrevem. Tem autor que diz que meu avô bebia uísque White Horse, mas nunca mostrou uma prova sequer”.

Em seu auge, o White Horse era um dos dez melhores whiskies do mundo e vendia mais de 2 milhões de unidades por ano e  ainda é comercializado em mais de 100 países originária  de uma hospedaria antiga em Edimburgo, frequentada por renomados cavalheiros, que partiam com destino a Londres.

Filha de Vera é jornalista e autora de livros e  escreveu  “Bonita – Maria do Capitão” e disse que o objetivo principal da obra é relembrar a história da avó, nascida Maria Gomes de Oliveira, e que se tornou Maria Bonita.

Fonte: Tribuna Independente / Wellington Santos

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