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19 de maio de 2018 11:53

Riacho Doce, praia com jeito de interior

Considerada um dos recantos da capital, mais parece um povoado para os que buscam sossego e uma bela paisagem

↑ Praia do Litoral Norte de Maceió, tem boa faixa de areia dourada e fofa, o mar é levemente agitado, de águas transparentes e temperatura agradável, propício para banho e esportes náuticos, como windsurf (Foto: Booking.com)

Considerada um dos recantos da capital, Riacho Doce é uma praia ótima para os que buscam sossego e uma bela paisagem para admirar. Costuma receber um bom número de turistas durante a alta temporada em sua maioria amantes da natureza. Mas, seus principais frequentadores são moradores da região e pescadores. A beleza e tranquilidade dessa praia encantam os diversos visitantes que chegam ao lugar todos os anos. Conta com uma boa faixa de areia dourada e fofa, o mar é levemente agitado, de águas transparentes e temperatura agradável.

É muito propício para o banho e para a prática de esportes náuticos, como windsurf. Repleta de coqueiros e casas de veraneio próximas à praia, como também pousadas e restaurantes que servem bons pratos, além de uma pizzaria famosa nacionalmente.

Rumo ao Litoral Norte de Maceió, as praias encantam pela cor do mar, jangadas, coqueirais e sítios. São as praias de Jacarecica, Guaxuma, Garça Torta, Pratagy, Mirante da Sereia, Ipioca que, nos finais de semana, atraem alagoanos e turistas. Em especial, a praia de Riacho Doce lembra uma típica cidade de interior com praça e igreja, mas este bairro também inspirou o escritor paraibano José Lins do Rego a escrever seu romance “Riacho Doce”.

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Natureza bucólica e história estão presentes em Riacho Doce (Foto: Reprodução)

Riacho Doce também guarda outras histórias saborosas, como a força de típicas receitas de boleiras que preservam o modo alagoano de manter a culinária, em forno de barros, para que possam ser comercializadas nos finais de semana e feriados. Quem viaja rumo ao Litoral Norte não resiste e faz uma parada estratégica para comprar os doces e bolos vendidos em tabuleiros à beira da rodovia Al-101 – próxima à Igreja Nossa Senhora da Conceição. Nos tabuleiros é possível encontrar beiju, tapioca, grude, brasileira, cocadas, bolos de milho e de macaxeira.

Este saber e fazer das doceiras de Riacho Doce é antigo, embora ninguém consiga dizer ao certo como começou a tradição, que é passada de mãe para filha. A alagoana Yêda Rocha no livro “Delícias Alagoanas”, lembra que levava os parentes e amigos que chegavam a Maceió para comer as iguarias na beira do forno, que era uma atração para os turistas. O ingrediente principal dos bolos e doces é originário da mandioca, como a goma, massa puba amarela e branca, coco seco, manteiga, sal. Detalhe: as receitas não levam ovos (nem os bolos). Os bolos mais famosos são de macaxeira e de milho

Riacho Doce nasceu de um arraial de pescadores, que ninguém sabe dizer quando, mas muito antigo: mais de um século. Basta observar a arquitetura da igreja Nossa Senhora da Conceição. Sabe-se que sempre foi passagem obrigatória para quem saía da capital em demanda ao Litoral Norte. A estrada servia de acesso, com uma ponte de madeira sobre o riacho doce. Todos os moradores antigos do distrito lamentam apenas o intenso movimento de veículos na pista principal. Mas, depois que colocaram os quebra-molas, os atropelamentos diminuíram. A rua principal, margeando a rodovia AL-101 Norte, tem casas de comércio, residências antigas e novas. A praia é outra atração. E nos anos 60 e 70, se constituía no point da juventude maceioense, com o famoso Bar do Doquinha.

Local de interesses americanos e alemães

O Riacho Doce, que deu nome ao bairro, ficou notabilizado por ser palco de uma disputa envolvendo interesses estrangeiros norte-americanos e alemães, por volta de 1935, em relação a pesquisas sobre petróleo que eram ali desenvolvidas. O governador nacionalista alagoano Osman Loureiro apoiou a exploração com apoio estrangeiro de técnicos e equipamentos alemães, contra os interesses de outras companhias do exterior, notadamente a norte-americana Standard Oil.

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Casas antigas do bairro viram bar (Foto: Repodução)

Vale ressaltar que, apesar dos promissores resultados obtidos através da perfuração do poço São João (afloramentos de xistos betuminosos, calcárias e banca de argilas), hoje escondido sob moradias do bairro, prevaleceram os interesses do monopólio do petróleo, utilizando métodos nazistas de perseguição, o que levou os pioneiros a deixarem o Estado para não morrer, tal como José Bach (geólogo alemão que apareceu na região de Riacho Doce-Garça Torta em 1913), que perdeu a vida por “afogamento”, em uma das lagoas do Estado, ocorrência narrada por Monteiro Lobato em seu livro, no capítulo “Os mártires do petróleo”.

HISTÓRIA

E o bairro voltou a entrar para a história novamente no livro escrito em 1939 por José Lins do Rego, quando viveu em Maceió e conheceu a pacata vila de Riacho Doce. Em Riacho Doce, José Lins reúne amor e petróleo. Um casal de suecos vem para o Brasil, para Alagoas, e a loura Edna se extasia com a força tropical do Brasil, que ela descobre. Apaixona-se por um mestiço nordestino, Nô, mais uma daquelas figuras da ficção numerosa e rica de José Lins.

Praia também inspira José Lins do Rego

O amor de Edna e Nô é o núcleo central do romance, que é um dois mais ardentemente humanos desse contador de histórias inesgotável, impregnado de oralidade. O estilo nesse romance é um milagre de naturalidade e de intimidade com a natureza ou integração na própria natureza exterior. Uniu como ninguém memória e imaginação, primitivismo e arte, povo e ficção. Personagens nativas e rústicas se misturam a essa estranha sueca, fascinada pelo mundo bárbaro e poderoso de um Nordeste verdadeiro.

Em Riacho Doce, José Lins do Rego passa a sua visão possante dos desequilíbrios sociais e dos dramas humanos individuais e coletivos, provocados pelo problema do petróleo em Alagoas. Tudo decorre deste trágico problema da contemporânea.  As marés sucessivas de entusiasmo, de desapego às tradições, provocadas pelo engodo da riqueza, e das desconfianças supersticiosas e cóleras nascidas das desilusões naquela mansa terra de pescadores, são descrições de psicologia coletiva das mais vivas e reais que o romancista já fez.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Claudio Bulgarelli - Sucursal Litoral Norte

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