Cidades

20 de janeiro de 2018 09:19

Pesquisas sobre uso do celular crescem em Alagoas

Assunto tem sido frequente nas abordagens científicas sobre o aparelho e redes sociais nas mais diversas áreas do conhecimento

↑ Em Alagoas, tem crescido número de estudos em várias áreas de conhecimento sobre o hábito de estar conectado, garante professor em Educação da Ufal (Foto: Cortesia)

Muito mais que um hábito diário, estar conectado tem se tornado objeto de estudo para várias áreas do conhecimento. Na terceira reportagem da série “Conectados” a Tribuna Independente traz uma síntese do que tem sido produzido sobre a relação do alagoano com o aparelho celular, redes sociais e tecnologias digitais.

Pesquisas empíricas relacionadas ao uso de tecnologia na educação crescem no Estado de acordo com o professor e pesquisador da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Fernando Cavalcante Pimentel. Ele afirma que atualmente existe um crescimento de projetos e pesquisas ligados à área de tecnologia (internet, redes sociais e outros).

“Tenho orientado vários projetos de pesquisa na área, com orientandos de iniciação científica e mestrado. Atualmente discuto sobre os limites e possibilidade dos Games no espaço escolar com o título; desenvolvimento de estratégias cognitivas e metacognitivas com uso dos Games na Educação Básica. Inclusive existem várias publicações e livros na área. As tecnologias digitais estão cada vez mais presentes em todos os ambientes. Vivemos numa cultura digital. Em Alagoas, as pesquisas se voltam para os estudos das tecnologias nas escolas, na formação de professores e no uso em áreas da saúde e publicidade, por exemplo”, comenta o pesquisador.

Doutor em Educação, Pimentel comenta que as pessoas precisam perceber que o meio digital está no dia a dia de cada pessoa e tem importância na maneira que cada um age e se comunica.

“Precisamos compreender que nós, com nossa forma de viver e nossa forma de interpretar o mundo, estamos criando e modificando as tecnologias e mídias, criando a cultura digital. O digital está no nosso cotidiano, promovendo novas formas de sermos e de nos comunicarmos. É o nosso estilo de vida que, a cada dia, promove uma metamorfose tecnológica. E a indústria tem se beneficiado disso, popularizando os artefatos, como os dispositivos móveis (celular e tablets). Mas até nossos carros estão cada vez mais imersos nessa digitalização das informações”, ressalta o pesquisador.

METODOLOGIA

O pesquisador explica que trabalha sempre com pesquisas empíricas, observando, analisando e estudando como as pessoas usam as tecnologias em suas atividades, principalmente nas atividades de ensino e aprendizagem.

“Trabalhamos com a realização de oficinas de formação de professores, como também com os pais de crianças em idade escolar. A escola e a família não podem se esquivar da tarefa de educar para que não tenhamos o uso em excesso das tecnologias”, orienta Fernando Pimentel.

RESULTADOS

Em relação aos resultados obtidos em suas pesquisas, o professor ressalta que todos são de extrema importância para a sociedade e traz demonstração de limites do uso excessivo.

“Todas as nossas pesquisas apresentam resultados importantes para a sociedade atual. Apresentamos não só ideias, mas encaminhamentos para o uso pedagógico das tecnologias digitais. Com o resultado das investigações estamos dizendo para a sociedade que existem limites, mas que existem possibilidades pedagógicas e que o resultado no aprendizado das crianças tem sido positivo, quando se usa as tecnologias de forma crítica, construtiva e promotora do diálogo. Muitos professores, que passam pelas formações ou cursos que promovemos na Ufal, têm inserido novas metodologias de ensino, resignificando o sei fazer pedagógico. E numa linguagem muito próxima das crianças. Respeitando o que sabem e possibilitando que aprendam mais”, esclarece Pimentel.

Fapeal tem investido recursos na área

Os pesquisadores alagoanos que estão desenvolvendo projetos e pesquisas têm apoio garantido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal). Basta ficarem atentos aos editais. O diretor presidente do órgão, Fábio Guedes Gomes, ressalta que o órgão vem investindo recursos em diversos projetos na área de tecnologia.

”A Fapeal tem investido recursos nessas áreas. Como exemplos temos dois grandes projetos apoiados. O primeiro deles é em parceria com a Secretaria de Estado da Fazenda que envolve pesquisadores, professores e alunos da Ufal. Esse projeto compreende a criação de um sistema eletrônico de cálculo automático de tributos que deverá ser instalado nos postos de fiscalização das fronteiras do Estado”, comenta Fábio Guedes.

Guedes disse que o projeto visa trazer mais eficiência ao sistema de arrecadação de Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) e combater a sonegação fiscal nas fronteiras. Ele ainda cita outro exemplo de pesquisa apoiada envolvendo o uso de redes sociais que também está sendo executado por professores e pesquisadores da Ufal, com recursos da Fapeal e British Council/Newton Fund. O estudo objetiva realizar um mapeamento e criar um banco de informações, através da produção das mesmas em redes sociais, para melhorar a prevenção e combate ao mosquito transmissor do zika vírus.

CONTRIBUIÇÃO

O diretor presidente da Fapeal ressalta ainda que a função precípua da fundação é apoiar e fomentar atividades de pesquisa, extensão e inovação tecnológica.

“Para tanto, dialoga constantemente com os parceiros institucionais e verifica o quadro de demandas existentes no estado. A partir de então, elabora editais públicos que convocam os pesquisadores, estudantes e academia para que esses parceiros possam desenvolver suas atividades científicas visando tanto à qualificação de nossa produção, quanto à solução e descobertas que colaborem para amenizar, resolver ou orientar a sociedade diante de grandes desafios e obstáculos”, explica Guedes.

Fábio Guedes explica que para o projeto ser apoiado existem algumas regras que geralmente são definidas em edital, tudo acompanhado pela Procuradoria Geral do Estado (PGE). “Excepcionalmente também se apoia iniciativas de projetos de pesquisa diante de necessidades muito estratégicas e interesses prioritários do estado de Alagoas”, acrescenta.

PESQUISADOR

Para que o indivíduo se encaixe nas regras dos editais, Guedes explica que  primeiro, ele precisa ser habilitado com um título de doutor outorgado por uma instituição de ensino superior ou de pesquisa do país ou do estrangeiro, reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC). Em seguida, ter um histórico e currículo que comprova sua solidez e experiências em projetos de pesquisa anteriores. Preenchido esses requisitos, ficar atento aos editais lançados por instituições como a Fapeal, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e outros como os das próprias instituições de pesquisa e ensino onde os pesquisadores são vinculados.

“De acordo a fundação, existem alguns critérios para o pesquisador ser contemplado. Entre eles está a análise das propostas que é realizada em duas etapas. A primeira verificará se os proponentes atendem às exigências elencadas pelo edital. Este parecer é feito pela equipe técnica da Assessoria Científica de Capital Humano da Fapeal. Já na segunda etapa, serão julgados aspectos da demanda qualificada, de mérito e critérios técnico-científicos, em que a Comissão de Avaliação irá deliberar entre os candidatos para o atendimento das solicitações de bolsa. Esta comissão é composta por doutores indicados pela Fapeal, porém com anuência da Capes”, explica o diretor.

Uso de mídias sociais é alvo de estudo

Doutor em Ciência da Comunicação pela Universidade de São Paulo (SP) e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Júlio Arantes produz pesquisa sobre a relação dos jornalistas com o uso do celular, mais precisamente com a utilização do aplicativo WhatsApp.

“Eu já estudo há algum tempo as relações de comunicação no trabalho, participei como colaborador numa pesquisa sobre o trabalho dos jornalistas e a gente acabou esbarrando nessa questão do uso de mídias sociais na prática profissional, se elas modificam ou não o cotidiano dos jornalistas. Minhas pesquisas de doutorado foram nessa linha. Na Ufal, essa pesquisa surgiu como uma demanda dos estudantes para tentar entender o impacto que essas tecnologias de conversação por telefone e compartilhamento de dados têm sobre os profissionais, pois não existiam antes. Essas são algumas questões que levaram ao desenvolvimento da pesquisa que ainda está em andamento”, comenta.

Segundo Arantes, a relação dos jornalistas, em específico com o aparelho celular reconfigurou a prática cotidiana, e além de facilitar dá novas possibilidades.

“Na verdade algumas das hipóteses que a gente acabou verificando é que há uma importância nos aparelhos, que acabam reconfigurando a prática profissional. Antes do celular era preciso que o jornalista fizesse contato por um orelhão, por exemplo, hoje ele tem um ponto de acesso no próprio bolso. Mas é necessário que haja uma vigilância muito grande em relação a circulação de informações para evitar ser seduzido por esse uso do comum da tecnologia de enviar sem se preocupar, esse é o grande risco”, diz.

Mas como nem tudo são flores, ele que também é jornalista alerta para o emprego da ‘velocidade’ da informação para os profissionais da comunicação. Ele ressalta a importância de fugir das ‘regras’ das redes sociais como o excessivo compartilhamento e das chamadas ‘fake news’.

“As informações acabam circulando porque muitas vezes as pessoas compartilham para tentar checar com outras pessoas se é verdade. É o ‘na dúvida, compartilhe’ porque pode ser informação útil, não há uma ética, pelo menos foi enviado. Ao contrário do jornalismo onde ‘na dúvida, não publique’. A lógica é diametralmente oposta. E neste sentido isto é um problema, porque subverte uma espécie de valor do nosso campo que é checar, averiguar as informações antes de serem propagadas”, avalia.

Quantidade de usuários não significa qualidade no acesso, diz professor

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o celular é o principal meio de acesso à Internet no país. Em 2015, 92,1% dos domicílios brasileiros realizavam este tipo de acesso. Mas segundo o pesquisador, é preciso considerar não apenas os números, mas também a qualidade do serviço.

“É uma quantidade expressiva de pessoas utilizando a internet pelo celular e este é um grande problema, porque parece ser uma coisa muito boa, quando na verdade não é, há muita coisa por trás disto. Porque parece que todo mundo consegue se conectar, mas na verdade a gente pulou algumas etapas. Nos países onde as tecnologias são desenvolvidas primeiros, há uma sequência. A sociedade acaba participando do processo de evolução das tecnologias até chegar na Internet 3G,4G e aqui no Brasil dada essa condição de país em desenvolvimento isso faz com que a gente não passe por um processo de amadurecimento sobre o que é a tecnologia. Quando se fala que 80% da  população acessa internet pelo celular, a gente omite informações como a qualidade do serviço e para que essas pessoas usam”, afirma Arantes.

O doutor em Ciência da Comunicação avalia que os usuários brasileiros acabam sendo prejudicados pela baixa qualidade do serviço de dados e pouca oferta.

“A internet fornecida pelo celular tem gatilhos que as operadoras vão colocando para que você use determinados serviços da internet. As pessoas vão se acostumando a usar os serviços que a operadora fornece e não contratar pacote de dados com a ideia de que usar internet é usar Facebook e Whatsapp. Existe uma pesquisa muito recente que diz que mais da metade dos brasileiros (52%)acreditam que a internet é o Facebook. Tudo que existe na internet se limita a isso. E isso é um dado alarmante porque o Facebook é um pequeno lastro de tudo que pode se usar e as pessoas estão se limitando. É um dado complexo, não é um dado que pode ser puramente positivo, porque o serviço de internet no Brasil é ruim, restrito a determinados serviços, velocidades, públicos”, aponta.

Além disso, Arantes considera que o acesso à internet no país ocorre de forma desnivelada com segmentos sociais aproveitando o máximo ofertado e outros com pouco ou nenhum acesso.

“É muito desigual em relação a variedade de fatores. Determinados estudantes  ou estratos sociais têm mais acesso e desenvoltura com as tecnologias e acabam chegando no início da idade produtiva muito inseridos ou com conhecimentos muito avançados, habituados. É difícil falar num longo caminho de aprendizado do uso, mas há um mundo de possibilidades para ser explorado”.

Para o pesquisador, compreender o impacto da abrangência de novas tecnologias é um longo caminho a ser percorrido.

“Hoje a gente tem o WhatsApp, que há cinco anos não era usado. Há dez anos não tínhamos o Facebook… Eu vejo que as pessoas estão muito habituadas ao smartphones. O que é um pouco complicado, porque compreender as consequências desse smartphone talvez seja um longo caminho. Existe um trocadilho que circula nas próprias redes, de que há 10, 15 anos atrás os pais tinham muita preocupação com o que os filhos acessavam na internet e hoje parece que há uma crença muito grande no que circula nas redes sociais”, finaliza.

Fonte: Tribuna Independente / Evellyn Pimentel e Lucas França

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