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Clone da cana produzida em Alagoas ocupa 70% da área canavieira do Brasil

Melhoramento genético com referência mundial tem propostas de contratos estrangeiros

Por Texto: Ana Paula Omena com Fotos: Sandro Lima 18/02/2017 12h00
Clone da cana produzida em Alagoas ocupa 70% da área canavieira do Brasil
Reprodução - Foto: Assessoria
Cerca de 15 anos. Este é o tempo médio do trabalho que é referência nacional e internacional e envolve dezenas de pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Um estudo que embala persistência, dedicação e paciência para que a cana-de-açúcar geneticamente melhorada chegue ao setor produtivo, elevando os rendimentos agroindustriais no âmbito canavieiro, além de beneficiar milhares de pequenos produtores dentro da Zona da Mata, Litoral e parte do Agreste do Estado, além do resto do mundo afora.

Levantamentos indicam que a cana melhorada produzida em Alagoas ocupa cerca de 70% da área canavieira do Brasil. O teor de sacarose e a resistência às pragas estão entre os principais atrativos das variedades RB (República do Brasil) produzidas a partir do Programa de Melhoramento Genético da Cana-de-açúcar (PMGCA), desenvolvido pela Ufal, no Centro de Ciências Agrárias (Ceca), em Rio Largo, região metropolitana de Maceió, e na Estação Experimental da Serra do Ouro, em Murici, na Zona da Mata do Estado. Antônio Rosário, da região do Baixo São Francisco, está entre os inúmeros agricultores que recebem esses clones híbridos da cana-de-açúcar em Alagoas. Um programa que consiste em uma seleção de diferentes etapas com efetivas inovações tecnológicas, símbolo da conquista que faz os pesquisadores aprenderem com o passado, acreditar no presente e sonhar com o futuro.

Estação de floração e cruzamento da cana na Serra do Ouro (Foto: Reprodução)

“O encaminhamento é espetacular, a contemplação dessas mudas para o pequeno produtor é o foco da Ufal, beneficiar estes fornecedores, que não são poucos, principalmente do Nordeste, com uma baixa quantidade de área. Para se ter uma noção, atualmente em Alagoas, são mais de sete mil produtores e 86% deles têm uma ocupação de 20 hectares”, destacou o pequeno produtor. Hoje os pequenos produtores de 54 municípios de Alagoas são privilegiados com a cana melhorada. Cerca de 30 mil toneladas da planta são produzidas no Estado, sendo que 33% pertence aos produtores de cana independentes, e 67% às usinas. “É uma evolução constante, que gera empregos e garante o crescimento da economia do Estado”, defende Antônio Rosário.

 

Estufa PMGCA abriga 180 mil plantas a cada ciclo de três meses

Há 27 anos, a Universidade Federal de Alagoas desenvolve o Programa de Melhoramento Genético da Cana-de-açúcar em parceria com as empresas do setor sucroenergético regional. De lá, saem centenas de profissionais de nível superior com ênfase na cultura canavieira. Para se ter uma ideia da infinidade de variedades RB que já foram liberadas no Brasil, em 1990 existiam apenas 5% delas. Atualmente, a área de ocupação canavieira saltou e passa da casa dos 70%. O coordenador do PMGCA em Alagoas, Geraldo Veríssimo, destacou com entusiasmo a garantia da visibilidade e referência mundial no melhoramento genético da cana-de-açúcar estudada no Estado.

Local onde pesquisadores se reúnem para fazer cruzamentos (Foto: Ascom Ufal)

“As visitas são constantes pela procura do material genético e propostas de contratos com empresas dos Estados Unidos, Austrália, África do Sul, Argentina, Colômbia, querendo o material da pesquisa estudado na Ufal, é que não faltam”, declarou. A fama se alastrou tão rapidamente que os pesquisadores alagoanos cresceram e são vistos como os maiores produtores de variedade da cana-de-açúcar do Brasil. Os olhos estão voltados para Alagoas quando se fala de melhoramento genético a partir da cana-de-açúcar. Segundo o coordenador do Programa, existe variedade RB produzida no Estado, que na década de 90 chegou a um milhão e meio de hectares, alcunhada como a variedade mais cultivada do mundo. “O Brasil é onde há maior área plantada de cana no mundo, hoje tem variedade com mais de dois milhões de hectares, cuja origem é da cana-de-açúcar e que saiu da Serra do Ouro em Murici”, salientou.

Sementes desenvolvidas no banco de geoplasma da Serra do Ouro

“O Programa de Melhoramento Genético da Cana-de-açúcar situado no Centro de Ciências Agrárias tem variedade muito maior do que toda a área cultivada em Alagoas, que é de 400 mil hectares”, revelou com orgulho o coordenador Geraldo Veríssimo. A última variação da cana-de-açúcar RB liberada foi em junho do ano passado e a penúltima há seis anos. De acordo com o professor pesquisador, a próxima liberação está prevista para 2020, podendo acontecer uma ou outra em 2018. “Está dependendo de uma nova variedade que queremos apressar”, avisou.

Veríssimo ressaltou que o mais interessante hoje é o teor de sacarose da cana dentro do peso da planta, e não o caldo com pouco açúcar e água como era feito antigamente. “A cana é composta de fibra, água e açúcar. Em 1970, a cana tinha menos açúcar do que agora, antes eram 90 quilos de açúcar por toneladas, mas nas últimas safras foram 140 quilos por toneladas, um ganho expressivo em 40 anos”, comparou. Veríssimo lembrou ainda que aconteceu do mesmo jeito quando se refere ao peso da cana, que antes, segundo ele, era de 50 quilos passando para 80 nos dias atuais. “Com isso se produzia 4,5 mil quilos por hectare, porém atualmente a média é de 10 mil quilos, mais que o dobro”, disse. Banco Mundial de Germoplasma da Cana-de-Açúcar é situado em Alagoas O PMGCA/Ceca/Ufal é quem gerencia o Banco Mundial de Germoplasma da cana-de-açúcar, situado na Serra do Ouro, em Murici, Alagoas, que nada mais é do que uma coleção de várias espécies e muitas variedades que existem da planta no mundo inteiro. É lá que são realizadas anualmente as hibridações e produção de cariopses (fruto com semente) para atender as pesquisas de obtenção de variedades RB das universidades federais da Ribesa - Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético.

O coordenador do programa de melhoramento genético frisou que os cruzamentos genéticos acontecem entre abril e junho de cada ano. Ele detalhou que quando a planta floresce, os pesquisadores vão acasalando os milhões de combinações, “e escolhem as melhores no sentido de produtividade, teor de açúcar, resistência às diversas doenças e pragas, se formando assim as variedades RB”. “É um trabalho de ‘formiguinha’, de persistência ano a ano que pode durar 15 anos ou mais, até se chegar a uma possível variedade; são várias as pesquisas de campo para selecionar as melhores, tendo o apoio do setor sucroenergético nacional e regional. As usinas são parceiras das universidades e por lá também é desenvolvido trabalhos dentro do campo, além dos insumos e contribuições financeiras para o desenvolvimento de estudos de variedades”, observou.

 

Floração da cana-de-açúcar (Foto: Thiago Prado)     

HISTÓRIA O Ceca da Ufal que fica em Rio Largo engloba vários cursos, entre eles: Agronomia, Zootecnia, Engenharia de Energia Renovável, Agroecologia, Engenharia de Agrimensura, Engenharia Florestal, alguns mestrados e também doutorados. A base é uma estação experimental de cana-de-açúcar que pertencia ao Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) e ao Sindicato da Indústria do Açúcar de Alagoas (Sindaçúcar), em 1966. Após quatro anos, o IAA criou o Planalsucar – Programa Nacional de Melhoramento da Cana-de-Açúcar - que cuidava da pesquisa da planta no Brasil e Alagoas era o segundo maior produtor da cana no país. O programa ainda garantia o suporte ao Proálcool – Programa Nacional do Álcool - para usar o combustível em carros, o que hoje é uma realidade, mas que começou no Estado fortemente. Alagoas teve e tem uma localização geográfica favorável para que a cana floresça e faça os cruzamentos genéticos para obter variedades RB. A ORIGEM DA RIDESA Com a extinção do IAA pelo presidente Fernando Collor de Melo, no ano de 1990, algumas universidades brasileiras absorveram as estruturas físicas e pessoal para fins de pesquisas e a Ufal foi uma delas. De forma que foi criada a Ridesa – Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético - um dos maiores programas de melhoramento genético da cana do mundo, mas que levantou uma incógnita no início de sua implantação. A Universidade Federal de Alagoas e mais outras quatro não hesitaram e acionaram o termo de adesão à rede, mesmo sem a garantia do governo federal de recursos financeiros para custear as atividades de pesquisa, mas superada em poucos anos na medida que os trabalhos eram executados com eficiência e os resultados se tornaram realidade. Logo na primeira década da Ribesa, a rede criou personalidade quando promoveu a liberação das primeiras variedades RB em ciclo precoce, ricas em sacarose, produtivas, adaptadas à ampla diversidade ambiental, até mesmo aqueles ambientes restritos ao cultivo da cana-de-açúcar.