Brasil
Empresa ligada a amigo de Flávio Bolsonaro repassou R$ 17,7 milhões a Virginia Fonseca
Cinco transferências para empresa da influenciadora foram comunicadas ao Coaf em meio a investigações
A Talismã Digital, empresa da influenciadora Virginia Fonseca, recebeu R$ 17,7 milhões de uma companhia associada ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e investigado pela Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas ao mercado de apostas. Os pagamentos ocorreram entre março e setembro de 2024, em cinco transferências via Pix realizadas pela AMP Pay Marketing e Negócios. As movimentações chamaram a atenção do Banco Santander, que encaminhou um comunicado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), segundo documentos revelados nesta sexta-feira (6/11) pela Folha de S.Paulo.
Advogado se apresentou como sócio da AMP Pay
A ligação de Willer Tomaz com a companhia foi identificada em documentos obtidos pela Polícia Federal. Num e-mail enviado ao Magnum Bank em 2024, o advogado se apresentou como sócio ou acionista da AMP Pay. Seu nome, entretanto, não aparece entre os proprietários formais da empresa nos registros públicos consultados. Essa divergência passou a integrar a investigação sobre possíveis sociedades ocultas e o controle efetivo das operações.
O sócio registrado da AMP Pay é Guilherme Maciel, que negou conhecer Willer ou manter qualquer relação com ele. Segundo Maciel, a empresa funcionou regularmente entre 2024 e 2025 como intermediadora tecnológica de pagamentos, atividade conhecida como gateway. Procurado pela Folha, ele não especificou quais serviços foram prestados à Talismã Digital, nem esclareceu a estrutura de pessoal e as condições de funcionamento do endereço cadastrado.
A PF considera a AMP Pay uma possível integrante da primeira camada de empresas utilizadas pelo advogado para movimentar recursos. Os investigadores trabalham com a hipótese de que companhias de intermediação financeira e plataformas de apostas tenham sido empregadas para circular dinheiro e ocultar sua origem. A suspeita ainda depende de aprofundamento e não significa que todos os pagamentos realizados por essas empresas sejam ilícitos.
Virginia afirma que recebeu por publicidade
A assessoria jurídica de Virginia Fonseca informou à Folha que os R$ 17,7 milhões correspondem à remuneração por campanhas publicitárias contratadas regularmente. A equipe não especificou quais ações justificaram os valores, não apresentou as campanhas e nem os documentos que comprovassem essa explicação, mas negou que a influenciadora conheça Willer Tomaz ou tenha mantido negociações com ele.
“O Sr. Willer Tomaz não figura como parte em qualquer contrato celebrado por Virginia Fonseca, que esclarece, ainda, não conhecê-lo e jamais ter mantido com ele qualquer contato ou tratativa”, afirmou a assessoria.
Os pagamentos ocorreram num período em que Virginia divulgava a Blaze, plataforma de apostas que também aparece na investigação sobre as atividades empresariais de Willer.
PF investiga movimentações ligadas à Blaze
A Polícia Federal identificou operações financeiras realizadas por Willer por meio de uma conta na fintech A55, utilizada para enviar recursos à Blaze. Segundo documentos da investigação, a instituição também considerou estas movimentações atípicas. Os investigadores ainda encontraram coincidências entre o endereço registrado pela Foggo Entertainment, responsável pelas operações da plataforma, e endereços utilizados anteriormente por empresas ligadas ao advogado ou a antigos sócios.
A própria PF ressalvou que o compartilhamento de endereços não comprova, isoladamente, uma participação societária oculta. A informação, entretanto, motivou novas diligências para esclarecer eventuais relações comerciais, societárias e operacionais entre Willer e as empresas do setor.
Uma nota técnica do Ministério da Fazenda apontou que Willer realizou aproximadamente R$ 5 bilhões em operações de apostas em 2025, com saques superiores a R$ 200 milhões. Esses valores incluem movimentações sucessivas dentro das plataformas, como apostas, ganhos e reapostas.
Virginia já prestou depoimento à CPI das Bets
A influenciadora compareceu ao Senado em maio de 2025 para prestar esclarecimentos sobre contratos publicitários com empresas de apostas. A CPI investigava, entre outros pontos, o uso de influenciadores para divulgar jogos e promover expectativas de ganhos financeiros irreais entre os seguidores.
A relatora, senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), propôs o indiciamento de Virginia por publicidade enganosa e estelionato, mas seu relatório foi rejeitado pela comissão.
Investigação envolve amigo de Flávio Bolsonaro
Willer Tomaz mantém uma relação de amizade com Flávio Bolsonaro, senador e candidato derrotado à Presidência nas eleições de outubro. Segundo a Folha, o senador também é investigado no âmbito das apurações sobre o suposto esquema financeiro atribuído ao advogado. A polícia examina possíveis vínculos empresariais e movimentações entre pessoas próximas aos dois.
A dupla também aparece na disputa pelos direitos de ocupação de uma ilha em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, envolvendo o jogador Richarlison. A Secretaria do Patrimônio da União identificou indícios de irregularidades na transferência administrativa desses direitos para uma empresa ligada ao advogado, após o jogador rejeitar uma proposta de compra de Flávio Bolsonaro. A autorização foi emitida em julho de 2022, durante o governo Jair Bolsonaro, em apenas 1 hora e 40 minutos, e a documentação agora está sendo examinada pela Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União.
Aberto para posicionamentos
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.
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