Brasil
Agricultor que desmatou a própria terra vira exemplo de recuperação da Caatinga
O agricultor cearense Raimundo Soares Rodrigues, de 68 anos, transformou parte de uma área antes degradada em floresta novamente, na Comunidade de Filomena, zona rural de Crateús, no interior do Ceará. A mudança começou com o apoio técnico da Associação Caatinga, por meio do projeto "No Clima da Caatinga", que atua na região desde 2011. Em celebração ao Dia Nacional do Agricultor, comemorado em 28 de julho, sua trajetória é destacada como exemplo de recuperação e convivência sustentável com o Semiárido.
Nascido e criado na roça, Raimundo começou a trabalhar na agricultura ainda jovem. Aos 20 anos, contrariando os conselhos do pai, desmatou boa parte dos 18 hectares de terra da família para plantar, na expectativa de obter um grande retorno financeiro.
A produção rendeu nos primeiros anos, mas a degradação cobrou o preço: sem a proteção da vegetação, uma enchente do rio próximo à propriedade destruiu parte do terreno da família. Sem conseguir plantar por cerca de quatro a cinco anos, o agricultor chegou a deixar o Ceará para trabalhar em São Paulo, antes de retornar à terra natal.
O reflorestamento começou em 2011, com apoio do projeto "No Clima da Caatinga", realizado em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Com investimento e orientação técnica, Seu Raimundo passou a reflorestar suas terras, reintroduzindo espécies nativas como pau-branco, ipê e sabiá, além de frutíferas. Parte da propriedade já está recuperada, e o agricultor segue ampliando a área replantada.
"Trabalhar pra gente é bom demais, né? Você não depender de ninguém, ter sua própria terrinha. Hoje eu vou todo dia ver como tá a floresta. Quando estou triste, estressado ou com alguma preocupação, entro ali pra caminhar e saio da mata renovado", conta Seu Raimundo.
Com a volta da vegetação, animais silvestres reapareceram na área e o acesso à água melhorou. Hoje, Raimundo planta principalmente milho e trabalha com a agricultura de forma mais sustentável, respeitando a biodiversidade do local. Dois de seus oito filhos trabalham na propriedade e “devem dar continuidade à recuperação da terra que eu comecei”, afirma seu Raimundo, com esperança.
"Se eu pudesse ser agricultor dez vezes, eu seria as dez. É um trabalho que ajuda a sustentar o país, e eu sou muito feliz fazendo isso", resume o agricultor.
Projeto No Clima da Caatinga reforça ações de reflorestamento no semiárido
Para Cássia Pascoal, coordenadora de relacionamento comunitário e educação ambiental da Associação Caatinga, "a trajetória de Seu Raimundo ilustra o potencial de recuperação do bioma". Segundo ela, a história do agricultor demonstra que "a Caatinga em pé é mais vantajosa, tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico, do que quando é derrubada”.
A recuperação de áreas como a da propriedade de Seu Raimundo faz parte das ações de restauração ambiental do projeto No Clima da Caatinga, que atualmente está em sua quinta fase. Nesta nova etapa, a iniciativa prevê o plantio de 8 mil mudas de espécies nativas da Caatinga, sendo 4 mil na Reserva Natural Serra das Almas (RNSA) e outras 4 mil em sistemas agroflorestais, conduzidos por famílias parceiras do projeto em comunidades rurais do entorno da Serra das Almas, nos municípios de Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI). Ao longo de sua trajetória, o projeto já plantou 117.760 mudas de espécies nativas.
A RNSA, maior Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Ceará, com 6.285 hectares, é a base do projeto. Cerca de 40 comunidades rurais do entorno, totalizando aproximadamente 4 mil famílias, recebem apoio direto das ações, que também incluem restauração ambiental, proteção de espécies ameaçadas e incentivo a atividades produtivas compatíveis com a conservação do bioma.
Sobre o No Clima da Caatinga
O projeto “No Clima da Caatinga” atua no semiárido brasileiro desde 2011 para mitigar os efeitos do aquecimento global, apoiar a adaptação climática de comunidades rurais e conservar a Caatinga, seus recursos hídricos e a fauna local, como o tatu-bola. O projeto é realizado pela Associação Caatinga em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
Sobre a Associação Caatinga
A Associação Caatinga é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, cuja missão é conservar a Caatinga, difundir suas riquezas e inspirar as pessoas a cuidar da natureza. Desde 1998, atua na proteção da Caatinga e no fomento ao desenvolvimento local sustentável, incrementando a resiliência de comunidades rurais à semiaridez e aos efeitos do aquecimento global.
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