17 de agosto de 2019 08:50

Redução do PIB impacta na economia alagoana

Com poucos investimentos em infraestrutura, setor produtivo não consegue contratar

↑ População tem aguardado por empregos no setor da infraestrutura (Foto: Sandro Lima)

A esperança de crescimento econômico gerada pelas eleições em 2018 com uma projeção de crescimento econômico em 2019 na ordem de 2%, animando tanto investidores como a sociedade em geral, foi reavaliada e reduzida para 0,9% ainda em 2018. Passados sete meses do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), e mais de 17 rebaixamentos, a projeção atual do Produto Interno Bruto (PIB) está na ordem de 0,81%, com uma estimativa de inflação anual em 3,82%, segundo relatório Focus divulgado pelo Banco Central.

De acordo com especialistas alagoanos em economia ouvidos pela reportagem da Tribuna, a recuperação econômica do país, e em consequência do estado, se mantém longe no horizonte. A ausência de um projeto de desenvolvimento e crescimento econômico, atrelado a uma pauta política/econômica calcada apenas na Reforma da Previdência, não conseguirá fazer o país atingir patamares de maior crescimento econômico real através da produção de bens e serviço.

Neste aspecto, o professor e doutor em Economia da Universidade federal de Alagoas, José Menezes Gomes é enfático quando diz que as bolsas de valores tiveram um lucro recorde este ano, e uma supervalorização batendo 4.000 pontos.

“Um recorde brasileiro este ano. A pouco saiu uma pesquisa do Dieese que este ano, e nos ultimo três anos os bancos tiveram lucro exorbitantes. Olhando apenas para estes índices – bolsa de valores e lucro dos bancos – não conseguiríamos explicar ou entender a queda constante do PIB no Brasil. Na verdade o que explica esta queda é a diminuição dos investimentos em políticas de infraestrutura, que influencia diretamente o investimento produtivo”, argumenta.

Segundo o professor, é preciso analisar outros indicadores como a reforma trabalhista cuja proposta era gerar mais emprego e que haveria um maior investimento no processo produtivo, o que não aconteceu.

“As medidas visavam aumentar a quantidade de empregos e incrementar a atividade econômica. Ao contrário, a reforma trabalhista ampliou a quantidade de desempregados retirando da economia milhares de trabalhadores/consumidores que consumiam os produtos ofertados pela indústria nacional”.

Com a redução da capacidade de compra da população, dos trabalhadores em especial, há uma queda na inflação, porém, que não se concretiza em melhoria do consumo ou incremento na quantidade de oferta de emprego, que hoje, segundo dados do IBGE, chega a 13 milhões de desempregados.

“Produto não melhora sem infraestrutura”

 

Para a professora e doutora em Economia Luciana Caetano, a política de austeridade que foi iniciada ainda no governo Dilma Rousseff (PT) e se consolidou nos governos Michel Temer (MDB) e mais fortemente no governo Jair Bolsonaro (PSL), é, em grande parte, responsável pelo declínio do PIB Nacional. Para a especialista, a crise em 2016 exigia outra atitude.

“O momento exigia mecanismos de elevação da demanda agregada enquanto o governo anunciava corte de gastos públicos, reforma trabalhista e reforma previdenciária, todos, com impactos negativos sobre a renda nacional. Como resultado, os investimentos privados continuaram caindo, o consumo doméstico seguiu perdendo força, contribuindo com o fechamento de muitas unidades empresariais e o desemprego elevado. Muitas unidades de produção fecharam as portas. De 2014 a 2017, o Estado de Alagoas excluiu do mercado formal de trabalho 28 mil pessoas, sendo 41% da indústria de transformação”.

Luciana Caetano lembra que investimentos caíram e consumo doméstico acabou perdendo força no Brasil (Foto: Reprodução)

A especialista concorda que a ausência de uma política de investimentos em infraestrutura, os números do PIB não irão melhorar. Sem o investimento em infraestrutura nacional, como a ampliação do parque petrolífero nacional, programas habitacionais e mesmo construção de rodovias, que movimenta e dinamiza a construção civil, os números do PIB tendem a piorar.

As reformas propostas e aprovadas, como a reforma trabalhista e a reforma da previdência, juntamente com a venda de empresas estatais não conseguiram recuperar a economia brasileira, destaca Luciana Caetano.

Professor diz que reformas não surtiram efeitos

 

Para o professor e doutor em Economia da Universidade federal de Alagoas, José Menezes Gomes sem uma política de investimento em infraestrutura e industrialização nacional, dificilmente o Brasil conseguirá sair da crise em que se encontra sem falar na ampliação da atividade produtiva para elevar o Produto Interno Bruto (PIB) ainda em 2019, pois atualmente, somente os bancos e os investidores da bolsa de valores saíram da crise.

“A especulação na bolsa de valores vem aumentando porque as empresas que investem na bolsa de valores são as mesmas associadas aos bancos. Este movimento especulativo da bolsa é meramente aposta de risco, que beneficia apenas os ‘rentistas’, que compram e vendem ações da divida pública lucram com o negócio de papeis sem investir na produção que gera emprego e renda”, contextualiza o professor em contato com a reportagem da Tribuna Independente.

Alagoas combate queda do PIB nacional com turismo

 

Envolto com as articulações políticas para a aprovação da reforma da Previdência, que aumenta o tempo de contribuição e a idade mínima para a aquisição da aposentadoria integral, o governo federal deixa de lado a política de infraestrutura nacional e aposta suas fichas em reformas e venda de empresas públicas, as chamadas privatizações.

Em Alagoas, o pensamento é de que a redução do Produto Interno Bruto (PIB), não ocasione graves danos à economia do estado. Neste contexto, a Secretaria de Estado do Desenvolvimento e Turismo (Sedetur) tem apostado no desenvolvimento do setor turístico, como um dos carros-chefes da pasta chefiada pelo secretário Rafael Brito.

Sedetur vem atuando para trazer turistas para Alagoas com objetivo de atrair renda e se desvencilhar da crise nacional (Foto: Adailson Calheiros)

A política é de atração de novos empreendimentos hoteleiros para o estado, e parceria com companhias áreas para que o destino ‘Alagoas’ seja um atrativo diferencial.

Segundo Rafael, “a previsão de um investimento de R$ 120 milhões de reais, do grupo hoteleiro GJP, graças aos incentivos fiscais. É este tipo de investimento que precisa ser feito e mantido pelo estado para fazer crescer o PIB. Estado fazendo investimento em infraestrutura e o setor privado investimento em empreendimentos que gerem emprego e massa salarial.”

EM ALTA

Em Alagoas, os resultados do Produto Interno Bruto tem sido positivos, inclusive acima dos níveis nacionais. De acordo com a Nota Técnica elaborada pela Secretaria de Estado do Planejamento, Gestão e Patrimônio – Seplag – e divulgada pelo governo do Estado no inicio do ano, o PIB de Alagoas teve um desempenho de 1,53%, maior do que o PIB nacional que cresceu apenas 1,1%.

Segundo a Nota Técnica, o Estado de Alagoas, por meio da Seplag calcula a estimativa trimestral do PIB desde 2012. Após uma interrupção em 2016 para adequação metodológica, dado o novo ano de referência para as Contas Regionais, em 2017, este cálculo voltou a ser realizado.

A estimativa trimestral do PIB do Estado de Alagoas, no acumulado do ano de 2018, apontou para um crescimento de 1,53% sobre igual período de 2017.

Para Rafael Brito, os bons resultados do PIB alagoano frente à crise nacional e o baixo crescimento do produto interno bruto brasileiro são resultados de uma política de controle das contas públicas e investimentos do governo do estado em áreas fundamentais como, segurança, transporte e o turismo.

Política de renúncia fiscal precisa ser mais cautelosa

 

O secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico e Turismo, Rafael Brito, destaca que além da atração em novos investimentos em hotéis e indústrias, o Estado tem feito investimentos de forma constante, citando o exemplo do ano passado em que Alagoas foi o único estado que mais investiu, proporcional à receita corrente líquida, chegando a cifra de R$ 1 bilhão em recursos próprios.

Rafael Brito destaca os investimentos para este ano no governo estadual (Foto: Assessoria)

“Nenhum outro estado do Brasil investiu proporcionalmente a sua receita corrente líquida quanto Alagoas. O que a gente estima é que, ainda este ano, o Governo de Alagoas invista R$ 650 milhões. Nossa estratégia é que o estado continue investindo muito, e também atraindo os recursos privados.”

RENÚNCIA

No tocante a esta política de incentivos fiscais, também denominados de ‘renúncias fiscais’, o professor e doutor em Economia da Universidade federal de Alagoas, José Menezes Gomes é categórico: todo este incentivo que os estados estão dando as empresas, entre eles o Estado de Alagoas, podem custar caro para as contas públicas dos governos.

Para o professor “uma política que vem sendo implementada em Alagoas é a questão da renúncia fiscal, que atrai determinada empresa ou segmento durante um período, gera emprego, porém, a própria guerra fiscal termina levando esta mesma indústria para outro lugar, voltando ao mesmo quadro de desemprego inicial”.

DÍVIDA PÚBLICA

Outra questão levantada pelo especialista é relativa ao endividamento público, já que muitas vezes, para manter funcionando as obras que geram empregos e renda, estados e municípios contraem empréstimos de bancos nacionais e internacionais.

Segundo Menezes, os estados contraem empréstimos para seguir com obras.

“Precisamos tencionar neste processo de recuperação econômica a questão do endividamento dos estados. A maioria dos estados brasileiros está fazendo empréstimos aos bancos para fazer determinadas obras”, finaliza o professor universitário.

CUT: força de trabalho está cada vez mais precarizada

 

Para a Central Única dos Trabalhadores (CUT/AL), a crise em Alagoas bate a porta do trabalhador e é dele a responsabilidade pelo pagamento desta conta. Se o PIB Brasileiro cai e a produção no estado diminui, é o trabalhador quem sofrerá mais e terá que recorrer à informalidade para vencer a crise.

O vice-presidente da CUT/AL, José Cicero da Silva, afirma que a crise em que o país se encontra, empurrando o PIB Nacional para baixo, faz com que a mão de obra seja desvalorizada e cada vez mais, com menos direitos garantidos para os trabalhadores.

“Todos os trabalhadores terminam sofrendo com a reforma trabalhista, que flexibiliza as relações entre patrões e empregados, trazendo insegurança para quem está no mercado de trabalho e também para quem está desempregado. Sofre quem está no mercado de trabalho e principalmente, que está fora, fazendo ‘bico’ na informalidade”, comenta.

Para o sindicalista, é preciso que o governo federal retome as obras que estão paradas em todo país.

“A construção civil gera emprego e começa a melhorar o comércio. É o povo trabalhando e a roda da economia girando. Com isso todos ganham, pois hoje só os bancos como Itaú, Bradesco e Santander estão ganhando.”

Medidas como a regulamentação do trabalho aos sábados e domingos, anunciadas pelo Ministério do Trabalho como um elemento que irá produzir mais emprego e gerar mais renda no país é criticada pela central. “Esta medida precariza ainda mais a situação do trabalhador em Alagoas. Ela beneficia o patrão, o empresário, e deixa o trabalhador sem o direito da hora extra, uma conquista já assegurada pela CLT”.

Fonte: Tribuna Independente / Jairo Silva

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