Saúde
Quando esquecer pode ser motivo de preocupação?
Neurologista Cícera Fon diz que, cientificamente, não existe uma idade única em que a memória começa a falhar
O esquecimento é uma das marcas mais temidas pelas pessoas diante do avanço da idade. Junto ao processo natural do envelhecimento vem muitas mudanças no corpo e na saúde.
Lidar com tais alterações não é tarefa das mais fáceis. Imagine, então, não lembrar nomes de pessoas, informações recentes ou pequenos compromissos.
Durante muito tempo, acreditou-se que essas falhas só apareciam em fases mais avançadas da vida, mas pesquisas científicas recentes mostram que o cérebro começa a dar sinais desse processo bem antes do que se imaginava.
Na avaliação da médica Cícera Lourenço Pontes Fon de Jesus, cientificamente falando, não existe uma idade única em que “a memória começa a falhar”. O que os estudos mostram, completou ela, é que diferentes funções cognitivas atingem o auge e começam a declinar em momentos distintos, e com grande variação entre pessoas. Além disso, lapsos de memória podem ocorrer em qualquer idade por causas não relacionadas ao envelhecimento como sono irregular, estresse, distração, deficiência de vitaminas e ansiedade.
Ela explicou que há um panorama por tipo de função cognitiva. A velocidade de processamento e atenção sustentada tendem a atingir o pico no fim da adolescência e início dos 20 anos.
“Declínios lentos e graduais podem ser medidos já dos 20 anos para os 30 anos em estudos transversais; em estudos longitudinais, a curva é mais suave. As tarefas ficam “um pouco” mais lentas, o que pode dar a sensação de esquecimento porque você interrompe mais facilmente o foco”, disse a médica Cícera Pontes Fon, graduada pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
A memória no trabalho, acrescentou a médica, tem seu pico aos 20 anos. A partir dos 30, 40, começa um leve declínio. Há mais dificuldade em manter várias informações ao mesmo tempo, especialmente com distrações.
Em relação à memória episódica, a responsável por lembrar eventos e fatos recentes, sobretudo por recordação livre, está relativamente estável da juventude até a meia-idade. Existe um declínio mais perceptível que costuma surgir a partir dos 50/60 anos, acelerando em idades mais avançadas.
“Há uma observação importante: o reconhecimento costuma se manter melhor que recordação livre. Ou seja, com pistas você lembra bem mais”, destacou a médica especialista e mestre em Neurologia pela UFF- RJ.
Quanto à memória semântica e vocabulário, frequentemente melhoram até os 50/60 anos e só então estabilizam ou caem muito lentamente. “Isso explica por que conhecimentos e vocabulário permanecem sólidos mesmo quando a recordação rápida de nomes ou eventos falha”, detalhou.
A memória prospectiva, a de lembrar de fazer algo no futuro, em tarefas de laboratório, idosos geralmente têm pior desempenho do que jovens.
“Em tarefas do dia a dia com pistas ambientais reais (alarme, lista, rotina), a diferença diminui bastante e às vezes desaparece, porque estratégias compensatórias ajudam muito. Palavra na ponta da língua aumenta gradualmente a partir da meia-idade. É típico lembrar detalhes sobre a pessoa ou objeto, mas demorar mais para recuperar o nome próprio”, esclareceu, a médica que tem pós-graduação em Neurociências e Medicina Funcional Integrativa e pós-graduação em Saúde mental.
Cícera Pontes Fon afirmou que é comum esquecer nomes, informações ou pequenos compromissos, especialmente em determinadas situações do dia a dia. Na maioria das vezes, não significa doença.
A médica ensinou a diferenciar um esquecimento normal do patológico. “O esquecimento normal é ocasional, melhora com pistas e não compromete a autonomia. O esquecimento patológico é mais frequente, progride, não melhora com pistas e interfere nas atividades. Procure avaliação se houver impacto funcional, progressão, repetição marcante, desorientação, mudanças de comportamento ou início atípico/rápido. Há várias causas tratáveis. A avaliação clínica é essencial para diferenciá-las”, pontuou Cícera Pontes Fon que atua na Medicina do Estilo de Vida, na prevenção e tratamento de doenças crônicas e neurodegenerativas, como Doença de Parkinson e Doença de Alzheimer. Cícera Pontes Fon é ainda pós-graduanda em Medicina Regenerativa.

O esquecimento pode ser causado por situações comuns, e geralmente normais, como estresse e sobrecarga mental; falta de sono ou sono de má qualidade; ansiedade ou preocupações constantes; multitarefas excessivas; cansaço físico e emocional; idade (com o envelhecimento, a velocidade de recuperação das informações pode diminuir). Nesses casos, acrescentou a médica, a informação geralmente não foi bem registrada, e não exatamente “perdida”.
O alerta deve ser acesso e as investigações podem ser iniciadas quando os esquecimentos passam a ser frequentes e progressivos; interferem no trabalho, na vida social ou familiar; envolvem informações importantes repetidamente; vêm acompanhados de confusão mental, dificuldade para se expressar, alterações de comportamento e desorientação no tempo ou espaço.
Identificado o problema, o próximo passo é o diagnóstico, um conjunto de etapas que começa com uma boa conversa clínica e exames simples no consultório, passa por análises de sangue e, quando indicado, por exames de imagem e biomarcadores. O objetivo é identificar se o esquecimento é compatível com o envelhecimento normal, Transtorno Neurocognitivo Leve (conhecido como “comprometimento cognitivo leve”) ou algum tipo de demência, além de procurar causas tratáveis e reversíveis.
“A avaliação inicial inclui testes cognitivos padronizados e neuropsicológicos, como o Mini Exame do Estado Mental (MEEM), Montreal Cognitive Assessment (MoCA), testes de fluência verbal e memória, além da avaliação funcional e comportamental. Esses instrumentos auxiliam no rastreio, acompanhamento da progressão e resposta ao tratamento. Os exames laboratoriais básicos são fundamentais para excluir causas reversíveis de declínio cognitivo, como deficiência de vitamina B12, alterações da tireoide, anemia, distúrbios hidroeletrolíticos, insuficiência renal ou hepática, infecções e alterações metabólicas”, detalhou.
Cícera Pontes Fon explicou que a Medicina Funcional Integrativa amplia essa investigação, buscando identificar fatores contribuintes e modificáveis. Entre os exames complementares estão marcadores inflamatórios (PCR-us, ferritina), glicemia, insulina, HOMA-IR, perfil lipídico, vitamina D, homocisteína, status de vitaminas do complexo B, magnésio e avaliação do eixo intestino-cérebro e hormonal.
Segundo a médica, na abordagem integrativa, os exames não são solicitados de forma isolada, mas correlacionados com o quadro clínico, funcional e metabólico do paciente, permitindo um plano terapêutico personalizado. O objetivo não é apenas rotular a doença, mas compreender seus mecanismos e oportunidades de intervenção.
“O diagnóstico precoce e abrangente é a base para preservar autonomia, funcionalidade e qualidade de vida, reforçando que o cuidado com a saúde cerebral deve ser contínuo, individualizado e multidimensional”, resumiu.
Ainda conforme a médica, o tratamento convencional das demências inclui o uso de medicamentos específicos, como inibidores da acetilcolinesterase e memantina, indicados conforme o tipo e o estágio da doença. Essas medicações podem ajudar a controlar sintomas, retardar a progressão e preservar funções cognitivas e comportamentais, embora não promovam a cura.
“Associada ao tratamento médico tradicional, a Medicina Funcional Integrativa propõe uma abordagem ampliada, centrada no paciente, considerando fatores metabólicos, inflamatórios, nutricionais, hormonais, emocionais e de estilo de vida que influenciam a saúde cerebral. Evidências científicas apontam que padrões alimentares anti-inflamatórios, como a dieta mediterrânea, estão associados a menor risco de declínio cognitivo. O consumo adequado de peixes, vegetais, frutas, azeite de oliva e oleaginosas favorece a proteção neuronal”.
“A atividade física regular é um dos pilares mais importantes da prevenção e do tratamento. Exercícios aeróbicos, musculação e treino de equilíbrio melhoram o fluxo sanguíneo cerebral, reduzem inflamação e estimulam a neuroplasticidade. Assim como o manejo do sono, do estresse, o estímulo cognitivo e o suporte familiar completam uma abordagem multifatorial. O diagnóstico precoce do TCL permite intervenções mais eficazes, capazes de preservar autonomia, funcionalidade e qualidade de vida”, pontuou.
Cícera Pontes Fon afirmou que o esquecimento ocasional faz parte da vida moderna e do envelhecimento, mas a perda de memória progressiva não deve ser considerada normal.
Segundo ela, evidências científicas demonstram que a alimentação e o estilo de vida exercem papel fundamental na saúde cerebral e na prevenção do declínio cognitivo.
“Estudos internacionais indicam que até 40% dos casos de demência podem ser prevenidos ou retardados com o controle de fatores modificáveis, como alimentação inadequada, sedentarismo, distúrbios do sono, estresse crônico, isolamento social e doenças cardiovasculares. Padrões alimentares anti-inflamatórios, como a dieta mediterrânea, estão associados a melhor desempenho cognitivo e menor risco de demência. O consumo regular de peixes ricos em ômega-3, azeite de oliva, frutas, verduras, legumes e oleaginosas contribui para a proteção dos neurônios e para a redução do estresse oxidativo”.
Em contrapartida, disse a médica, dietas ricas em alimentos ultraprocessados, açúcar e gorduras trans favorecem inflamação sistêmica, resistência à insulina e prejuízo da função cerebral.
O estilo de vida saudável, explicou Cícera Pontes Fon, vai além da alimentação. A prática regular de atividade física melhora a circulação cerebral, estimula a neuroplasticidade e reduz o risco de doenças associadas ao declínio cognitivo. O sono de qualidade é essencial para a consolidação da memória e para a “limpeza” de toxinas cerebrais.
“O controle do estresse, o estímulo cognitivo contínuo, a vida social ativa e o acompanhamento da saúde metabólica completam esse cuidado. Embora não exista garantia absoluta contra o esquecimento, hábitos saudáveis reduzem riscos, atrasam o início dos sintomas e preservam autonomia e qualidade de vida ao longo do envelhecimento”, finalizou.
Exemplos de vidas ativas e felizes
A economista Deinita Nunes de Souza Baêta, 73 anos, está há quase quatro anos fazendo atividades regulares como pilates, duas vezes, por semana. Além também de dedicar seu tempo à leitura, jogos, reciclagem com rolo de papel, caixa de papelão, retalho de tecidos e CDs. Ela ainda preza, e muito, por uma alimentação equilibrada.
“Desde que passei a cuida mais de mim, minha vida deu uma volta de 180°, muitas coisas mudaram, principalmente na minha vida pessoal, comecei a ter alta estima, cuidar dos outros, sem descuidar de mim, no sentido de me amar, me olhar no espelho e dizer, eu sou bonita”, disse emocionada, Deinita Nunes de Souza Baêta.
Aos 62 anos, Tânia Maria Barros Ribeiro também está de olho na sua saúde física e emocional. Ela integra um clube onde faz aulas de cognição, realiza viagens, passeios, vai a teatro e dá boas gargalhadas. “Cuido da minha saúde, com exames periódicos, faço pilates e caminhadas”, revelou, toda animada.
Espaços destinados aos idosos
Em Maceió, existe, desde 2019, o Vida Criativa – Clube da Longevidade. A psicóloga e neuropsicóloga Vanessa Fagá Rocha explicou que a expectativa de vida média do brasileiro é de 76 anos, o que significa dizer que cada vez mais pessoas chegam aos 80, 90 e 100 anos.
“Nosso clube é fruto de uma paixão pela longevidade, pelo respeito às pessoas da geração 60+ e pela vontade de iniciar um negócio que valorizasse esta fase da vida. Com este foco, lançamos nossos olhares e atenções sobre as potencialidades, alegrias e riquezas que a vida após os sessenta anos pode proporcionar às pessoas que conseguem enveredar pelos caminhos da longevidade. Somamos a isto todos os ganhos mentais, de saúde física e emocional que a criatividade e a prática de novas atividades podem trazer”, explicou. O clube funciona na Rua Capitão Marinho Falcão 125, Galeria Classe A, loja 04. Os telefones são 99664-0024 e 99916-9000, ambos com DDD 82.
No bairro da Jatiúca, está localizado o Espaço Conviver, um ambiente acolhedor e seguro, que promove saúde, bem-estar e novas amizades para idosos.
No local, são oferecidas atividades que estimulam o corpo e a mente como fisioterapia, hidroginástica, terapia ocupacional, musicoterapia, dança sênior, arteterapia, ludoterapia e mais algumas atividades.
Uma das responsáveis pelo local, Sheila Cardoso, explicou que o Espaço Conviver é um ambiente de convivência voltado ao cuidado integral da pessoa idosa, oferecendo acolhimento, atenção qualificada e atividades que promovem o bem-estar físico, emocional e social.
“Atuamos com foco no envelhecimento ativo, incentivando hábitos saudáveis e uma vida com mais qualidade, afeto e significado. Nosso trabalho é guiado pelo respeito à história de vida de cada idoso, valorizando suas experiências, saberes e singularidades”, destacou.
O Espaço Conviver fica localizado à Rua Marechal Arthur Alvim Câmara n° 115, Conjunto Stella Maris, Jatiúca. O telefone de contato é (82) 98779-8674.
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