Saúde

Janeiro não faz milagre: o que realmente pesa na recolocação profissional em 2026

Mais do que esperar o “mês das oportunidades”, especialistas apontam que estratégia, autoconhecimento e habilidades comportamentais definem quem avança — e quem fica para trás — no mercado de trabalho

Por Thayanne Magalhães 09/01/2026 14h30 - Atualizado em 12/01/2026 15h25
Janeiro não faz milagre: o que realmente pesa na recolocação profissional em 2026
Cecilia Baptista - Mentora e Partner na Recoloca - Foto: Assessoria

Janeiro costuma carregar a promessa simbólica de recomeços. Para quem busca uma nova oportunidade profissional, o início do ano frequentemente aparece como sinônimo de portas abertas, contratações aceleradas e decisões finalmente colocadas em prática. No entanto, no mercado de trabalho brasileiro de 2026, essa expectativa precisa ser encarada com mais racionalidade e menos romantização.

Em entrevista à Tribuna, a mentora e partner da Recoloca, Cecilia Baptista (https://www.recoloca.net/), avalia que janeiro é, sim, um período relevante, mas longe de ser determinante. “O início de um novo ano traz naturalmente a ideia de reinício, de mudança e transformação, o que torna a busca mais ativa. As empresas normalmente concluem no quarto trimestre seus orçamentos, planejamentos e estratégias, e isso pode gerar a abertura de vagas. É daí que nasce o chamado ‘mito de janeiro’”, explica.

Segundo ela, o que muitas vezes passa despercebido é o outro lado dessa equação. “Ao mesmo tempo em que surgem oportunidades, cresce também o número de candidatos. Além disso, muitas empresas usam o começo do ano para efetivar projetos e finalizar processos seletivos que já estavam em andamento no ano anterior”, pontua. O resultado é um cenário mais aquecido, porém também mais competitivo. “Janeiro é um momento relevante, mas não é garantia de recolocação”, resume.

Para Cecilia, o erro mais comum é condicionar decisões importantes à virada do calendário. “A estratégia não deveria ser ‘esperar janeiro’, mas focar no que se busca e se preparar antecipadamente de forma assertiva. Isso envolve networking, revisão de posicionamento, comunicação profissional — especialmente no LinkedIn — e clareza sobre o que se quer alcançar”.

O que o mercado realmente espera em 2026


Quando o olhar se volta para as exigências do mercado de trabalho em 2026, a mentora destaca uma mudança que já deixou de ser tendência para se tornar regra. “A qualificação técnica deixou de ser o fator número um. Hoje, as soft skills não são mais desejáveis, são requisitos”, afirma. Comunicação eficaz, empatia, liderança, resiliência e autogestão emocional passaram a ocupar o mesmo patamar — ou até superior — às competências técnicas em muitos processos seletivos.

Esse movimento, segundo Cecilia, reflete uma transformação mais profunda na relação entre profissionais e empresas. “As organizações perceberam que habilidades comportamentais determinam não apenas performance individual, mas a forma como a pessoa contribui com o time, com a cultura e com os resultados coletivos.” A familiaridade com inteligência artificial também entra nesse pacote. “Não se trata de ser especialista, mas de entender e saber conviver com a tecnologia como parte do trabalho.”

Ela chama atenção ainda para conceitos como lifelong learning — o aprendizado contínuo ao longo da vida — e learning agility, a capacidade de aprender rapidamente com experiências e se adaptar a novos contextos. “O mercado muda em uma velocidade muito maior do que antes. Quem não desenvolve consciência sobre si, sobre seus pontos fortes e sobre o que precisa ser transformado, tende a ficar para trás.”

Emoção fora de lugar cobra preço alto


Ansiedade, frustração e medo da rejeição costumam acompanhar quem está em processo de recolocação, mas Cecilia evita tratar esses sentimentos como algo inevitável. “Eu não colocaria esses padrões como integrantes naturais do processo, mas como estados emocionais de quem não está alinhado consigo mesmo e com o que se propõe a buscar”, afirma.

Na Recoloca, esse trabalho começa antes mesmo da busca por vagas. “O que chamamos de anamnese emocional passa pelo reconhecimento de quem a pessoa é, pela identificação de habilidades, pela comunicação eficaz do que deseja expressar ao mercado e pelo entendimento dos limitadores internos, como a autossabotagem”, explica. Para ela, o posicionamento interno define o resultado externo. “Quanto maior o alinhamento interno, mais sólido é o caminho percorrido. As escolhas deixam de ser reativas e passam a ser conscientes.”

O custo de adiar decisões


A insegurança e o comodismo seguem como grandes inimigos das mudanças de carreira. Para a mentora, janeiro se torna estratégico justamente por ativar gatilhos psicológicos ligados ao novo. “A virada de ano desperta naturalmente a ideia de inovação, reinvenção e mudança de rota. Ao mesmo tempo, surgem questionamentos como ‘será que é seguro?’, ‘será que estou pronto?’”, analisa.

O problema, segundo ela, é quando esses questionamentos superam a reflexão consciente. “Nesse ponto, o profissional fica paralisado pelo medo ou pela zona de conforto.” O maior risco não é mudar tarde, mas não se preparar. “Perde-se o timing de arregaçar as mangas, bancar escolhas e usufruir dos resultados que elas podem gerar.”

Preparação estratégica não é ansiedade disfarçada


Mesmo sem vagas abertas, o início do ano pode ser decisivo para quem sabe usá-lo com inteligência. “Preparação estratégica exige dois elementos básicos: clareza e programação”, afirma Cecilia. Isso envolve entender o que se busca, estruturar etapas, revisar currículo, otimizar o LinkedIn, fortalecer o networking e conhecer o mercado.

Ela faz um alerta importante: movimento excessivo nem sempre é sinônimo de estratégia. “Existe uma ansiedade disfarçada de ação, quando a pessoa acredita que o resultado virá da quantidade de currículos enviados ou de contatos feitos, quando, na verdade, ele está ligado à qualidade de cada movimento.” Para a mentora, ação sem direção é apenas desgaste. “Preparação de verdade minimiza riscos, inclusive o medo do resultado, que não está sob controle.”

Transformar frustração em vantagem competitiva


Para quem encerrou 2025 com frustrações profissionais, Cecilia vê um ponto de virada claro para 2026. “O mercado não penaliza quem passou por um ano difícil, mas certamente cobra de quem não soube elaborar o que aconteceu”, afirma. Profissionais que conseguem transformar adversidade em aprendizado consciente tendem a sair na frente. “Eles são percebidos como mais maduros, mais prontos para novos desafios”.

O erro, segundo ela, está em tentar apagar o passado ou adotar um discurso defensivo. “Evitar frases como ‘o mercado estava ruim’ ou ‘a empresa não me valorizou’, e não contar a história como trauma, mas como competência.” A chave está na narrativa. “A virada estratégica é transformar frustração em ativo narrativo. O mercado não quer saber o que você sofreu, mas o que você faz diferente agora”.

Para Cecilia, esse é o maior diferencial competitivo de quem viveu um período difícil. “Conectar aprendizado com resultado e comunicar isso de forma eficaz é o que separa quem apenas quer recomeçar de quem realmente está pronto para avançar”.