Roteiro cultural

Kariri-Xocó lábios de boi: memórias de um indígena Fulkaxó

Relato em primeira pessoa de Awassury Fulkaxó atravessa infância, território e espiritualidade para narrar a resistência de um povo originário às margens do rio Opara, no Nordeste

Por Assessoria 16/06/2026 02h02
Kariri-Xocó lábios de boi: memórias de um indígena Fulkaxó
Capa do livro - Foto: Assessoria

Kariri-Xocó lábios de boi é um livro de memórias que nasce da voz de Awassury Fulkaxó, em parceria com Silvia Nogueira, e se constrói como um testemunho direto sobre a vida indígena no Nordeste brasileiro. A obra percorre infância, rituais, trabalho e luta por território, articulando lembranças pessoais a uma dimensão coletiva: a história de resistência dos povos Kariri-Xocó, Fulni'ô e Fulkaxó. Ao recusar o olhar externo e interpretativo do não indígena, o livro afirma uma narrativa própria, que reposiciona o leitor diante da cultura, da espiritualidade e das urgências contemporâneas desses povos.

Ao longo dos capítulos, belamente ilustrados com fotos e artes da artista indígena Júlia Maynã, companheira do autor, episódios concretos e simbólicos se entrelaçam. Em uma passagem marcante, o autor relembra o "cavalo que não comia capim", invenção do pai para transformar o cansaço de uma caminhada em brincadeira, um gesto de afeto que revela modos de educar e resistir na escassez.

Um dos momentos mais marcantes do livro ocorre quando Awassury deixa a escola da aldeia e passa a estudar na cidade, por volta dos quatorze anos, uma travessia que é ao mesmo tempo geográfica e simbólica. Até então, sua educação se dava em uma pequena casa, informalmente, conduzida por uma parenta; ao ingressar na escola urbana, ele se depara com outro mundo, permeado por tensões e preconceitos. O conselho do avô, duro e direto, era para que respeitasse a todos, mas se protegesse do olhar muitas vezes hostil dos "brancos". A experiência escolar, assim, não aparece apenas como acesso ao ensino formal, mas como um rito de passagem, em que o jovem indígena precisa aprender a circular entre dois universos distintos, sem perder sua identidade.

Em outra frente, surgem as memórias do escambo de cerâmica, das longas jornadas pelas estradas de barro e da convivência intensa com o rio Opara (São Francisco), descrito como mãe e fonte de vida, hoje ameaçada por barragens e pela devastação ambiental. Há também o relato da retomada de terras, dos conflitos fundiários e da redução drástica dos territórios indígenas ao longo do tempo.

Mais do que um livro de lembranças, Kariri-Xocó lábios de boi propõe um deslocamento de perspectiva. Ao abordar temas como espiritualidade, transmissão de saberes, infância coletiva e relação com a natureza, a obra amplia o entendimento sobre o que são ciência, cultura e conhecimento indígena.

O texto, construído a partir de áudios, conversas e convivência, preserva o ritmo e a oralidade do autor, ao mesmo tempo em que revela o processo sensível de escuta e escrita compartilhada que sustenta o livro.

A obra foi contemplada com o ProaC de 2024 e será lançada em São Paulo em junho de 2026, em local e data a definir.

Sobre os autores e a ilustradora:

Awassury é indígena Fulkaxó, das etnias Fulni'ô e Kariri-Xocó. Nascido às margens do rio Opara, traz em sua trajetória a vivência direta dos rituais, da luta por território e da preservação cultural de seu povo. Este livro reúne suas memórias com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre os povos originários a partir de sua perspectiva, que abarca a voz de seu povo, rompendo com séculos de silenciamento histórico. Ele vive na sua aldeia.

Silvia Nogueira é escritora, tradutora e psicóloga. Participou do projeto a partir de encontros e escutas com Awassury, transformando áudios e relatos em texto, em um processo colaborativo que respeita a oralidade e a autoria do narrador. Sua escrita atua como a trama para o urdume, costurando as narrativas sem apagar a voz original.

Júlia Maynã é ilustradora indígena e participou ativamente da construção visual da obra. Suas imagens dialogam com os relatos, trazendo elementos simbólicos, cotidianos e espirituais que ampliam a experiência de leitura e aproximam o leitor do universo narrado.

Trechos do livro:

"Sou indígena Fulkaxó, das etnias Fulni'ô e Kariri-Xocó. Meu povo vive às margens do rio Opara desde tempos imemoriais. Cresci em uma aldeia na beira do rio, onde nos identificamos como o povo da margem esquerda do Opara. No desenrolar dos confrontos com o invasor, nossa cultura foi bastante atingida. Perdemos muita coisa, inclusive o idioma, atualmente em processo de retomada. Mas conseguimos preservar nosso ritual sagrado, que mantém a união e a força de nosso povo."

"Em geral, o Brasil desconhece os povos indígenas e desvaloriza nossos saberes. Muitos nos consideram ultrapassados, como se não vivêssemos neste tempo. Mas o indígena quer estudar, quer se formar, quer construir um futuro melhor para seus filhos sem abandonar sua cultura. Nosso legado ao povo brasileiro é bastante rico, e as florestas ainda em pé talvez sejam a parte principal desse legado."

Serviço:

Kariri-Xocó lábios de boi: memórias de um indígena Fulkaxó

Autor: Awassury Fulkaxó em parceria com Silvia Nogueira

Literatura indígena

2026

Editora Saíra

Número de páginas: 126

ISBN: 978-65-5271-169-4

Lançamento:

20 de junho: Museu das Culturas Indígenas, às 11h (Rua Dona Germaine Burchard, 451, Água Branca, SP)