Política
Braskem omitiu alertas sobre tragédia desde 1988
Documentos da PF indicam que empresa sabia já naquela época que a atividade de mineração causava afundamento de solo e colocava em risco uma gigante área residencial em Maceió
Tanto a Salgema quanto a Braskem sabiam, pelo menos desde 1988, que a atividade de mineração causava afundamento de solo e colocava em risco uma gigante área residencial em Maceió. Mesmo assim, a mineradora omitiu os alertas em pelo menos 30 documentos entregues a autoridades de Alagoas.
As informações foram divulgadas ontem (18/6) pelo Portal UOL, em reportagem assinada pelo jornalista Carlos Madeiro. Segundo ele, pelo menos 17 documentos, que a Polícia Federal (PF) teve acesso, comprovam essa omissão.
De acordo com a reportagem, documentos obtidos pela PF apontam que as empresas Salgema e Braskem sabiam desde 1988 que a atividade de mineração poderia causar a subsidência do solo nos bairros onde estavam instalados os poços de prospecção de sal, usado na fabricação de cloro/soda.
Do mesmo jeito que sabiam que atividade de mineração poderia colocar em risco uma gigante área residencial em Maceió. Mesmo assim, ao longo de 30 anos, tanto a Salgema quanto a omitiram esses alertas dos órgãos de fiscalização e controle ambiental.
“Os dados constam na denúncia feita em outubro de 2025 pelo Ministério Público Federal (MPF), que pede a condenação da empresa e de ex e atuais diretores, consultores e servidores pelos alertas técnicos ignorados”, afirmou a reportagem do Portal UOL.
“A investigação foi feita dentro da operação Lágrimas de Sal, da PF. Em 12 de junho, a Justiça Federal de Alagoas aceitou a denúncia contra a Braskem, que pode ser multada, e 13 pessoas, que vão responder por diversos crimes”, acrescentou Madeiro.
Segundo ele, o processo tramitou sob segredo, que foi derrubado recentemente pela Justiça, atendendo a pedido do MPF. “O UOL teve acesso aos 17 volumes da denúncia original, que traz detalhes de como as empresas sabiam do impacto real da mineração na área”, destacou.
O jornalista disse ainda que os alertas detalham falhas de monitoramento e o risco de “colapso total” de minas de extração de sal-gema. “Apesar disso, a mineradora teria preferido falsificar mapas e manipular medições topográficas para enganar autoridades e conseguir as renovações de licenças ambiental e minerária, segundo a denúncia”, acrescentou.
A reportagem da Tribuna Independente procurou ouvir a Braskem, por meio da sua assessoria de comunicação em Maceió, para saber se a mineradora confirmaria as informações do Portal UOL, mas a empresa não deu retorno. Procurada pelo jornalista da UOL, para comentar a denúncia do MPF, a Braskem também não quis se manifestar.
PROCESSO
Na semana passada, a Justiça Federal em Alagoas recebeu a denúncia apresentada pelo MPF contra a Braskem, ex-dirigentes e técnicos ligados à atividade de mineração que provocou o afundamento do solo em bairros de Maceió. Com isso, a decisão torna a empresa e os executivos réus na ação penal que apura a responsabilidade pelo desastre socioambiental.
Questionada a respeito, pela mídia nacional, a Braskem afirmou que sempre atuou em conformidade com as leis e regulações do setor, e que deverá se pronunciar oportunamente nos autos do processo.
Segundo a decisão, a denúncia apresenta elementos suficientes para justificar a abertura do processo, com descrição detalhada das condutas atribuídas aos acusados, além de provas técnicas e documentais reunidas durante a investigação.
Mineradora começou a fazer exploração em Maceió na década de 1970
A mineração em Maceió começou na década de 1970, com a antiga Salgema Indústrias Químicas, atual Braskem, autorizada pelo poder público a extrair sal-gema de minério usado na produção de soda cáustica e PVC.
Pois bem. Desde que começou a explorar o subsolo da capital alagoana, para extrair sal-gema, em meados dos anos 70, tanto a Salgema como a Braskem sempre ocultaram informações das autoridades e da população alagoana.
Por isso, as vítimas da mineração só ficaram sabendo que as rachaduras e fissuras nos imóveis e nas ruas eram causadas pela mineração de sal-gema em março de 2018, quando houve um tremor de terra na região, assuntando as pessoas que residiam nos bairros atingidos pelo afundamento do solo, em Maceió.
Ao todo, foram perfurados 35 poços para exploração de sal-gema, o que levou ao colapso, sem precedentes no mundo, do solo em uma área urbana. Cerca de 60 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas ou fechar seus negócios de forma permanente a partir de 2018.
Cerca de oito anos se passaram, várias denúncias foram feitas, e só agora a denúncia contra a mineradora foi acatada pela Justiça, fazendo com que seus colaboradores diretos virassem réus no processo que tramita na Justiça Federal.
OUTRO LADO
Leia, abaixo, a íntegra do comunicado da Braskem divulgou em nota, sobre o processo que ela responde na Justiça Federal:
“A Braskem reitera seu compromisso com a sociedade alagoana, assim como o respeito e solidariedade para com os moradores afetados.
A empresa se pronunciará oportunamente nos autos do processo e ressalta que, desde o início das apurações, contribuiu, assim como seus integrantes, com as informações e esclarecimentos solicitados.
A Braskem sempre atuou em conformidade com as leis e regulações do setor, informando e prestando contas regularmente às autoridades competentes.
Seguiremos empenhados no cumprimento de todos os compromissos assumidos.”
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