Política
Candidatura ao Senado pressiona prefeitos do MDB
Partido liderado pelo senador Renan Calheiros deve cobrar dos gestores municipais voto no Doutor Wanderley
A decisão do MDB em lançar o deputado estadual e cardiologista Doutor Wanderley ao Senado consolidou a estratégia do grupo político liderado pelos Calheiros de disputar as duas vagas da bancada alagoana em 2026 com uma chapa própria. O ato de oficialização da pré-candidatura está marcado para a próxima segunda-feira (1/6), em Maceió, reunindo lideranças do partido, prefeitos aliados e integrantes da base governista.
Com a definição, o MDB passa a ter oficialmente dois nomes na corrida ao Senado: o senador Renan Calheiros, que tentará mais um mandato, e Wanderley, aliado histórico do grupo governista e nome considerado de confiança da cúpula emedebista.
Na quinta-feira (28), Wanderley afirmou que recebeu o convite com responsabilidade e destacou que a pré-candidatura nasce a partir de uma construção interna do partido. O deputado também ressaltou a intenção de fortalecer o projeto político do MDB em Alagoas e ampliar o diálogo com lideranças no interior e na capital.
Politicamente, a entrada de Doutor Wanderley é vista como um movimento estratégico para ampliar a presença eleitoral do grupo governista em regiões onde o MDB busca maior competitividade, principalmente em Maceió. A composição também fortalece o discurso de unidade partidária defendido por Renan Calheiros e senador Renan Filho (MDB), pré-candidato ao Governo de Alagoas.
A definição da chapa “puro sangue” do MDB tende a provocar impactos diretos sobre os apoios de prefeitos aliados da legenda. Isso porque parte dos gestores municipais vem demonstrando alinhamento político simultâneo entre Renan Calheiros e o deputado federal Arthur Lira (PP), que também se movimenta para disputar uma vaga ao Senado.
Com a confirmação de Wanderley, cresce a avaliação de que o MDB deverá intensificar a cobrança por fidelidade partidária entre prefeitos e lideranças ligadas à sigla. O objetivo é consolidar um palanque fechado em torno dos dois candidatos do partido ao Senado, reduzindo espaços para composições híbridas com adversários políticos.
O cenário amplia ainda mais a disputa política entre os grupos liderados por Renan Calheiros e Arthur Lira. Nos últimos meses, houve sinais de aproximação entre os dois campos políticos, incluindo gestos públicos de cordialidade, mas os movimentos eleitorais recentes voltaram a evidenciar o distanciamento entre as lideranças.
A oficialização da candidatura de Wanderley também pressiona a oposição a acelerar definições para 2026. Lideranças oposicionistas discutem a necessidade de construir uma composição competitiva tanto para o Governo quanto para o Senado diante da formação antecipada da chapa governista.
Outro ponto observado nos bastidores é o impacto da decisão do MDB sobre a movimentação de prefeitos no interior do estado. Historicamente, gestores municipais exercem influência importante nas articulações eleitorais e costumam integrar alianças a partir de compromissos políticos e administrativos firmados com grupos majoritários.
Marcelo Beltrão preza por diálogo e Barbosa quer definir apoios
Em 2024, o MDB elegeu 65 dos 102 prefeitos das cidades alagoanas. Com investidas do grupo liderado por Renan Calheiros, senador e presidente estadual da sigla, a legenda conta hoje com, aproximadamente, 80 prefeitos, uma base considerada fundamental nas pretensões eleitorais deste ano.
Antes filiado ao PP, do deputado federal Arthur Lira, e agora no MDB, o prefeito de Coruripe, Marcelo Beltrão, já demonstrou que vai trabalhar politicamente para que a sua base de eleitores vote em Renan Calheiros e Arthur Lira para o Senado.
A Tribuna questionou ao gestor se a chegada de Doutor Wanderley como nome do MDB para o Senado muda a articulação política. Em resposta, Beltrão afirmou que o cenário eleitoral ainda está em construção e defendeu que as definições políticas ocorram a partir do diálogo e do respeito entre as lideranças. Segundo ele, a disputa ao Senado faz parte do processo democrático e cada grupo político possui autonomia para conduzir suas decisões.
“A política é feita de diálogo, respeito e construção. Alagoas vive um momento em que grandes lideranças colocam seus nomes à disposição, e isso faz parte do processo democrático”, declarou.

Beltrão também destacou que os prefeitos alagoanos possuem independência política e descartou a ideia de decisões tomadas por imposição partidária.
“Os prefeitos alagoanos têm independência e maturidade política. Não acredito em decisões tomadas por pressão ou imposição. A política verdadeira se constrói com diálogo, confiança e respeito”, afirmou.
ARAPIRACA
O prefeito de Arapiraca, Luciano Barbosa (MDB), também já deixou claro que vota em Renan Calheiros e Arthur Lira para o Senado, mas ainda não definiu se apoia o nome de Renan Filho (MDB) ao Governo de Alagoas.
A Tribuna também questionou ao gestor da segunda maior cidade do estado sobre a chapa “puro sangue” do MDB para o Senado, mas a assessoria de Barbosa informou que o prefeito vai se posicionar sobre o assunto apenas na próxima semana. Já os demais políticos procurados pela Tribuna não retornaram os contatos da reportagem até o fechamento desta edição.
Pré-candidatura de Doutor Wanderley agrega e é de confiança
Para a cientista política e professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Luciana Santana, a indicação de Doutor Wanderley ao Senado pelo MDB ocorre dentro de um movimento já esperado nos bastidores políticos. Segundo ela, o nome do médico vinha sendo ventilado há meses e ganhou força após a saída do vice-governador Ronaldo Lessa (PDT), do grupo político liderado pelos Calheiros.
Luciana avalia que Wanderley é um nome de confiança da família Calheiros e pode exercer um papel estratégico na campanha de Renan Calheiros ao Senado, especialmente em Maceió, onde o grupo historicamente enfrenta maior dificuldade eleitoral.
“É um nome que agrega à candidatura de Renan Calheiros e pode ajudar a puxar votos, principalmente em Maceió”, afirmou.

A cientista política pondera que, embora o cenário ideal para o MDB fosse ampliar alianças com outros partidos na composição da chapa majoritária, a escolha por uma candidatura “puro sangue” também atende a critérios de confiança política e fortalecimento interno da legenda.
“Não vejo hoje no radar outro partido que pudesse ocupar esse espaço. Então é uma estratégia que tende a dar certo”, analisou.
Sobre o comportamento dos prefeitos do MDB diante da disputa ao Senado, Luciana Santana destaca que existe uma relação de reciprocidade política construída historicamente entre lideranças municipais e grupos que concentram poder e recursos.
Segundo ela, prefeitos costumam seguir acordos políticos em troca de apoio institucional, liberação de emendas e parcerias administrativas, o que influencia diretamente o posicionamento eleitoral nos municípios.
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