Polícia

Comemoração da vitória de Lula termina em ataque com facão em Maceió; outros casos de violência marcam eleição

Lucas Farias Lima foi atingido nas costas durante discussão no Conjunto Medeiros Neto, segundo relato de pessoas próximas; episódios de agressão foram registrados no Brasil e no exterior durante o segundo turno

Por Thayanne Magalhães 26/10/2026 07h42 - Atualizado em 26/10/2026 07h46
Comemoração da vitória de Lula termina em ataque com facão em Maceió; outros casos de violência marcam eleição
Lucas Farias Lima foi atingido nas costas durante discussão no Conjunto Medeiros Neto - Foto: Cortesia

A comemoração da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial terminou em violência no Conjunto Medeiros Neto, no bairro Santa Amélia, em Maceió. Lucas Farias Lima foi atingido nas costas com um facão após uma discussão entre moradores, segundo relato encaminhado à reportagem. O episódio teria ocorrido depois que um grupo de apoiadores do presidente reeleito passou a comemorar o resultado eleitoral em frente a prédios residenciais.


De acordo com o relato, três mulheres e dois homens participavam da comemoração quando alguns eleitores do candidato derrotado começaram a fazer gestos obscenos, provocações e ameaças. Um dos homens teria dito que bateria em alguém, o que levou Lucas, que estava dentro de um apartamento com a mãe, a sair para entender o que estava acontecendo.

Ao questionar o autor da ameaça, Lucas teria iniciado uma discussão verbal. A situação parecia estar se encerrando quando outro homem, identificado no relato apenas como Flávio, saiu de um apartamento empunhando um facão e desferiu um golpe contra as costas da vítima.

Ainda segundo a versão apresentada, o golpe teria sido aplicado com o lado não afiado da arma. Quando o agressor tentou atingir Lucas novamente, pessoas que estavam no local intervieram, e o facão acertou uma parede. A mãe da vítima também teria ajudado a impedir a continuidade das agressões.

Após o episódio, Lucas entrou em casa e acionou a polícia. Uma guarnição conduziu os envolvidos à Central de Flagrantes, onde, segundo as informações repassadas à reportagem, foi registrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) por lesão corporal dolosa, com posterior liberação do suspeito.

Lucas procurou o Instituto Médico Legal (IML) para realizar exame de corpo de delito e também recebeu atendimento em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Conforme o relato, o médico que o examinou demonstrou preocupação com a possibilidade de o ferimento ter provocado consequências fatais caso o golpe tivesse atingido outra região ou sido desferido em um ângulo diferente.

A reportagem ainda busca confirmação oficial da ocorrência, acesso ao registro policial e esclarecimentos sobre o enquadramento jurídico adotado. Até o momento, não há elementos independentes suficientes para afirmar que a motivação do ataque tenha sido exclusivamente política, embora a discussão, segundo o relato, tenha começado durante a comemoração eleitoral.

Ataques e agressões durante o segundo turno


O episódio em Maceió ocorre em um contexto de outros registros de violência durante o segundo turno presidencial, realizado em 25 de outubro. Em diferentes localidades, divergências políticas, provocações e confrontos acompanharam a votação e as comemorações do resultado.

Em Lisboa, Portugal, uma brasileira de 17 anos foi agredida com um soco no rosto depois de votar. Testemunhas apontaram o agressor como apoiador de Flávio Bolsonaro (PL). A jovem recebeu atendimento dos bombeiros e foi encaminhada a um hospital. Segundo informações divulgadas no dia da votação, imagens do suspeito foram encaminhadas às autoridades portuguesas para investigação.

Em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, a vereadora Iara Pimentel (PT) foi atingida no rosto por um objeto arremessado contra o carro de som em que participava de uma carreata em apoio a Lula, na noite de sábado (24), véspera da votação. Outros participantes também teriam sido alvo de objetos lançados durante o ataque.

A parlamentar precisou ser socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). No domingo, compareceu à Polícia Federal para registrar a ocorrência e prestar depoimento. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, confirmou que o caso seria investigado. Imagens do episódio foram apresentadas às autoridades.

Três mortes na véspera da eleição


A violência também deixou mortos na noite de sábado (24), embora seja necessário distinguir os casos em que há indícios de contexto político daqueles em que as autoridades descartaram essa motivação.

Em Bonito, no Mato Grosso do Sul, Ewerton Rodrigues da Silva, de 35 anos, morreu após ser baleado durante uma briga registrada depois de uma carreata de apoio a Flávio Bolsonaro. Outro homem ficou ferido. Segundo informações preliminares da investigação, a discussão teria começado com um desentendimento de trânsito e evoluído para agressões físicas. Um adolescente de 16 anos é apontado como autor dos disparos.

O Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul esclareceu que, conforme as informações obtidas pelas autoridades, a ocorrência não teria sido motivada por divergências políticas. O caso deve, portanto, ser tratado como uma morte ocorrida no contexto temporal de uma manifestação eleitoral, sem atribuir ao crime uma motivação política que foi oficialmente contestada.

Já em Porto Esperidião, no Mato Grosso, Anderson Pires Bolandin e Sebastião Dusso Braga morreram após uma discussão em um posto de combustíveis terminar em agressões físicas e disparos de arma de fogo. Outras duas pessoas ficaram feridas.

Embora tenham circulado versões que relacionavam o episódio a divergências políticas, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso informou que as informações policiais disponíveis não apontavam motivação político-partidária para o confronto. A instituição alertou que a proximidade temporal entre um crime e manifestações eleitorais não comprova, por si só, relação causal.

Divergência política não justifica violência


Os episódios registrados durante o segundo turno reforçam a necessidade de apurar com rigor ameaças, agressões e ataques que possam estar relacionados a divergências políticas. A liberdade de manifestação e o direito de comemorar uma vitória eleitoral fazem parte da vida democrática, assim como o direito de discordar do resultado.

No caso de Maceió, a investigação deverá esclarecer as circunstâncias do golpe de facão, a sequência dos acontecimentos e a responsabilidade dos envolvidos. Também será necessário verificar se houve ameaça anterior, qual foi a gravidade das lesões e se o enquadramento inicial da ocorrência corresponde aos elementos reunidos pelas autoridades.

A apuração deve considerar os fatos e as provas, sem antecipar conclusões sobre a motivação ou a responsabilidade criminal. Independentemente da preferência eleitoral dos envolvidos, ameaças e agressões precisam ser investigadas, e eventuais crimes devem ser tratados conforme a legislação.