Interior
Gentrificação na Rota Ecológica de Alagoas
Situação é grave e tem provocado expulsão dos nativos tradicionais, aumento do custo de vida e especulação imobiliária
A Rota Ecológica, no Litoral Norte de Alagoas, formada pelos municípios de Passo de Camaragibe, Porto de Pedras e São Miguel dos Milagres, enfrenta um processo de gentrificação, caracterizado pelo aumento do custo de vida, expulsão de moradores tradicionais para áreas mais distantes, valorização imobiliária agressiva e a perda de identidade cultural devido ao turismo de alto padrão e à especulação, com a orla sendo dominada por empreendimentos de luxo e aluguéis de temporada, afetando o acesso e a vida das comunidades pesqueiras locais.
Nestes três municípios a realidade da gentrificação chegou. A gentrificação é quando o poder econômico destrói não somente o legado cultural de um povo, bem como, literalmente “expulsa” os moradores de suas terras originais. Os guias locais de turismo, que usam estruturas como clube de praia para suas ações diárias também estão sendo afetados, pois os grupos empresariais estão comprando os terrenos à beira-mar para dar lugar a condomínios luxuosos e não permitindo nenhum tipo de ação.
Esse processo, que já começou há uns 10 anos, timidamente, sem as pessoas nem saberem o que era, ganhou visibilidade nos últimos anos pela fama internacional da rota, que apesar de pousadas de luxo, condomínios luxuosos e festas de fim de ano badaladas, sofre com infraestrutura precária, falta de saneamento básico, limpeza urbana, sem contar com a deficiência descarada das empresas fornecedoras de água e energia. Por fim, a chegada do crime organizado, que transformou vilas pacatas em lugares de medo.
Um dos primeiros moradores a sentir a gentrificação, ou seja, literalmente foi expulso da praia, foi o empresário Marcelo Siqueira, o peixe frito, que tinha um restaurante pé na areia na praia de São Miguel dos Milagres, que teve que abandonar sua barraca para dar lugar ao Condomínio dos Milagres, que mesmo depois de 8 anos, continua dando passos de tartaruga. Quando conseguiu outro lugar na praia, um pouco mais distante, teve que sair novamente, para dar lugar a outro gigantesco condomínio, esse sim, quase pronto. Marcelo fez denúncias, gravou vídeos, apelou ao Ministério Público e a Secretaria do Patrimônio da União. Não teve jeito. Hoje mora no Jubileu, na zona rural do município.
Mas o caso de gentrificação ganhou mais repercussão em setembro do ano passado, quando o guia de turismo, filho nativo de pescadores de Porto de Pedras, João José, o João Facão, denunciou que, num trecho entre as praias de Lajes e Patacho, em Porto de Pedras, o desaparecimento de um beach club para dar lugar a um condomínio estaria expulsando dezenas de locais de seus lugares de trabalho.
João resumiu o drama vivido pelos moradores e pescadores locais em uma frase marcante: “A gente não tem mais orla, a gente tem ponto de visita”. Ele relatou que o tempo de acesso à praia, que antes era de dez minutos, aumentou consideravelmente devido às construções e à privatização de áreas litorâneas na chamada Rota Ecológica.
A situação faz parte de um contexto mais amplo de especulação imobiliária e apropriação do litoral norte de Alagoas por grandes empreendimentos turísticos, o que tem gerado ocupação desordenada e construção de condomínios “pé-de-areia”, turismo predatório que exclui moradores e prejudica a pesca artesanal e denúncias de irregularidades, como a realização de eventos em Áreas de Proteção Ambiental (APA), que levaram o Ministério Público Federal (MPF) a emitir recomendações e as prefeitura a intensificar a fiscalização.

O relato de João Facão, o jangadeiro, ilustra a problemática central da região, que envolve a luta das comunidades tradicionais pela preservação de seus espaços e modos de vida frente à expansão turística descontrolada. O vídeo do João ganhou repercussão nacional e agitou moradores dos 3 municípios, que deram início a questionamentos sobre a validade do processo de gentrificação.
Kenny Wilson Bernardo da Silva, Delegado do Creci-AL na Região Norte, criador do conceito “Turismo Imobiliário”, também faz questionamentos sobre gentrificação e progresso: um chamado ao equilíbrio na Rota Ecológica. “A Rota Ecológica, mas que serve também para Japaratinga e Maragogi, tornou-se um dos destinos mais desejados do Brasil. Suas praias intocadas, sua cultura simples e seu povo acolhedor projetaram o litoral norte de Alagoas para o mapa do turismo mundial. Com esse reconhecimento, surgiram também grandes empreendimentos imobiliários, trazendo novos investimentos, empregos e oportunidades. No entanto, junto ao progresso, nasce um desafio: como conciliar o crescimento econômico com a preservação da identidade local e a permanência das famílias que há gerações chamam essa terra de lar?”.
Assim, a gentrificação, processo em que moradores tradicionais são gradualmente substituídos por novos habitantes de maior poder aquisitivo, já se faz presente. Pequenos pescadores, agricultores e famílias simples começam a sentir o peso da valorização imobiliária e do aumento do custo de vida. Em muitos casos, o acesso às praias, às tradições e até ao convívio comunitário sofre mudanças, criando um risco de descaracterização cultural.
Para Kenny Wilson, não se trata de negar o desenvolvimento, mas de buscar um modelo sustentável, justo e equilibrado. “O turismo imobiliário, conceito que venho defendendo como Delegado do Creci na Região Norte, pode e deve caminhar em harmonia com a comunidade local. É possível investir sem excluir, valorizar sem apagar, modernizar sem destruir”.
Para isso, é fundamental adotar práticas que respeitem a cultura e os moradores locais, garantindo que eles também se beneficiem desse movimento de crescimento. Parcerias com cooperativas locais, incentivo ao artesanato, à gastronomia regional e à pesca tradicional, além da valorização do trabalhador local no mercado formal, são caminhos viáveis e necessários. É que a verdadeira riqueza da Rota Ecológica não está apenas em seus cenários paradisíacos, mas na alma de seu povo e na força de suas tradições. Preservar esse patrimônio humano é tão importante quanto erguer hotéis ou condomínios de luxo.
Mas é em São Miguel dos Milagres, que retrata o que faz um processo de gentrificação: fecha acessos às belezas naturais que antes eram parte da vida comum e paulatinamente, apaga as memórias culturais e práticas de vida da comunidade nativa, que vai sendo colocada à margem, enquanto pessoas de classe média alta e ricas, ganham a centralidade da vida no lugar, encarecendo custos, precarizando relações de trabalho e dominando com imposições de privilégios todo o território político/econômico/cultural.
No caso de São Miguel dos Milagres, a indústria do turismo resolveu afastar até o nome do santo protetor, para ressaltar o milagre econômico que encareceu cada torrão na beirada daqueles mares. Obviamente, atraindo investidores, que compraram terrenos baratos para superfaturar, e afastar locais sem poder de compra, do próprio lugar. O que antes era uma pacata vila de pescadores hoje os impede de viver à beira-mar para comportar demandas turísticas. E o pior: documentos oficiais já começam a identificar o município como Milagres, mesmo sem acontecer referendo para substituição do nome.
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