Ciência e Tecnologia

O mar pode avançar mais rápido do que se imaginava nos próximos anos

Elevação pode deixar até 132 milhões de pessoas abaixo da linha d’água

27/04/2026 08h39 - Atualizado em 27/04/2026 09h31
O mar pode avançar mais rápido do que se imaginava nos próximos anos
Animação da realidade - Foto: Divulgação

Uma elevação de 1 metro no nível do mar, impulsionada pelas mudanças climáticas, pode colocar até 132 milhões de pessoas em risco de inundações costeiras. Estudos recentes indicam que análises anteriores subestimaram o risco, e essa subida pode submergir cerca de 37% a mais de áreas costeiras do que se pensava, afetando populações mais cedo.

O engenheiro Marco Lyra, um dos maiores especialistas do Brasil em proteção costeira e recuperação de praias, CEO da Ocean Protections, de posse de um novo estudo publicado na Nature, que é a principal revista científica multidisciplinar do mundo, fundada em 1869, e publicada semanalmente e reconhecida pelo seu rigoroso processo de revisão por pares, além de fórum global para descobertas que transformam o conhecimento em áreas como biologia, física, química e ciências da Terra, reitera o alerta.

O estudo realizado por Katharina Seeger e Philip S. J. Minderhoud,em março de 2026, acendeu um alerta que pode mudar de forma relevante a maneira como o mundo calcula o risco de avanço do mar sobre áreas costeiras. Ao revisar 385 estudos científicos revisados por pares, publicados entre 2009 e 2025, os pesquisadores concluíram que mais de 99% das avaliações analisadas trataram de forma inadequada a relação entre nível do mar e elevação do terreno, o que pode ter distorcido para baixo a exposição real de terras e populações costeiras.

O trabalho, segundo Marco Lyra, conduzido por uma equipe ligada à Wageningen University & Research, à University of Cologne, à University of Padova e à Deltares, mostrou que o problema não estava necessariamente nos modelos digitais de elevação em si, mas na forma como esses dados eram comparados com referências oceânicas inadequadas. Em grande parte da literatura revisada, os estudos assumiram níveis costeiros baseados em geoides em vez de usar medições reais do mar, ignorando que o nível oceânico na costa varia conforme marés, correntes, ventos e outras condições locais.

``Esse desajuste técnico, embora pareça sutil, pode alterar fortemente a estimativa global de risco. Segundo a própria Nature, o nível costeiro medido é, em média, 0,24 m a 0,27 m mais alto do que o assumido em muitos estudos, e em partes do Sul Global essa diferença pode superar 1 metro. Com a correção, uma elevação relativa hipotética de 1 metro no nível do mar faria com que 31% a 37% mais terra e 77 milhões a 132 milhões de pessoas adicionais passassem a ser consideradas abaixo do nível do mar´´, afirma o especialista.

O impacto dessa revisão é especialmente relevante em regiões onde grandes populações vivem próximas ao nível do mar. Áreas como o Sudeste Asiático, o delta do Ganges, partes da China costeira e regiões urbanas de países em desenvolvimento apresentam alta densidade populacional em zonas de baixa altitude. Nesses locais, pequenas diferenças na medição de elevação podem significar a inclusão ou exclusão de milhões de pessoas em zonas de risco. A correção proposta pelo estudo indica que muitas dessas regiões podem estar mais expostas do que os planejadores urbanos e governos vinham considerando.

Para Marco Lyra, e segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o nível médio do mar já subiu cerca de 20 centímetros desde o início do século XX, e a taxa de elevação tem acelerado nas últimas décadas. ``Essa preocupação é global, e todos os países devem se preparar. O Brasil, com uma costa de quase 8 mil km precisa criar urgente planos de contenção. Mas serão os municípios quem irão sofrer com o passar dos anos. Afinal, a costa brasileira abriga 279 municípios litorâneos. Só no Nordeste são 156 municípios, ou 55,91% do total. Quantos já sofrem comm o avanço do mar e perda de territórios? Quantos possuem planos para salvar as praias e a economia do mar. A natureza emite alertas todos os dias. Cabe aos especialistas o alerta, e aos governos a tomada de decisão´´, alerta o engenheiro.