Ciência e Tecnologia

Engordas artificiais de praias estão fazendo desaparecer areia do litoral

As mais recentes engordas de praia realizadas nas praias receberam quase meio bilhão de reais nos últimos 5 anos

Por Claudio Bulgarelli 09/01/2026 23h20
Engordas artificiais de praias estão fazendo desaparecer areia do litoral
Trecho recuperado na Barra Nova - Foto: Reprodução

No final de 2021, a megaobra de alargamento da Praia Central, em Balneário Camboriú (SC), ficou pronta. Com este projeto, esperava-se que a faixa de areia teria de 70 a 100 metros de largura. Outras obras também foram realizadas em Matinhos/PR, Ponta Negra/RN e Balneário Piçarras, em Santa Catarina.
No entanto, este tipo de obra não é novidade no Brasil. O processo, que tem o nome de engorda ou alargamento da faixa de areia, já foi feito em Recife e em Fortaleza. Mas por que se tem optado por esta técnica? O que acontece é que as praias sofrem erosão com o passar do tempo e, para contê-la, é utilizada esta técnica, que consiste na colocação artificial de areia preferencialmente de mesmo tamanho, densidade e granulometria do material original da praia.

“O principal objetivo da obra é preservar, alargar ou formar praias e dunas, compensando a erosão verificada, aumentando a largura da praia. Não existe solução única para contenção de erosão costeira. Indicar o alargamento de faixa de areia para qualquer praia é uma opção de difícil eficácia. É preciso buscar maior eficiência nas obras de proteção costeira, procurando encontrar nas soluções de engenharia a recuperação da praia natural recreativa. As cidades litorâneas precisam de adaptação para enfrentar as marés atuais e futuras, frente as mudanças climáticas”. A avaliação é do engenheiro Marco Lyra, CEO da Ocean Protections, e o maior especialista em proteção costeira do Nordeste.
Então quando vale a pena fazer a engorda costeira? Teoricamente toda praia com processo erosivo poderia utilizar o alargamento da faixa de areia. Entretanto, para saber se realmente vale a pena fazer este tipo de obra, é preciso que em todo projeto de engenharia para proteção costeira, se observe cinco itens: custo de implantação; custo de manutenção; disponibilidade do material; impacto ambiental e durabilidade.
O engenheiro afirma que “Para avaliar o custo-benefício da obra da engorda artificial de praia, é preciso manter a vigilância no acompanhamento do pós-obra. Existem dois tipos básicos de acompanhamento: o primeiro tipo é para conformidade da construção do projeto e para avaliação do desempenho do projeto. Geralmente feitos durante a execução da obra e durante os cinco primeiros anos após a sua implantação. O segundo tipo é muitas vezes negligenciado. É preciso especificar claramente a necessidade de um plano de monitoramento e um plano de operação e manutenção”.
Na equação custo-benefício da obra da engorda artificial, deve-se observar se o investimento é economicamente viável, já que muitas vezes o alto custo da obra, as dificuldades de atendimento aos parâmetros de projeto e as incertezas quanto à durabilidade da intervenção, são fatores limitantes para sua utilização.
Uma das polêmicas ligadas à engorda das praias é a questão ambiental. É preciso fazer um EIA/RIMA bem fundamentado, o que é algo dispendioso e complexo. “É importante realizar um diagnóstico dos impactos ambientais, não só pela diversidade de parâmetros envolvidos que deve considerar as zonas de empréstimo, os níveis energéticos, as características e o controle das areias a depositar na praia, que compreende os ciclos de enchimento e emagrecimento, mas acima de tudo devido ao alto grau de incerteza quanto à durabilidade da intervenção”, avalia Marco Lyra.
Segundo ele, é preciso realizar estudos de modelo matemático e modelo reduzido, para avaliar as condicionantes da praia, garantindo o êxito da engorda artificial. “Em praias muito energéticas, há o risco da areia ser retirada pelo mar num período inferior a cinco anos, sendo necessário repor os sedimentos na praia, onerando ainda mais o investimento”.
Os resultados iniciais das obras citadas, divulgados pela mídia — inclusive recentemente em Matinhos/PR — indicam que, até o momento, essas intervenções apresentaram perda significativa de areia em curto período, ou seja, inferior a cinco anos. Tal comportamento evidencia a necessidade de aumentar a capacidade de retenção de sedimentos (areia) nos trechos afetados. Para tanto, torna-se indispensável a implantação de estruturas dissipativas complementares, a fim de mitigar os processos erosivos e garantir maior eficiência às soluções adotadas.
O litoral alagoano, especialmente áreas urbanizadas, sofre com a erosão marinha, que reduz a faixa de areia, impactando o turismo e a infraestrutura. E com o aumento do nível do mar e eventos climáticos extremos agravam o problema.
As principais áreas afetadas estão em Maceió: Ponta Verde (com obras de recuperação de longa duração), Jatiúca, Sobral, Garça Torta, Riacho Doce e Ipioca. No Litoral Sul: Piaçabuçu (Pontal do Peba), Coruripe (Pontal), Barra de São Miguel (Barra Mar, Conchas) e Marechal Deodoro (Saco, Barra Nova). E no Litoral Norte: Passo de Camaragibe (Marceneiro), Porto de Pedras (Patacho), Japaratinga (Barreiras de Boqueirão) e Maragogi (Barra Grande, Burgalhau).
A engorda artificial é a adição de areia por dragagem (retirada do fundo do mar) para alargar a praia. Já a engorda natural, ou sistemas de contenção, é o uso de estruturas (como o dissipador de energia em Ponta Verde) para estabilizar a areia e criar uma faixa de praia mais larga e duradoura, restaurando a paisagem e o lazer.
E em Alagoas existem vários exemplos de sucesso usando o dissipador de energia, instalado pela Ocean Protections. A obra em frente do Lopana, na Ponta Verde, na praia de Costa Brava, em Paripueira, em Japaratinga e na Barra Nova, em Marechal Deodoro. Detalhe: sem custos de manutenção, restaurando significativamente a faixa de areia e proporcionando um espaço amplo para a população.