Cidades
Flagrante de degradação ambiental em obra de futuro residencial na Serraria
Foi abaixo um dos últimos mananciais de Mata Atlântica no bairro; morador analisa descaso com natureza na região
Reportagens desta semana publicadas em sites locais e nacionais mostram dois tratamentos díspares com o meio ambiente. Enquanto na capital pernambucana, o Recife, autoridades, moradores e ONGs vibram com o reconhecimento mundial como a capital dos baobás fora do continente africano, abrigando dezenas de exemplares imponentes que marcam a paisagem urbana da capital pernambucana com árvores milenares de troncos largos e características únicas, capazes de armazenar grandes volumes de água e a adaptação da espécie ao clima quente e úmido da região, em Maceió, no bairro da Serraria, o cenário é devastador.
Enquanto no Recife 14 desses gigantes vegetais são oficialmente tombados como patrimônio histórico e ambiental pelo poder público da cidade, como passeios guiados que celebram a importância ecológica e simbólica dos baobás no cotidiano recifense -, moradores da Serraria, na capital alagoana, assistem incrédulos à derrubada de um dos últimos refúgios de mata atlântica no ainda aprazível bairro.
No flagrante do repórter fotográfico Edilson Omena nas fotos desta matéria, estão os registros de uma cena triste de como é tratado o meio ambiente na capital alagoana, diferentemente da vizinha Recife.
O que se viu e ouviu nos últimos dias na Serraria foi o ronco implacável das motosserras avançando célere sobre uma área de 30 mil metros quadrados — equivalente a 3 hectares —, que resistia como um pulmão verde e abrigo para a biodiversidade, em plena área urbana do bairro. O terreno, com 230 metros de frente, 280 metros de lateral e 30 metros de fundo, está localizado logo atrás onde atualmente funciona o supermercado Atacarejo, no bairro.
Com biodiversidade rara dentro de uma área urbana, o motivo para o desmatamento é a construção iminente de um condomínio residencial onde serão erguidos quatro prédios.
A Tribuna flagrou a derrubada da expressiva cobertura vegetal, que abriga espécies maduras e centenárias de árvores como jaqueiras, mangueiras, pinheiros, palmeiras, diversas fruteiras e uma diversidade de plantas medicinais.
Severino Carvalho, jornalista, vencedor de diversos prêmios ambientais e morador da Serraria desde 2018, faz uma análise do quadro dantesco que viu no episódio de devastação deste manancial.
“Não somos contrários ao desenvolvimento urbano nem à atividade imobiliária. O que questionamos é a escolha de uma área com expressiva cobertura vegetal, em uma região cada vez mais ocupada por edifícios, estabelecimentos comerciais e extensas superfícies impermeabilizadas. Em meio ao avanço do concreto, os espaços verdes remanescentes tornam-se ainda mais valiosos. A supressão de árvores para a construção de mais um empreendimento de grande porte preocupa quem vive no bairro e acompanha a transformação de sua paisagem”, avalia o jornalista.
Para ele, os fragmentos de vegetação da Serraria, do Ouro Preto e de bairros vizinhos constituem importantes refúgios para a fauna urbana, especialmente para as aves, que encontram nesses ambientes locais de alimentação, abrigo e reprodução. Muitas dessas espécies também desempenham funções ecológicas essenciais, como a dispersão de sementes, contribuindo para a regeneração da vegetação e a manutenção da biodiversidade. “Em tempos de calor intenso e temperaturas cada vez mais preocupantes, preservar essas áreas é também uma questão de saúde e qualidade de vida. A cobertura arbórea ajuda a amenizar as temperaturas locais por meio do sombreamento e da evapotranspiração, reduzindo os efeitos das ilhas de calor que se formam nas cidades”, argumenta Carvalho.
De acordo com o morador e jornalista, há ainda uma dimensão hídrica frequentemente ignorada. Em condições adequadas de solo e relevo, áreas vegetadas favorecem a infiltração da água da chuva, diminuem o escoamento superficial e podem contribuir para a recarga dos aquíferos subterrâneos. A vegetação também protege o solo contra a erosão e, quando associada a nascentes e cursos d’água, desempenha papel importante na conservação desses ambientes.
“Ausência de diálogo com comunidade preocupa”, diz morador do bairro
Outro aspecto merece atenção: a conectividade ecológica entre os remanescentes de vegetação da região e áreas florestadas próximas, como o Parque do Horto, localizado na Gruta de Lourdes. Vinculado ao Ibama, o espaço abriga aproximadamente 55 hectares de Mata Atlântica e representa um importante patrimônio ambiental de Maceió.
Mesmo separados por ruas, avenidas e construções, esses fragmentos podem manter conexões ecológicas por meio do deslocamento de aves e outros animais. Ao circular entre diferentes áreas verdes, algumas espécies transportam sementes e contribuem para a regeneração vegetal. A redução desses espaços pode comprometer essa dinâmica e ampliar o isolamento dos habitats”, diz o jornalista. “
“Por aqui, ainda temos o privilégio de observar revoadas de maritacas e ouvir o canto de aves como o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris), o sanhaço-cinzento (Thraupis sayaca) e o sanhaço-do-coqueiro (Thraupis palmarum). São manifestações da biodiversidade que resiste à urbanização e que fazem parte da identidade ambiental e afetiva do bairro. Até quando poderemos desfrutar dessa convivência? Não sabemos”, reflete Carvalho.
“A preocupação se agrava diante da ausência de diálogo com a comunidade. Até o momento, nós, moradores, não fomos chamados pelos órgãos responsáveis para conhecer e discutir os impactos ambientais da obra, os estudos que fundamentaram sua autorização e as medidas previstas para prevenir, mitigar ou compensar os danos decorrentes da supressão vegetal. Enquanto essas perguntas permanecem sem respostas, as árvores continuam sendo derrubadas. Um grande clarão já se abre no terreno, alterando uma paisagem que, até pouco tempo, era marcada pelo verde”, finaliza Carvalho.

OMISSÃO
Desapropriação poderia ter
evitado destruição da mata
Na primeira reportagem da Tribuna sobre o assunto, o urbanista Dilson Ferreira, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), alertava sobre a iminente transformação da área acende o alerta sobre o equilíbrio ecológico e os impactos urbanísticos na região da Serraria. Segundo o urbanista, a intervenção em um ecossistema com árvores de grande porte e potencial presença de espécies da Mata Atlântica exige rigor técnico e cumprimento estrito da legislação ambiental.
“A decisão de desmatar não cabe à construtora nem à prefeitura de forma arbitrária; ela depende exclusivamente de estudos técnicos de impacto ambiental elaborados por biólogos e botânicos”, destacou, na ocasião. Ele também defendeu que a área deveria ser transformada em parque e ser desapropriada.
De acordo com Ferreira, o diagnóstico precisa avaliar a presença de fauna terrestre e avifauna — como espécimes de cassacos, répteis e ninhos de aves —, além de mapear espécimes arbóreos protegidos por lei, a exemplo do Pau-Brasil e do Ipê.
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