Cidades

OAB Alagoas vai apoiar ação contra mudança da Avenida Fernandes Lima

Decisão foi tomada em sessão da Ordem, que irá atuar como parte na ação que pede mudança no nome da Fernandes Lima

Por Ricardo Rodrigues / Tribuna Independente 30/05/2026 08h12 - Atualizado em 30/05/2026 08h44
OAB Alagoas vai apoiar ação contra mudança da Avenida Fernandes Lima
Relatório do conselheiro Alberto Jorge, que defendeu alteração no nome da avenida, foi aprovado por unanimidade no Conselho da OAB/AL - Foto: Sandro Lima

A Ordem dos Advogados do Brasil em Alagoas (OAB/AL) vai atuar como parte nas ações judiciais que pedem a mudança do nome da Avenida Fernandes Lima e reparação histórica às religiões de matriz africana, massacradas no episódio conhecido como ‘Quebra de Xangô’.

A decisão foi tomada na sexta-feira (29), durante sessão do Conselho Pleno da OAB/AL, que agora está autorizada oficialmente para atuar nos processos que defendem a causa e tramitam na Justiça, impetrados pela Defensoria Pública do Estado (DPE).

Segundo o defensor público estadual Othoniel Pinheiro, que participou da sessão, a decisão dos advogados de Alagoas representa uma vitória de todos que defendem o resgate da verdade, da memória e da justiça social.

“Estou muito feliz com esse ingresso da OAB na ação civil pública que pede não só a retirada do nome de Fernandes Lima da avenida, como também na construção de elementos reparatórios para o movimento negro e as entidades religiosas de matriz africana”, afirmou Pinheiro.

Ele explicou que uma das ações é para retirar o nome do ex-governador Fernandes Lima da principal avenida da capital alagoana e a outra ação é para tirar o nome dele de todos os logradouros públicos do Estado. “Nessa segunda ação contra o Estado de Alagoas, a Defensoria está pedido uma reparação por danos morais coletivos no valor de R$ 900 milhões”, revelou o defensor.

Diversidade

Segundo ele, esse dinheiro será depositado em um fundo a ser criado, com o objetivo de bancar a defesa da diversidade religiosa e da igualdade racial, além de patrocinar o movimento negro, em suas ações culturais e sociais. Além de exigir que o Estado de Alagoas insira o ‘Quebra de Xangô’ no seu sistema educacional e faça propaganda sobre esse episódio de 1912, quando vários terreiros de umbanda e candomblé foram destruídos.

“Essa campanha que estamos cobrando na ação contra o Estado tem esse objetivo de combater o racismo estrutural, fazendo com que as pessoas tomem conhecimento não só do que foi o episódio da Quebra de Xangô, mas suas consequências maléficas como o Xangô cantado baixo”, explicou o defensor Othoniel Pinheiro, reiterando que isso precisa ser divulgado já que poucas pessoas sabem o que significa Xangô rezado baixo, que é o silenciamento das manifestações religiosas de matriz africana.

Para o defensor, as pessoas que dizem que a mudança no nome da Avenida Fernandes Lima “é bobagem” ou “algo sem importância”, dizem isso porque desconhecem a história, não sabem o que as lideranças sofreram na perseguição implacável aos terreiros, com seus tambores e rituais. “Isso é fruto de uma sociedade excludente, da ignorância com relação a esses fatos históricos e do racismo estrutural”, destacou. “Para as pessoas que sofreram essa perseguição implacável, para os seguidores de Tia Marcelina, a mãe de santo assassinada no Quebra de Xangó, essa é uma questão de honra, um resgate histórico, e não uma simples troca de nome de rua”, completou o defensor.

Partes também vão pedir reparação de R$ 900 milhões por danos morais

Othoniel Pinheiro disse ainda que o relatório do conselheiro Alberto Jorge, o Betinho, que defendeu a mudança no nome da Avenida Fernandes Lima e reparação histórica às religiões de matriz africana, foi aprovado por unanimidade.

Durante a sessão, presidida pelo presidente da Ordem em Alagoas, Vagner Paes, os conselheiros e demais advogados presentes aplaudiram de pé o relato do doutor Betinho, que ficou emocionado com a reação dos colegas.

Conselheiro Alberto Jorge (à esquerda) (Foto: Assessoria)

Com o relatório aprovado, a OAB vai entrar nas ações por reparação histórica e para anular o nome de Fernandes Lima da avenida, mas a escolha do nome substituto será uma decisão política e como tal caberá à Assembleia Legislativa do Estado. “Essa mudança de nome ficará a cargo do Poder Legislativo justamente para evitar o ativismo judicial e para permitir que o nome de Tia Marcelina seja trabalhado pelas entidades, antes de ser referendado politicamente”, concluiu o defensor.

O presidente da Ordem, Vagner Paes, encerrou a sessão dizendo que estava extremamente sensibilizado com a apresentação do relato feito pelo advogado Betinho.

“Uma verdadeira aula sobre o passado histórico, trazendo luzes a quem não vive na pele essas marcas indeléveis do racismo, da intolerância religiosa, dessas chagas estruturais que tanto contaminam ainda as gerações presentes”, afirmou Paes, parabenizando Betinho e dizendo que ele representa essa causa, essa luta que não é de hoje. “Você foi o primeiro presidente de Comissão de Defesa das Minorias da Ordem no Brasil, na gestão do então presidente da OAB Alagoas, Humberto Martins”, afirmou, referindo-se ao relator dessa causa histórica.

Antes de deixar a sede da OAB, no bairro de Jacarecica, Betinho concedeu entrevista à imprensa e disse que estava feliz por ter cumprido com sua missão. Ele também destacou a atuação da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB Alagoas na defesa da causa. Questionado sobre a aprovação do seu relatório, ele disse que foi uma vitória de todos, uma vitória da Justiça.

“Para mim, foi uma vitória de Xangô e Xangó é da Justiça”, afirmou Betinho, o relator do processo que colocou a OAB/AL na condição de ‘amicus curiae’ (Amigo da Corte) nas ações que buscam a devida reparação histórica em relação à Avenida Fernandes Lima, figura central como algoz no episódio do Quebra de Xangô em 1912