Cidades

Tiradentes é ignorado até na rua em sua homenagem

Na rua que leva nome do líder da Inconfidência Mineira, poucos sabem de sua importância, até estudante do Colégio Tiradentes

Por Valdete Calheiros / Tribuna Independente 18/04/2026 08h49 - Atualizado em 18/04/2026 09h34
Tiradentes é ignorado até na rua em sua homenagem
À esquerda Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes; Hilda Carla Rocha pesquisou quando criança para saber quem era Tiradentes - Foto: Fotos: Divulgação e Adailson Calheiros

Alagoas – e o Brasil – ganharão mais um feriado prolongado na semana que vem em alusão à Tiradentes, celebrado na próxima terça-feira, dia 21, véspera do aniversário de 526° do Descobrimento do Brasil. Na capital Maceió, conforme a base de dados da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, existe apenas uma rua cujo nome é Tiradentes.

A Rua Tiradentes cruza os bairros do Prado e da Ponta Grossa e pode ser localizada através dos CEPs 57010-258, no Prado, e 57014-004, na Ponta Grossa. A única placa que identifica a via, por sinal, muito extensa, está extremamente danificada. Mal se consegue ler o nome Tiradentes. Ferrugem e falta de pintura comprometem a visualização.

A reportagem do jornal Tribuna Independente esteve no logradouro para conversar com os moradores para saber o que eles conhecem da história de Tiradentes, cujo nome de batismo é Joaquim José da Silva Xavier.

Depois de percorrermos várias casas e pontos comerciais, apenas duas pessoas sabiam, por alto, quem foi Tiradentes. A autônoma Hilda Carla Rocha, 31 anos, contou que, quando menina, teve a curiosidade de saber quem era Tiradentes, perguntou ao seu pai, que também desconhecia. Por conta própria pesquisou e tem uma pequena referência que ele ajudou o Brasil e deixar de depender de Portugal.

Um dos moradores da Tiradentes, Rubens Cavalcante, respondeu que José Joaquim da Silva Xavier era patrono da Polícia Militar. “Não lembro de muita coisa, mas me recordo desse ensinamento. E nunca tive a curiosidade de saber o porquê da rua em que moro ser chamada de Tiradentes, embora viva aqui há 22 anos”, frisou.

Um grupo de três adolescentes, uma delas se apresentou como aluna do Colégio da Polícia Militar Tiradentes disse desconhecer totalmente quem foi Tiradentes e qual sua importância para a história do Brasil. Segundo ela, nada disso é ensinado em sala de aula. A pedido, do grupo, não vamos identificá-los através dos nomes e sobrenomes. Eles reconheceram que deveriam pesquisar pelo menos por conta própria sobre os nomes importantes da história do país.

Historiador desconhece reflexos da Inconfidência Mineira em Alagoas

O historiador Alex Rolim Machado afirmou desconhecer, em suas pesquisas em arquivos nacionais e internacionais, os impactos da Inconfidência Mineira na Comarca das Alagoas.

“Até o atual estágio das pesquisas, não temos conhecimento de adesão, repúdio ou noticiamentos dos acontecimentos de Minas Gerais por essas bandas. Isso não significa que devemos aceitar esse silêncio. Na verdade, temos que observar essa problemática por outros questionamentos. Ao invés de procurarmos os efeitos imediatos da inconfidência em Alagoas, podemos, por exemplo, pesquisar os ecos dos valores dos inconfidentes por aqui, como os ideais do Iluminismo, as críticas aos monopólios da coroa, as insatisfações com as políticas reinóis”, destacou.

Por fim, acrescentou o historiador, a partir desse questionamento, abre-se uma seara para futuros pesquisadores de Alagoas. “A provocação está feita, agora é esperar”, concluiu.

Inconfidência

Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), ou Tiradentes, foi um dos participantes da Inconfidência Mineira, movimento cujo objetivo era proclamar a capitania de Minas Gerais como uma República independente.

Sentenciado por traição, recebeu como pena a morte por enforcamento. Sua execução aconteceu no dia 21 de abril de 1792.

Durante sua vida, Tiradentes teve várias profissões. Entre elas foi tropeiro, comerciante, minerador e militar. Porém, o apelido surgiu quando começou a arrancar os dentes das pessoas, prática realizada por pessoas não especializadas na área da saúde antes do desenvolvimento da odontologia no Brasil.

Como, naquela época, a profissão de dentista se resumia em “tirar dentes”, acabou ganhando a alcunha de “Tiradentes”.

Tiradentes aderiu ao movimento quando era militar e tinha o posto de alferes. Por ser considerado um excelente comunicador, foi responsável por conquistar adeptos para a causa revolucionária.

O movimento da Inconfidência Mineira (ou Conjuração Mineira) foi articulado por contratadores que temiam a Derrama, prática de cobrança de suas dívidas pela Coroa portuguesa.

Tratava-se de um ato do governo português, onde todos que tinham débitos com a Coroa deviam acertar suas contas ou teriam seus bens confiscados.

Desta forma, os contratadores que tinham dívidas com Portugal se reuniram e buscaram uma solução para impedir esta ação.

Em 1789, entretanto, o movimento foi delatado por um dos seus membros, Joaquim Silvério dos Reis. Em troca, ele pediu o perdão de suas próprias dívidas e benefícios para sua família.

Somente Tirantes foi condenado à morte, pois dentre os conspiradores, era o que tinha a patente militar mais baixa. Tiradentes foi sentenciado por traição contra a rainha, condenado à forca e executado no dia 21 de abril de 1792, no campo da Lampadosa, no Rio de Janeiro.