Cidades

Mulheres em cargos de chefia ganham 23% menos que homens

Pesquisa nacional confirma que desigualdade de gênero ainda é realidade

Por Emanuelle Vanderlei com Tribuna Independente 04/11/2020 08h21
Mulheres em cargos de chefia ganham 23% menos que homens
Reprodução - Foto: Assessoria
Em pesquisa divulgada no início de outubro pela Catho, empresa de recrutamento online, foi constatado que mulheres em cargos de liderança ganham 23% a menos que homens na mesma função. A pesquisa foi feita com 10 mil pessoas e expõe um cenário de desigualdade em vários níveis hierárquicos, como supervisor, coordenador e analista. A diferença chama ainda mais atenção quando considerado o fator qualificação. Na mesma pesquisa foi levantado o grau de escolaridade. Mulheres pós-graduadas com nível especialização chegam a ter 47% a menos de salário em relação a homens. Em cargos de analista, a diferença salarial entre homens e mulheres chega a ser de 35%. No dia-a-dia, é difícil identificar onde é feita a distinção entre os gêneros. A profissional de Recursos Humanos Dayanne Lessa, experiente em recrutamento, afirma que nunca sentiu diferenciação por parte das empresas que estavam contratando. “Nas empresas que eu passei e que eu estou nunca teve essa questão de preferência. O que determinava quem seria o contratado era o que seria o perfil, cursos, perfil comportamental, perfil técnico, isso é que determinava quem seria escolhido, independente de homem ou mulher”, destaca a profissional. Dayanne relata que, em sua vivência, as empresas têm valores pré-estabelecidos por nível, e critérios transparentes do que deveria fazer para atingi-los. “Essa questão realmente a gente já tinha o valor certinho. Trabalho atualmente em todo o Brasil e nós pagamos as pessoas de acordo com o piso, muito com convenção coletiva”. Apesar disso, a profissional admite que já ouviu de outros colegas da área que no caso da mulher pode ser mais difícil, por fatores como filhos e tempo disponível. Ocupando cargo de chefia em uma empresa na área da saúde em Maceió, Patrícia Cavalcante afirma que seu salário é superior aos colegas na mesma posição e não percebe preconceito no exercício de sua função. “Não considero que trabalho mais que o homem, nem que recebo menos. Acho que é proporcional à minha carga horária. Nunca senti preconceito”. Satisfeita com a remuneração e a carga horária, ela relata que na prática faz um trabalho diferenciado e vai além do que é exercido pela maioria. Em seu relato, algumas coisas que outras empresas contratariam consultoria externa, são executadas por ela na empresa. “Infelizmente, elas precisam mostrar que são capazes sempre”   A diferença divulgada pela pesquisa da Catho nem sempre é facilmente identificada pelas trabalhadoras. Dentro da mesma empresa, na mesma função, seja no setor público ou privado, não é uma prática assumida oficialmente por muitas corporações. Algumas empresas encontram outras formas de diferenciar o tratamento. Uma engenheira de Maceió, que preferiu não se identificar, relata que na prática exerce a mesma função que o colega de trabalho, mas não é reconhecida e no contracheque tem uma função inferior. “Recebo e-mails dizendo que o meu trabalho é excelente e no mesmo e-mail a cobrança para o colega”. Ao questionar a empresa, não conseguiu diálogo. “Já falei que queria igualdade e o que escutei foi que eu era assistente do cara (que na época que falei) estava me assistindo”. Ao ver o colega sair da empresa, esperou ser oficializada na função que já exercia, mas se decepcionou. “Pra piorar ele pediu para sair e não me ‘promoveram’. Trouxeram outro homem para o lugar. Ficou claro que era por eu ser mulher, não existe outro motivo”. Historiadora e representante do movimento feminista Marcha Mundial das Mulheres, Sandra Sena explica que ainda há dificuldades para a mulher se estabelecer no mercado de trabalho. “Infelizmente, as mulheres precisam mostrar que são capazes todos os instantes. Sempre que uma mulher assume um comando nos locais de trabalho, as chefias das empresas (em sua maioria masculina) colocam em dúvida sua competência”. A sociedade brasileira ainda mantém a estrutura excludente, na visão de Sena. “Isso acontece em todos os âmbitos da vida social. No mundo do trabalho, na vida pública e privada, na política etc. E se a mulher for uma mulher negra, muitas vezes ela não tem nem as chances de tentar. As mulheres negras sempre foram trabalhadoras. Mas na maioria das vezes ocupam os piores postos de trabalho”. Reforçando a questão de raça, ela fala sobre os padrões impostos. “O machismo e o racismo caminham lado a lado a favor da permanência de poder, que é majoritariamente ocupado por homens, brancos e heterossexuais. Não que eles sejam melhores ou mais preparados, mas por possuírem um padrão exigido, que por sua vez é extremamente excludente”. Sobre o recorte da qualificação, ela aponta a falta de oportunidades como fator decisivo para que as mulheres se submetam a condições desiguais. “Hoje não há desculpas, porque a qualificação existe, da mesma forma que também existem portas fechadas. A criação de uma política para as empresas terem cotas de contratação talvez fosse algo que desse início nessa transformação”.