Choques elétricos matam profissionais de diversas áreas em Alagoas

Registros da Abracopel mostram 16 mortes em obras, áreas rurais, residências e durante o uso de equipamentos elétricos em 2025

Por Lucas França | Redação Tribuna Hoje

Dezesseis pessoas morreram em Alagoas após sofrerem choques elétricos entre janeiro e novembro de 2025. Os dados são da Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel) e reúnem ocorrências registradas em diferentes regiões do estado.

Os casos chamam atenção pela variedade de situações. As vítimas não eram apenas profissionais que trabalhavam diretamente com eletricidade. Pedreiros, agricultores, estudantes, operários, comerciantes e pessoas com ocupação não informada aparecem na relação.

No levantamento nacional mais recente da Abracopel, com dados de 2024, foram contabilizados 1.077 acidentes provocados por choque elétrico no Brasil, com 759 mortes. Entre as vítimas estavam 42 eletricistas, técnicos e eletrotécnicos, 44 trabalhadores da construção civil e manutenção e 28 trabalhadores rurais.

A entidade explica que os números são compilados a partir de ocorrências identificadas e noticiadas e, por isso, podem não representar todos os acidentes ocorridos no país.

Maceió teve cinco ocorrências

A capital concentrou o maior número de registros em Alagoas. Foram cinco mortes ao longo de 2025. O primeiro caso ocorreu em 29 de janeiro, quando um homem morreu após entrar em contato com uma grade energizada. No dia seguinte, outra vítima veio a óbito em um acidente relacionado a uma gambiarra ou ligação clandestina.

Em 12 de fevereiro, um pedreiro morreu após sofrer uma descarga elétrica em uma rede aérea de distribuição enquanto manuseava ferragens durante uma obra.

Casos de mortes por choques elétricos aumentam no país, em Alagoas diversos profissionais são atingidos (Foto: Reprodução)



Já em julho, dois novos casos foram registrados na capital. No dia 2, um operário entre 31 a 40 anos, morreu após contato com uma grade energizada. No dia 26, um homem da mesma faixa etária morreu em uma ocorrência envolvendo uma rede aérea durante uma situação relacionada ao furto de cabos.

Os demais registros estão espalhados por municípios do interior. Em Viçosa, no dia 13 de janeiro, um homem morreu após um acidente envolvendo eletrodoméstico ou equipamento eletrônico durante contato ou manutenção.

Em Lagoa da Canoa, um agricultor ou trabalhador rural morreu em 18 de fevereiro após um acidente com uma bomba d’água em uma propriedade rural.

Em Branquinha, no dia 7 de março, um aposentado com mais de 60 anos morreu após entrar em contato com uma cerca energizada em uma área rural.

Já Batalha registrou uma morte em 12 de abril. A vítima era um pedreiro ou ajudante, entre 31 a 40 anos, e sofreu o choque durante uma atividade na construção civil. O registro relaciona um bebedouro ao acidente.

Em Arapiraca, um estudante entre 11 a 15 anos morreu em 20 de abril após sofrer choque provocado por um carregador de celular. No município de Pão de Açúcar, um comerciante ou vendedor, morreu em 20 de junho depois de entrar em contato com um fio rompido ou sem isolamento dentro de uma residência na zona rural.

No 2 de julho, uma criança entre 6 a 10 anos morreu em Messias, em um acidente envolvendo extensão, tomadas, benjamins ou dispositivos semelhantes. No dia 7 de agosto, Dois Riachos registrou a morte de um homem entre 51 e 60 anos após um acidente envolvendo cortador de grama ou equipamento de lavagem de alta pressão.

Na cidade de São José da Tapera, no dia 11 de setembro, um pedreiro ou ajudante, de 31 a 40 anos, morreu após entrar em contato com uma grade energizada durante uma atividade na construção civil. Em Água Branca, um agricultor ou trabalhador rural, morreu em 17 de setembro após sofrer choque provocado por uma máquina com fuga de corrente.

O último registro da relação da Abracopel ocorreu em Girau do Ponciano, em 14 de novembro. Um homem de 41 a 50 anos morreu após um acidente envolvendo uma máquina com fuga de corrente em uma rede aérea de distribuição.


“É preciso usar os equipamentos de proteção, conhecer os riscos e ter capacitação adequada”, afirma João Macário Netto, engenheiro eletricista e presidente da Abracopel em Alagoas

Imagem ilustrativa

Construção civil e trabalho rural entre os mais atingidos

Entre as profissões identificadas, trabalhadores da construção civil e do campo aparecem com frequência nos registros. Em obras, os acidentes envolveram situações como contato com redes aéreas, grades energizadas e equipamentos. No campo, bombas d’água e máquinas com fuga de corrente aparecem entre os elementos relacionados às mortes.

A lista também inclui duas vítimas que eram estudantes. Em Arapiraca, o acidente envolveu um carregador de celular. Em Messias, a ocorrência foi relacionada a extensão, tomadas e dispositivos semelhantes.

Embora eletricistas estejam entre as vítimas mais frequentes nos números nacionais, nenhum dos 16 registros de Alagoas analisados pela Abracopel identifica a vítima como eletricista ou técnico em eletricidade.

O dado, no entanto, não permite concluir que não houve mortes de profissionais dessa área no estado durante o ano. A relação analisada é um recorte das ocorrências registradas pela entidade.

BRASIL


No Brasil, em 2024, a Abracopel contabilizou 42 mortes de eletricistas, técnicos e eletrotécnicos. O número ficou próximo ao registrado entre trabalhadores da construção civil e manutenção, que somaram 44 mortes.

Tabela de mortes por choque elétrico (Foto: Abracopel)



O Portal Tribuna Hoje procurou a Equatorial Alagoas para saber se houve mortes de eletricistas no estado em 2025 e no primeiro semestre de 2026. A empresa, porém, não informou números ou registros de óbitos e se limitou a apresentar as medidas de segurança adotadas.

Em nota, a distribuidora afirmou que equipes próprias e terceirizadas passam por treinamentos e capacitações, além de análises de risco antes dos serviços. A empresa também citou o uso obrigatório de equipamentos de proteção individual (EPIs) e coletiva (EPCs).

Equatorial Alagoas informou que funcionários atuam com equipamentos de segurança (Foto: Assessoria)



A Equatorial destacou ainda a Política da Lei da Vida, voltada à segurança dos colaboradores, e informou ter recebido, neste mês de agosto, Menção Honrosa no Prêmio Abradee 2026 por ações de saúde e segurança. A empresa também possui certificação ISO 45001.

Apesar dos esclarecimentos sobre prevenção, a empresa não respondeu se houve mortes de eletricistas em Alagoas nos períodos questionados pela reportagem.

Veja comunicado na íntegra:

Nota de esclarecimento:

''A Equatorial Alagoas informa que segue protocolos rigorosos de segurança e de forma permanente, equipes próprias e contratadas são submetidas a treinamentos, capacitações e orientações específicas, além de realizarem análises de risco antes da execução dos serviços, acompanhamento minucioso das atividades em campo e uso obrigatório dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e Coletivos (EPCs), adequados a cada atividade desenvolvida.

Vale destacar que os protocolos de segurança contemplam todos os colaboradores, incluindo aqueles que exercem funções administrativas. Nesse sentido, a empresa adota a Política da Lei da Vida que estabelece normas, regras e padrões comportamentais de segurança definidos pelo Grupo Equatorial, com o objetivo de preservar a vida humana, a saúde e a integridade dos colaboradores, com base nas normas de Segurança e Medicina do Trabalho.

Todo esse trabalho contínuo em prol da segurança também foi reconhecido recentemente, neste mês de agosto, no Prêmio Abradee 2026, no qual a Equatorial Alagoas recebeu Menção Honrosa por ações voltadas à saúde e segurança, reforçando o compromisso da Distribuidora com a preservação da vida. A empresa também é certificada pela ISO 45001, norma internacional para sistemas de gestão de saúde e segurança ocupacional.

A atuação preventiva da Equatorial Alagoas também se estende à população e aos profissionais que desenvolvem atividades próximas à rede elétrica. Com o Movimento VC +Seguro, a empresa realiza ações de conscientização e palestras voltadas a públicos como trabalhadores da construção civil, reforçando os cuidados necessários durante intervenções ou atividades realizadas nas proximidades da rede elétrica. Além de realizar palestras educativas em comunidades espalhadas por todo estado e escolas públicas ou privadas''.

Assessoria de Imprensa da Equatorial Alagoas

Casos registrados pela Abracopel em Alagoas

Os registros da Abracopel também ajudam a mostrar como os acidentes elétricos atingem trabalhadores de diferentes áreas e não ficam restritos aos profissionais que atuam diretamente com eletricidade. 

A relação de ocorrências de 2025 enviada pela entidade reúne 16 casos de choque elétrico em Alagoas, registrados entre janeiro e novembro, com vítimas de diferentes profissões e também pessoas sem ocupação especificada.

Casos mostram que risco também estão nas obras

Um acidente ocorrido em Maceió em 18 de fevereiro de 2026, já fora do levantamento de 2025, voltou a chamar atenção para o perigo enfrentado por trabalhadores que atuam perto de redes elétricas.

Um trabalhador de 63 anos morreu após sofrer uma descarga elétrica enquanto trabalhava em um andaime, no bairro São Jorge. Com o choque, ele caiu de uma altura de aproximadamente cinco metros.

O Samu e o Corpo de Bombeiros foram acionados e realizaram procedimentos de reanimação, mas a vítima não resistiu.

Genilson Lucena trabalhava na desmontagem da estrutura do São João em Maceió (Foto: Reprodução)



O episódio não integra os 16 casos registrados em Alagoas em 2025, mas tem relação direta com o tipo de risco apontado pelos dados. Atividades que não têm a eletricidade como função principal também podem terminar em acidentes fatais quando realizadas próximas a instalações energizadas.

Já em no dia 3 de julho de 2025, um homem identificado como Genilson Lucena de Freitas, de 48 anos e natural de Natal (RN) que trabalhava na desmontagem da estrutura do São João de Maceió, no Jaraguá, foi encontrado morto. A Polícia Científica confirmou que o homem morreu eletrocutado. Trabalhadores acharam o corpo quando entraram no serviço pela manhã. Eles acreditam que o homem sofreu uma descarga elétrica ainda na noite do dia 2.

‘’Prevenção precisa começar antes do serviço’’, aponta engenheiro eletricista

O engenheiro eletricista e engenheiro de segurança do trabalho João Macário Netto, presidente da Abracopel em Alagoas, destaca a importância de preparar o trabalhador antes do início da atividade.

‘’Entre os pontos de atenção estão o uso adequado de equipamentos de proteção, o conhecimento sobre os riscos e a capacitação para executar o serviço com segurança’’, pontua Macário.

Os registros de 2025 mostram que o problema aparece em diferentes ambientes e envolve pessoas de diferentes profissões. Em muitos dos casos, a eletricidade não era o trabalho da vítima, mas estava presente na atividade que ela realizava.

João Macário Netto, Engenheiro Eletricista, Engenheiro de Segurança do Trabalho e presidente da Abracopel AL (Foto: Acervo pessoal)



‘’Por isso, a avaliação das condições do local, a identificação de redes energizadas e o cuidado com equipamentos e instalações são medidas que podem fazer diferença antes mesmo do início de um serviço’’, ressalta o profissional.

Samu registra alta nos atendimentos e nas mortes; profissionais reforçam cuidados para evitar acidentes

Os atendimentos do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) relacionados a choques elétricos aumentaram em Maceió e Arapiraca em 2025. Na capital, foram 40 ocorrências, contra 31 em 2024, uma alta de 29,03%. Já em Arapiraca, o número passou de 13 para 25, crescimento de 92,31%.

As mortes também aumentaram. Maceió registrou seis óbitos em 2025, contra quatro no ano anterior. Em Arapiraca, foram quatro mortes no anão passo e duas em 2024.

O coordenador-geral do Samu Alagoas, Mac Douglas de Oliveira Lima, alertou para o crescimento dos casos e destacou que muitos acidentes poderiam ser evitados. “O aumento preocupa porque muitos desses acidentes são evitáveis com simples cuidados no dia a dia.”

Segundo ele, parte das ocorrências acontece dentro de casa durante tarefas como troca de lâmpadas, uso de eletrodomésticos e pequenos reparos feitos sem conhecimento técnico.

Em situações de emergência, a população deve ligar para o 192 (Samu) ou 193 (Corpo de Bombeiros) (Foto: Ascom Samu)



O médico socorrista Jack Emerson também reforçou orientações básicas. “Nunca toque em aparelhos elétricos com as mãos molhadas. Antes de trocar uma lâmpada ou fazer qualquer reparo, desligue a chave geral da energia.”

Em caso de choque, a recomendação é não tocar na vítima enquanto ela estiver em contato com a fonte elétrica. A energia deve ser desligada antes da tentativa de socorro.

Em situações de emergência, a população deve ligar para o 192 (Samu) ou 193 (Corpo de Bombeiros).