T+ Claudio Bulgarelli

Entre serras, águas e memórias, a epopeia de Pastos Novos

TANQUE D´ARCA

T+ Claudio Bulgarelli 04 de junho de 2026

Há lugares que não se explicam apenas pela geografia. Eles precisam ser compreendidos pela força da paisagem, pela memória dos seus povos e pelo silêncio das águas que carregam histórias através dos séculos. Assim é a região da antiga Pastos Novos, hoje Tanque d'Arca, situada na confluência de caminhos que unem montanhas, rios, cachoeiras e narrativas fundamentais para a formação de Alagoas e do Brasil.
Da Tríplice Divisa, onde os horizontes parecem se encontrar, a natureza desenhou um cenário singular. A Mata Verde, em Maribondo, guarda as lembranças de um território fértil e acolhedor. Ali, a Cachoeira do Boi despede-se do chamado Paraíso Escondido, enquanto as terras de Mar Vermelho se elevam em direção à majestosa Serra do Frade. Das encostas dessa serra nascem e se alimentam as águas que formam o Rio São Miguel, correndo entre pedras e vales até descerem pela encantadora Cachoeira da Escadinha, como se a própria natureza narrasse sua história em versos líquidos.

É nesse cenário que o conceito histórico do campesinato ganha vida. O campesinato brasileiro remonta a estruturas antigas, marcadas pela agricultura familiar, pela relação íntima com a terra e pela resistência dos povos que nela encontraram sustento e liberdade. Essa realidade é lembrada pelo escritor Flávio dos Santos Gomes na obra Mocambos e Quilombos, ao abordar a trajetória do campesinato negro no Brasil a partir do diário de viagem do capitão João Blaer em sua expedição aos Palmares.

Em seus registros, Blaer descreve a chegada ao antigo Engenho São Miguel, encontrando o Rio São Miguel e registrando a presença dos negros que utilizavam suas margens como rota de deslocamento e sobrevivência. As fortes pescarias observadas pelo capitão revelavam não apenas a abundância das águas, mas também a engenhosidade daqueles que buscavam refúgio e liberdade no lendário Quilombo dos Palmares.

Ao mencionar uma região de montanhas imponentes e águas de excelente qualidade, os relatos históricos apontam justamente para o território então conhecido como Pastos Novos, hoje Tanque d'Arca. Não era apenas uma referência geográfica. Era um espaço estratégico, protegido pelas serras, abastecido por nascentes e integrado aos caminhos naturais que ligavam os vales do São Miguel, do Paraíba e do Mundaú. Guiados pelos indígenas, os expedicionários alcançaram o Vale do Paraíba e, seguindo trilhas ancestrais, penetraram no Vale do Mundaú até chegar aos Palmares.

Por isso, quando se contempla hoje as serras de Tanque d'Arca, as águas que descem da Serra do Frade ou o curso sereno do Rio São Miguel, não se observa apenas uma bela paisagem. Observa-se um território que testemunhou a luta pela liberdade, a resistência dos povos negros e indígenas, a formação do campesinato e a construção de uma identidade que atravessa gerações.

As águas continuam correndo, as montanhas continuam de pé e os caminhos ainda existem. Mudaram os nomes, mudaram os tempos, mas permanece viva a memória de Pastos Novos, um lugar onde a natureza e a história caminham juntas, guardando nas pedras, nas cachoeiras e nos rios as marcas de um dos capítulos mais significativos da formação do povo alagoano.

Helvio Peixoto
SECULT de Tanque d'Arca -AL.