Petrucia Camelo

JOSÉ ZUMBA, O ARTISTA QUE NÃO MORRE

Petrucia Camelo 13 de abril de 2026

Verde Hotel, a cor que retratava um oásis em meio à próspera cidade de Palmeira dos Índios, joia incrustada no agreste alagoano, cujo sopro delicado da brisa fazia as flores plantadas no jardim daquele hotel balançarem-se como se estivessem agradecendo os olhares de admiração.

Éramos cinco: o Juiz e poeta Emanoel Fay Mata da Fonseca a esposa Solange, a cunhada Decele, o presidente da Fundação Municipal de Ação Social de Maceió, Antônio Arnaldo Camelo e eu. Retardatários que éramos para o café da manhã, por conta de uma noite mal dormida por nossa participação num evento cultural local, esse era o motivo que nos levou a estarmos ali reunidos naquele café da manhã.

Estávamos animadamente confabulando sobre a bem organizada solenidade promovida pela Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes, cuja Presidente é a professora e intelectual Isvania Marques: uma noite de exaltação aos valores políticos-culturais da terra, e prioritariamente um louvor à memória do Mestre Graça, pelo ANOGRACILIANO.

Ah, mas essa fase madura que faz ver, vendo, naquele momento, logo deu conta de duas telas de autoria do artista plástico José Zumba, a decorar o alto das paredes daquele café. Ali também estava presente o artista plástico por meio de sua obra, que fazia ver realmente o referencial do artista, não somente pela natureza individual dos temas abordados, mas, sobretudo, pelo universo que representavam o seu talento.

E entre um gole e outro de café, com o olhar de quando em quando voltado para as telas do saudoso artista, retrocedi no tempo, mais precisamente nos idos de 1987. Lá estava o artista José Zumba no seu ateliê instalado na sala de casa em meio a sua simplicidade, combinando as cores de suas tintas e com o pincel embebido de tinta dava o seu toque artístico na tela, a maneira de sua arte, fazendo tremular o velho e tosco cavalete.

E ele me disse com palavras, explicitando o seu caráter e sua natureza simples e bondosa, que ainda hoje ressoam em meus ouvidos, fazendo aflorar a minha emoção: poeta Petrucia, você tem o olhar de mãe!

Meses depois novamente ao visitá-lo em sua residência onde ele mantinha o seu ateliê, tornei a escutá-lo: Diga ao seu esposo o Vereador Antônio Arnaldo, que ele não sabe o bem que ele me fez, arrumando para mim, uma pensão vitalícia, por meio de um projeto de Lei; talvez, eu não tenha mais tempo para agradecer-lhe, mas certamente os meus filhos o farão.

Vejo agora como foi salutar olhar para aquelas telas do artista José Zumba, e colocar sobre a mesa do café daquele hotel, semelhantes lembranças de um artista que não morre, que sabia não somente pintar, mas também utilizar as palavras com maestria para que não ferissem o momento mágico da hora, o momento em que o destino ou o que o valha, não sofresse nenhuma alteração em seu trajeto.

E enquanto terminava o café, ainda fiquei a indagar-me: como pode aos olhos do mundo uma criatura frágil, negro, de origem e viver tão humilde, ziguezagueando pela vida em meio a tantas dificuldades, e reunir tantas qualidades?

E levantando-me daquela mesa, acompanhando os demais, antes de sair daquele refeitório, olhei pela última vez para aquelas telas na parede, e concluí os meus pensamentos: talvez, o artista seja aquele escolhido com a condição de nascer artista para poder fazer-se presente num mundo tão diversificado e nada amistoso.

Por certo, Deus protegeu o artista José Zumba, dando-lhe o que ele mais necessitava, o talento.