Petrucia Camelo

LIXO, MÁCULA URBANA

Petrucia Camelo 29 de janeiro de 2026

Sabe-se que o lixo urbano é um problema caracterizado pela desorganização sócio-político-cultural. Entretanto, apesar dessa situação de repulsa, veem-se bem as belezas dos recursos naturais existentes nas cidades, como é o caso de Maceió, que é abraçada por lagoas, rios e mar, de um roteiro turístico que não deixa a desejar, de belezas arquitetônicas seculares.

Mas é na área socioeconômica que se vê o crescimento ou o atraso de um povo. Em Maceió, longe de haver uma homogeneização social, verifica-se que há dois caminhos antagônicos: o norte, onde se concentra a população elitizada; e o sul, margeando a Lagoa Mundaú, onde se concentra a pobreza, alocada nos bairros do Bom Parto, Vergel do Lago, Levada, Trapiche da Barra, Pontal da Barra, tendo como pano de fundo um espetáculo de horror, alicerçando a base da pirâmide social.

Nesse caos urbano, há inúmeras diferenças individuais instaladas numa multiplicidade de casebres que, inaptas, deixam-se arrastar sem rumo, por suas incapacidades de resoluções, pois não há referenciais, oportunidades de melhoria, e, sim escarnecidas, na sofreguidão do descaso, apresentando uma agravante e até assustadora situação socioeconômica, que gera temor e desprezo aos mais seletivos.

Geralmente, as excrescências não caminham sozinhas, e aquela população, vivendo lado a lado com a Lagoa Mundaú, de águas escuras, opacas, faz dela depositária de dejetos, matando o que lhe é de origem, e o vento a soprar logo mostra outras causas que a infeccionam: esgotos a escorrerem a céu aberto, além de amontoados de lixo de toda sorte, que a população deixa expostos.

E a Avenida Senador Rui Palmeira, quilométrica, a serpentear essa realidade, traz o canteiro central, negligenciado, abarrotado de lixo, de animais domésticos, soltos, maltratados, e os de tração a comerem em cochos grotescos, sem higiene, além da proliferação de animais peçonhentos. E nessa infecta complexidade, a pobreza agoniza e se vale dos recursos naturais da lagoa; para se alimentar de mariscos, peixes e a vendê-los à beira do asfalto.

E o que é pior, vivenciando o complexo de vira-latas, como se lê em Nelson Rodrigues, vivem inúmeros, na atividade de catadores de lixo, que, sem coleira e sem dono, movimentam-se em outros pontos da cidade, a volver as lixeiras, a catar o que lhes tem de serventia, fazendo lembrar o poema “O bicho” de Manuel Bandeira: “Vi ontem um bicho/na imundice do pátio/catando comida entre os detritos/. Quando achava alguma coisa/ não examinava nem cheirava: engolia com voracidade/. O bicho não era um cão/não era um gato/não era um rato. O bicho era um homem”.

Tem-se que ver a direção que se dá à nossa terra. Há urgência de planejamento estratégico que dê maior fluidez aos indivíduos dessas áreas marginalizadas. Esse cenário caótico precisa de mudanças, de revitalização por meio de estudos de ações conjuntas, para implantação de programas governamentais, que geram processo de homogeneização de comportamentos, valores, práticas e orientações, para que haja desenvolvimento. Do contrário, no presente e num breve futuro, aquela população virá cobrar o que não lhe foi dado.