Petrucia Camelo
OUTUBRO PAIRA SOBRE NÓS
A vida é uma viagem no tempo. Acompanhando o calendário, têm-se as trilhas do caminho. Outubro, é a estalagem de agora, que, de início, apresenta-se chuvoso e soprado pelo vento, introjetado por fatos sociais comemorativos, cívicos e religiosos e, de complemento, apresenta situações conflitantes que mexem com a passividade ordeira brasileira.
E no indicativo do calendário, pode-se comprovar algumas datas que norteiam os fatos; tem-se o dia primeiro de outubro dedicado à Santa Terezinha do Menino Jesus, à Santa das Flores e também dedicado ao idoso; é um fato social comemorativo, em favor da chamada terceira idade, uma faixa etária que empreendeu viagem no tempo, muito antes, primeiramente chegou e trabalhou; e vendo a paisagem, lendo-a nas entrelinhas, vê-se o idoso da classe pobre, viajando sozinho, atribulado, doente e como testemunha viva de que a riqueza existente foi produzida com o trabalho de todos.
O idoso não é um indivíduo sem importância para a sociedade, para que lhe seja dado o desprezo; ele é parte integrante do todo. Ele atravessou toda a aridez da existência, utilizando os seus próprios valores; é um sobrevivente das qualidades do espírito. Paga o preço por não ter perseguido os objetivos que levam a adquirir bens materiais, e, não tendo dinheiro, não tem assistência de saúde adequada; não tendo auxílio moradia, não reside, abriga-se, e muitos idosos não têm nem mais a família, e, quando a têm, sustenta-a com a minguada aposentadoria.
Acompanhando os dias, chega-se ao dia 6, e neste outubro, é eleição em todo o país. O povo vai às urnas votar; o povo mexe-se numa movimentação interna, em uma viagem cíclica, cujas fotos representativas logo desbotam; não dá para guardar, pois não há valor estimativo; também não há imposição, há escolhas suscetíveis, e têm muito a ver com a conscientização do indivíduo partícipe, pois há quem diz: “eu não sou um povo; sou um homem”, e age assim, vive assim, sem laços com a comunidade, como se fosse só, dono da lua, do sol, como se o mundo não esperasse nele e a morte um dia não viesse pegá-lo. Coisa alguma existe além dele, vive na noite, sem testemunhas, sem compartilhar, sem tomar conhecimento do que é fracasso, do que é sucesso; sorve o chá da omissão, que não é curativo, que faz vítima e deixa sequelas; esquece que as coisas vêm de nós e voltam para nós. Não viaja em classe doméstica, mas à parte, em classe especial; não se registra na hospedagem com o nome verdadeiro.
Prossegue-se a viagem na estrada de estalagens, ora hospitaleiras, ora desfalcadas de recursos, conforto, ora efusivas em esperanças. No dia 12, a homenagem é à criança. É uma parada em uma cidadela de férteis imagens da inocência passageira, registrada como fases de descobertas fora e dentro de si mesma, início do apogeu do imaginário, do desejo de criatividade; sobretudo, é quando o amor não dói, constrói, dar medo, pois a criança, sem a proteção do sentimento afetivo não construído ao redor, vive o medo de ser agredido, de ser separado dos pais e imagina que um dia a terra possa ceder aos seus pés. ... Esse período subjetivo em que não se pode comunicar tudo, porque tudo é muito de emoção, de emoções que produzem efeitos psicológicos” (Françoise Dolto).
Na viagem da vida, também há paradas interiores em regiões sagradas, “onde se entra e sai-se à vontade; entretanto, ninguém poderá parar por você, somente você pode parar nas paradas dessa trajetória”. O calendário também aponta o dia 12 de outubro como o dia de veneração à Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, ressaltando um dos momentos da fé em Deus, na história sagrada; é uma parada obrigatória, que faz contrair todas as células que induzem a mente à oração, à fé.
Nessa lavra, também têm-se dias dedicados a profissionais liberais: dia 15, ao professor; 18, o dia do médico, homenagens àqueles, que possui o talento para ser mentor, e outros para salvar vidas, que profissionalmente é marcado por contradições, por falta de apoio de um sistema organizacional coerente com a realidade em pauta onde se pode investir valorizando profissionais responsáveis por ministrar ensinos de métodos na consciência do aprendiz, e aqueles que um dia fizeram o juramento de Hipócrates: Prometo que, ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência... Enfim, os descasos a esses profissionais descaracterizam o bem-estar social e o bem comum.
Na trajetória da viagem empreitada pela vida em trânsito, o tempo é demarcado por estações de paradas obrigatórias, onde a memória se debruça recompondo fatos, épocas, e como um bom viajor, em cada estação, deve-se encontrar apoio recíproco para o carregar de novas bagagens que se adquirem e se transmitem e sem esquecer Deus: “Cristo lhe dirá um dia: Obrigado por esse lugar que você me deu na hospedaria de seu coração; ou então: Ai de você,
porque eu não encontrei nem ao menos uma pedra onde eu pudesse repousar minha cabeça” (Michel Quoist).
Petrucia Camelo
Sobre
Petrucia Camelo é Assistente Social, nasceu em Viçosa-AL. Casada com o médico e escritor Arnaldo Camelo. Possui 14 livros publicados, dois livros premiados. Pertence a Academia Alagoana de Letras. Sócia Honorária do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Sócia da UBE-PE. Fundadora e Presidente do Clube Café, Vinho e Arte - CCVA.




