Raízes que preservam

Turismo ecológico transforma área reflorestada em referência de sustentabilidade e conscientização ambiental em Alagoas

Por Lucas França, Thayanne Magalhães - Repórteres / Lucas França - Foto de capa | Redação

Em meio à crescente busca por experiências mais conscientes e conectadas à natureza, o turismo ecológico vem ganhando força como uma alternativa capaz de unir preservação ambiental, desenvolvimento econômico e valorização cultural. Em Quebrangulo, no interior de Alagoas, uma iniciativa desenvolvida pela ONG NORDESTA Reforestation & Education, ou Associação Nordesta de Reflorestamento e Educação Ambiental, como ficou conhecida no país, tem mostrado que é possível transformar áreas degradadas em espaços de convivência, aprendizado e geração de renda sustentável.

Conhecida pelo trabalho ambiental realizado há décadas em municípios de Alagoas e Pernambuco, a Nordesta Brasil ampliou recentemente sua atuação ao investir no turismo ecológico com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. O projeto acontece em uma área reflorestada em plena zona urbana de Quebrangulo, conhecida como Mata da Suíça, onde visitantes participam de trilhas guiadas, conhecem espécies nativas e aprendem sobre preservação ambiental.

O presidente da Nordesta Brasil, o biólogo Marcelo Cardoso, explica que a área passou por um longo processo de recuperação ambiental iniciado há cerca de 30 anos. “A gente está em uma área que foi reflorestada há cerca de 30 anos. Essa mata é conhecida pela população de Quebrangulo como a Mata da Suíça. Esse espaço surgiu a partir de um dos projetos da Associação Nordesta, criada por Anita Studer, com o objetivo de recuperar uma área degradada e transformá-la em ferramenta de estudo e educação ambiental para a comunidade”, destacou.

Marcelo Cardoso, biólogo e presidente da Nordesta Brasil (Foto: Williams Campos)



Segundo Marcelo, o trabalho evoluiu e abriu espaço para a criação do turismo ecológico, aliado à valorização cultural da região. “Posteriormente, partimos para o turismo ecológico e criamos uma estrutura para receber as pessoas, com restaurante, espaço de eventos e uma casa de farinha que busca manter a tradição, os costumes e a memória do povo do lugar. A gente privilegia essa cultura incorporada à história da cidade para receber os visitantes”, afirmou.

O biólogo ressaltou ainda que a Mata da Suíça representa um dos maiores legados da ambientalista Anita Studer. “Ela teve a visão de recuperar uma área dentro da cidade, colocando em prática o desejo de melhorar a vida das pessoas e criar um espaço rico em biodiversidade em área urbana. E ela conseguiu”, completou.

“Trabalho da Nordesta é diário”


A preservação ambiental desenvolvida pela ONG é sustentada por um trabalho diário de reflorestamento e produção de mudas nativas. Técnico e viveirista da Nordesta há 15 anos, Flávio Pereira explica que o local se tornou referência em recuperação ambiental.

“A Mata da Suíça não tinha nada. Tudo foi implantado graças ao viveiro, que produz cerca de cinco mil mudas anuais e trabalha com 130 espécies nativas, sendo 23 ameaçadas de extinção”, contou Flávio.

De acordo com ele, o crescimento da biodiversidade também atraiu espécies da fauna local e aves migratórias. “A Mata da Suíça começou com 40 espécies nativas e atualmente são mais de 100 espécies, sem contar os animais que vivem em mata densa e espécies migratórias que se reproduzem aqui”, explicou.

Viveiros de árvores nativas produz cerca de 5 mil mudas anuais (Foto: Lucas França)



Além do contato com a natureza, os visitantes também participam de atividades educativas durante os passeios ecológicos. “O turismo ecológico é todo guiado e sinalizado. Os visitantes conhecem a história da Nordesta, aprendem sobre as espécies encontradas no local e ainda interagem com os animais de forma segura e respeitando o espaço deles”, afirmou Flávio.

O trabalho de reflorestamento segue em ritmo intenso. Segundo o viveirista, a meta da instituição é plantar 200 mil mudas até o fim deste ano. “Aqui estamos iniciando o processo de reflorestamento para o plantio de 2026, com equipes já em campo. Estamos fazendo a seleção das espécies para cada área previamente mapeada. Além das mudas plantadas aqui, também comercializamos mudas e sementes para outros estados do Brasil”, destacou.


“É muito gratificante acompanhar o desenvolvimento de cada árvore"


Há décadas acompanhando o crescimento da Nordesta, o viveirista Luís Freitas explica que o trabalho começa ainda na coleta das sementes em campo.

“Trabalhamos com 130 espécies de plantas nativas. Nosso trabalho inicia com a coleta das sementes, depois fazemos o beneficiamento e parte delas vai para o quarto frio, enquanto outras seguem direto para o viveiro. É um trabalho de educação ambiental e sustentabilidade que ajuda a fortalecer o nosso bioma”, relatou.

NORDESTA INTERNACIONAL


A atuação da Nordesta também atrai pesquisadores e estudantes de diferentes países. A bióloga suíça Leila Prola está em Quebrangulo realizando pesquisas sobre espécies de pererecas encontradas na região.

Leila Prola, pesquisadora da Suíça (Foto: Williams Campos)



“Estou aqui para pesquisar diferentes lagos, identificar as espécies e entender quais características desses ambientes favorecem esses animais. É um espaço importante porque temos colaboração com outros pesquisadores. Esse local faz um trabalho magnífico de preservação no Brasil”, afirmou.

TOUR DA NORDESTA


A reportagem do Portal Tribuna Hoje também conheceu uma das rotas do turismo ecológico da Nordesta: a Cachoeira da Boa Vista. Responsável pelo setor turístico da instituição, Sabrynna Holanda destacou que o objetivo é conscientizar os visitantes sobre práticas sustentáveis.

“Aqui é um dos pontos do tour da Nordesta. Estamos abrindo as portas com essa proposta de mostrar que é possível fazer turismo e aproveitar a natureza de forma mais consciente e respeitando o meio ambiente”, disse Holanda.

Sabrynna Holanda (de verde) com funcionários da Nordesta (Foto: Lucas França)



Segundo Sabrynna, a equipe passou por capacitações em parceria com o Sebrae para garantir um atendimento mais qualificado aos visitantes. “A equipe se profissionalizou para receber os turistas. Aprendemos a acolher cada pessoa de forma cuidadosa, fazendo com que elas se sintam bem e confiantes. O trabalho da Nordesta tem 40 anos, mas essa atuação voltada ao turismo ecológico começou há cerca de um ano”, concluiu.

Veja a entrevista com os representantes da Nordesta na íntegra no vídeo ao final da reportagem.

“O empreendedorismo sustentável surge quando a preservação ambiental é transformada em oportunidade de negócio, como produção agroecológica, viveiros de mudas, ecoturismo, artesanato sustentável'', Amanda Pinto, analista do Sebrae/AL

 Foto: Lucas França


A força econômica da preservação ambiental

Enquanto parte do Nordeste ainda enfrenta os efeitos do desmatamento e da degradação ambiental, iniciativas que unem preservação da floresta e geração de renda começam a abrir novos caminhos para comunidades rurais. Em Alagoas, a atuação da ONG NORDESTA Reforestation & Education passou a chamar atenção também pelo potencial de transformar conservação ambiental em oportunidade econômica sustentável.

Entre mudas nativas, recuperação de nascentes e proteção da Mata Atlântica, o novo modelo de desenvolvimento começou a ganhar força no interior de Alagoas: o da floresta como oportunidade econômica e social. A avaliação é da analista da Unidade de Competitividade do Sebrae Alagoas, Maria Amanda Pinto Lima, que acompanha ações voltadas ao turismo sustentável e à bioeconomia no estado.

Para ela, iniciativas como a da ONG NORDESTA mostram que a preservação ambiental deixou de ser apenas uma pauta ecológica e passou a ocupar também espaço estratégico no desenvolvimento de comunidades rurais historicamente marcadas pela vulnerabilidade social e pela escassez de oportunidades.

“Projetos de reflorestamento geram impacto econômico ao criar oportunidades de trabalho, fortalecer a agricultura sustentável, incentivar o turismo de natureza e abrir espaço para novos negócios ligados à bioeconomia e aos produtos da floresta”, afirmou.

A organização atua na recuperação de áreas degradadas da Mata Atlântica e desenvolve ações de educação ambiental e apoio às populações rurais. Nos últimos meses, o trabalho ganhou uma nova frente a partir da parceria com o Sebrae Alagoas, iniciada em outubro de 2025, voltada ao fortalecimento do ecoturismo e do chamado turismo regenerativo — modalidade que busca não apenas visitar áreas naturais, mas contribuir para sua preservação.

ONG Nordesta iniciou trabalhos em Quebrangulo em 1988 (Foto: Lucas França )



Segundo Amanda, a identificação do potencial turístico da região levou a NORDESTA a ampliar sua atuação e criar um novo braço institucional voltado exclusivamente para o segmento: a NORDESTA Tur.

“O empreendedorismo sustentável surge quando a preservação ambiental é transformada em oportunidade de negócio, como produção agroecológica, viveiros de mudas, ecoturismo, artesanato sustentável e comercialização de produtos naturais com valor agregado”, destacou.

A iniciativa já começou a ganhar projeção fora de Alagoas. Em abril deste ano, o representante da organização, Adryan, participou do RuralTur, evento nacional realizado em Santa Teresa, no Espírito Santo, acompanhado pelo Sebrae. No encontro, apresentou as experiências desenvolvidas pela instituição no território alagoano, marcado por áreas de Mata Atlântica ameaçadas pelo desmatamento ao longo das décadas.

A analista observa que o crescimento de negócios ligados à bioeconomia e à produção sustentável vem se consolidando em todo o Nordeste, impulsionado pela mudança no perfil do consumidor e pela busca por atividades econômicas mais conectadas à preservação ambiental.

Maria Amanda Pinto Lima, analista da Unidade de Competitividade do Sebrae Alagoas (Foto: Ascom Sebrae/AL)



“O Sebrae tem identificado um crescimento significativo de pequenos negócios ligados à bioeconomia, agroecologia, turismo sustentável e produção rural sustentável, impulsionados pela busca por consumo consciente e novas oportunidades de mercado”, afirmou.

Apesar do cenário promissor, Amanda lembra que ainda existem barreiras importantes para produtores rurais que tentam conciliar preservação ambiental e geração de renda. Entre os principais entraves estão o acesso limitado a crédito, assistência técnica especializada, regularização ambiental e dificuldade de inserção em mercados que valorizem financeiramente produtos sustentáveis.

Mesmo diante desses desafios, ela acredita que a experiência desenvolvida pela NORDESTA pode inspirar outros municípios alagoanos que enfrentam degradação ambiental, perda de cobertura vegetal e desigualdade social.

“A experiência da NORDESTA mostra que é possível unir recuperação ambiental, educação e geração de renda, servindo como referência para outros municípios que buscam desenvolvimento sustentável aliado à inclusão social”, concluiu.

Arboretum: ciência e floresta viva

Alagoas possui apenas cerca de 10% da cobertura original da Mata Atlântica. Em meio à perda histórica da vegetação nativa, o Arboretum da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), em Maceió, também atua com projeto parecido com o da ONG Nordesta. O local tornou-se um símbolo de recuperação ambiental, pesquisa científica e turismo ecológico. Localizado no Campus A.C. Simões, o espaço ocupa 4,2 hectares — o equivalente a mais de 40 mil metros quadrados — e reúne espécies de todos os biomas brasileiros.

O local, que hoje funciona como um verdadeiro laboratório vivo, já foi uma área degradada, usada para descarte de entulhos da construção civil e resíduos diversos. O processo de transformação começou em 2002, por iniciativa da professora e bióloga Cecília Bello, do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS), responsável pelo plantio inicial de 1.450 mudas de espécies nativas brasileiras, muitas delas ameaçadas de extinção.

Atualmente, o Arboretum abriga mais de 2.500 plantas distribuídas em cerca de 150 espécies, entre elas pau-brasil, ipê-rosa, jatobá, sucupira, cedro, cajazeiro, juazeiro e mogno. “Grande parte das plantas existentes no local foi proveniente de mudas, mas hoje já observamos muitas espécies surgindo naturalmente por meio da regeneração da floresta”, destaca o curador Josias Divino Silva de Lucena. Segundo ele, o fenômeno demonstra que o ambiente alcançou um estágio avançado de equilíbrio ecológico.

Além da relevância ambiental, o espaço se consolidou como referência acadêmica. Pesquisas nas áreas de botânica, biodiversidade, ecologia e conservação são desenvolvidas continuamente no local, envolvendo estudantes da graduação, pós-graduação e pesquisadores de diferentes unidades da universidade. “No campo da pesquisa, o Arboretum é um laboratório vivo, onde teoria e prática se encontram em contato direto com a natureza”, ressalta o professor Aleilson Rodrigues, integrante da equipe cogestora.

Bromélia no Arboretum (Foto: Sandro Lima)



O espaço também se tornou ferramenta de educação ambiental e formação profissional. Trilhas ecológicas permitem atividades de campo, observação científica e sensibilização sobre preservação ambiental. Cursos como Ciências Biológicas, Engenharia, Pedagogia e Educação Física utilizam frequentemente o ambiente em atividades práticas. “Na licenciatura, trabalhamos habilidades dos futuros professores para aulas de campo e experiências educativas com estudantes”, explica Rodrigues.

A relação com a comunidade externa também fortalece o caráter ecológico e turístico do Arboretum. Escolas da rede pública e instituições parceiras costumam participar de visitas guiadas e atividades educativas. Eventos como a Semana de Biologia (Semabio) e a Semana de Pesquisa, Tecnologia e Inovação da Educação Básica (Sinpete) utilizam o espaço para integrar ciência, educação e conscientização ambiental.

A estudante Vanessa Lessa Araújo, estagiária do projeto, participou da revitalização de parte do espaço após um período em que o Arboretum ficou sem manutenção adequada. “A natureza acabou tomando conta do local, cobrindo trilhas e dificultando as atividades. Nós limpamos áreas, replantamos mudas e criamos roteiros educativos para tornar as visitas mais interativas”, contou. Entre as iniciativas desenvolvidas pelos estudantes, está um bingo ecológico voltado para crianças durante as trilhas educativas.

Para os pesquisadores, o Arboretum representa muito mais do que uma área verde universitária. “É um exemplo concreto de recuperação de área degradada. Hoje temos árvores com mais de 15 metros de altura em um local que antes era depósito de lixo”, destaca o comitê gestor. Os benefícios ambientais também impactam diretamente a cidade, contribuindo para a melhoria da qualidade do ar, redução da temperatura urbana, abrigo para animais silvestres e absorção de carbono.

Embora ainda passe por ajustes estruturais para retomada plena das visitas públicas, o Arboretum segue como um dos principais espaços de preservação ambiental urbana de Alagoas, unindo ciência, turismo ecológico, educação ambiental e conservação da biodiversidade brasileira em pleno espaço urbano de Maceió.


Pedra Talhada: oásis verde resistiu ao desmatamento

Antes da colonização europeia, a Mata Atlântica cobria grande parte do litoral brasileiro; porém, mais de 500 anos de exploração destruíram cerca de 95% da floresta. Entre os poucos remanescentes preservados está a região de Pedra Talhada, localizada entre Alagoas e Pernambuco, considerada um dos últimos refúgios da floresta tropical primária no Nordeste brasileiro.

A história da preservação da área começou em 1976, quando a bióloga suíça Anita Studer (in memoriam) chegou ao Brasil para estudar aves da região. Cinco anos depois, ela descobriu em Quebrangulo o pássaro Anumara, espécie ameaçada de extinção. Durante sobrevoos pela região, Anita percebeu que o maciço de Pedra Talhada, com cerca de 5 mil hectares, era o último grande fragmento de floresta cercado por áreas devastadas, o que a levou a abandonar a pesquisa acadêmica para iniciar uma luta em defesa da mata.


Políticas de preservação


Com apoio de lideranças locais, Anita articulou a criação de políticas de preservação. Em 1985, após um acordo com gestores de Quebrangulo, ela ajudou na construção de uma escola em troca do apoio político para proteger a floresta. O movimento resultou na assinatura do decreto que criou o Parque Estadual de Pedra Talhada. No mesmo ano, Anita fundou a Associação Nordesta Reflorestamento e Educação, instituição voltada para ações sociais, educação ambiental e preservação da biodiversidade.


Anita Studer, bióloga Suíça e idealizadora da ONG Nordeste (Foto: Acervo pessoal)


A partir de 1988, a Nordesta implantou viveiros com espécies nativas da Mata Atlântica para recuperar áreas degradadas e criar corredores ecológicos. Além do reflorestamento, a ONG também investiu em escolas, centros de saúde e projetos sociais para a população local. Décadas depois, os esforços garantiram a transformação da região na Reserva Biológica Federal de Pedra Talhada, considerada hoje uma das áreas mais importantes para a conservação da biodiversidade da Mata Atlântica no Brasil.

Mata Atlântica em risco mobiliza atuação permanente do Ministério Público

A atuação do Ministério Público de Alagoas na defesa da Mata Atlântica e da biodiversidade do estado vem sendo ampliada nos últimos anos por meio de programas voltados à conservação ambiental, recuperação de áreas degradadas e preservação de espécies ameaçadas. Entre os parceiros dessas iniciativas está a ONG NORDESTA Reforestation & Education, apontada pelo promotor de Justiça Alberto Fonseca como uma das instituições de referência no trabalho de recuperação ambiental em Alagoas.

Integrante do Núcleo de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público de Alagoas, Alberto Fonseca destaca que o órgão tem desenvolvido ações estruturantes dentro do planejamento estratégico ambiental do MPAL, articulando fiscalização, educação ambiental e conservação da biodiversidade.

“Temos várias iniciativas, como o Pró-Reserva, o programa de atuação ministerial para conservação de espécies ameaçadas de extinção, o Pró-Manguezais, e temos na ONG NORDESTA um de nossos grandes parceiros”, afirmou.

Entre os programas citados pelo promotor está o Pró-Manguezais, desenvolvido pelo Ministério Público de Alagoas em parceria com outros órgãos ambientais para recuperação e proteção dos manguezais alagoanos. O projeto prevê diagnóstico ambiental, recuperação de áreas degradadas, implantação de viveiros de mudas e ações educativas junto às comunidades tradicionais.

Promotor Alberto Fonseca, integrante do Núcleo de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público de Alagoas (Foto: Edilson Omena)



Outra frente de atuação é o Pró-Reservas, iniciativa voltada ao incentivo da criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), consideradas estratégicas para a preservação da fauna, da flora e dos recursos hídricos em áreas privadas de Mata Atlântica e Caatinga. O programa reúne Ministério Público, IMA, pesquisadores, instituições ambientais e proprietários rurais.

O MPAL também integra operações de fiscalização ambiental, como a “Mata Atlântica em Pé”, realizada nacionalmente para combater desmatamentos ilegais no bioma. Em Alagoas, as ações ocorrem em conjunto com IMA, Ibama e Batalhão de Polícia Ambiental.

Segundo Alberto Fonseca, o trabalho desenvolvido pela NORDESTA se conecta diretamente ao conceito de desenvolvimento sustentável previsto na Constituição Federal, ao unir conservação ambiental, educação e geração de oportunidades para populações rurais.

“A Nordeste faz um trabalho de relevância para o estado de Alagoas, principalmente para a recuperação de sua biodiversidade”, ressaltou.

A atuação conjunta entre Ministério Público, órgãos ambientais e instituições da sociedade civil também tem avançado em projetos de conservação de espécies ameaçadas da Mata Atlântica alagoana. Neste ano, o MPAL iniciou ações para preservação e reintrodução do pássaro pintor-sete-cores em reservas ambientais do estado, dentro do Programa de Atuação Ministerial para Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção.

Mutum das Alagoas é reintroduzido no meio ambiente (Foto: Ascom MP/AL)



Para o promotor, iniciativas como a da NORDESTA demonstram que a proteção ambiental exige atuação coletiva e contínua, especialmente em um dos biomas mais ameaçados do país.


Quando o crédito ajuda a manter a floresta em pé

A transformação de paisagens degradadas em áreas produtivas e ambientalmente equilibradas passa, cada vez mais, pelo acesso ao crédito rural. Em uma região marcada por desafios históricos relacionados à seca, à degradação ambiental e à vulnerabilidade social, o financiamento de práticas sustentáveis vem se consolidando como uma ferramenta estratégica para fortalecer a agricultura familiar e promover o desenvolvimento regional.

Para o gerente executivo da Área Rural do Banco do Nordeste, Adriano Alves Nascimento, programas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o FNE Verde e o FNE Agropecuária de Baixo Carbono representam mais do que linhas de crédito. São instrumentos capazes de impulsionar mudanças estruturais na forma de produzir, preservar e gerar renda no campo.

Segundo ele, o Pronaf tem desempenhado papel fundamental ao oferecer condições que permitem ao agricultor familiar investir com planejamento e segurança, inclusive em regiões que convivem simultaneamente com desafios ambientais e sociais.

“O crédito acessível permite melhorar a produção, adotar práticas mais sustentáveis, recuperar áreas degradadas, utilizar os recursos naturais de forma mais eficiente e diversificar as fontes de renda”, destacou o gerente em conversa com a Tribuna.

Na avaliação do executivo, os benefícios ultrapassam os limites da propriedade rural. Ao fortalecer a atividade produtiva, o crédito também amplia a capacidade de resistência das famílias diante das dificuldades econômicas e climáticas.

“Podemos dizer que o crédito vira uma ferramenta de inclusão produtiva, sustentabilidade e permanência no campo”, afirmou.

Essa lógica também orienta os programas voltados especificamente para a chamada economia de baixo carbono. Por meio do FNE Verde e do FNE Agropecuária de Baixo Carbono, produtores podem financiar investimentos que conciliam aumento da produtividade e redução dos impactos ambientais.

Adriano Alves Nascimento, gerente executivo da Área Rural do Banco do Nordeste (Foto: Acervo pessoal)



Entre as iniciativas apoiadas estão a recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, uso racional da água e manejo mais eficiente do solo. Práticas que, segundo Adriano, ajudam a reduzir custos ao longo do tempo, aumentam a competitividade da produção e diminuem a exposição aos riscos climáticos.

“O produtor não precisa escolher entre preservar e gerar renda. Ele passa a produzir melhor, com mais eficiência e mantendo a sustentabilidade como parte do próprio negócio”, explicou.

Embora a recuperação de áreas degradadas, o reflorestamento e os sistemas agroflorestais estejam ganhando visibilidade nos debates sobre sustentabilidade, o gerente observa que a procura por financiamentos destinados a essas finalidades ainda está abaixo do potencial existente na região.

Entre os fatores que ajudam a explicar esse cenário estão a busca por investimentos com retorno mais imediato, o desconhecimento sobre as linhas disponíveis e a necessidade de assistência técnica especializada para implantação de modelos produtivos mais complexos.

“Muitas vezes, essas práticas exigem um horizonte de maturação mais longo. Nem todos os produtores conhecem os benefícios econômicos que elas podem gerar no médio e no longo prazo”, observou.

Viveiros da Nordesta combatem desmatamento em todo o Brasil (Foto: Lucas França)



Apesar disso, Adriano vê um cenário promissor para os próximos anos. O aumento da conscientização ambiental, a ampliação do acesso à informação e a multiplicação de experiências bem-sucedidas tendem a fortalecer a procura por modelos produtivos que conciliem conservação e rentabilidade.

Nesse contexto, iniciativas como as desenvolvidas pela ONG NORDESTA Reforestation & Education são vistas como exemplos concretos de que recuperação ambiental e desenvolvimento econômico não são objetivos incompatíveis.

Para o Banco do Nordeste, o crédito rural ocupa posição central nessa transição.

“Mais do que financiar a produção, o crédito qualificado induz práticas sustentáveis e possibilita aumentar a eficiência produtiva sem comprometer os recursos naturais”, ressaltou.

Ao apoiar investimentos voltados para a sustentabilidade, a instituição contribui para reduzir riscos, ampliar a geração de renda e estimular atividades econômicas alinhadas à preservação ambiental.

“Dessa forma, o crédito rural deixa de ser apenas um apoio financeiro e passa a ser um agente de transformação, estimulando modelos produtivos mais equilibrados e contribuindo para um desenvolvimento regional sustentável”, concluiu Adriano Alves Nascimento.

Onde a floresta resiste, a água, a fauna e a vida também permanecem

Restaurar áreas degradadas da Mata Atlântica vai muito além do plantio de árvores. Em Alagoas, a recuperação de fragmentos florestais representa uma tentativa urgente de reconectar ecossistemas interrompidos por séculos de desmatamento, garantir o abastecimento hídrico de comunidades inteiras e impedir o desaparecimento silencioso da biodiversidade. É dessa forma que o gerente de Unidades de Conservação do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA/AL), Alex Nazário, define a importância de projetos de reflorestamento desenvolvidos no estado.

Segundo ele, iniciativas como as da ONG NORDESTA assumem papel estratégico em um bioma historicamente devastado desde o período colonial. A Mata Atlântica foi a primeira grande floresta brasileira a sofrer impactos intensos da ocupação humana, da exploração madeireira e do avanço agrícola — cenário que ainda hoje deixa reflexos sobre o território alagoano.

“Todo e qualquer programa que vise recompor, reflorestar, restaurar, criar novas áreas de conexão entre remanescentes, corredores de biodiversidade, soltura de animais silvestres e coleta de sementes tem alta relevância”, afirmou.

Alex explica que um dos maiores desafios ambientais atuais é justamente combater a fragmentação florestal. Em muitas regiões, os remanescentes de Mata Atlântica permanecem isolados, sem comunicação ecológica entre si, dificultando a circulação da fauna e comprometendo o equilíbrio ambiental.

“Existe ainda muito a cultura de limpar terrenos, deixar áreas abertas, fragmentos sem conexão”, observou.

Para o gerente do IMA, a preservação ambiental não pode ser pensada distante da realidade humana e das comunidades tradicionais que vivem próximas às áreas naturais. Ele defende que conservação e desenvolvimento social precisam caminhar juntos para garantir resultados permanentes.

“A gente acredita que não tem como desvincular a atividade humana, a cultura e o estabelecimento das pessoas da preservação ambiental. Se isso for bem trabalhado, conseguimos garantir recuperação ambiental e permanência das comunidades no campo”, destacou.

Alex Nazário, gerente de Unidades de Conservação do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA/AL) (Foto: Ascom IMA/AL)



Nesse contexto, Alex considera fundamentais as ações voltadas à recuperação de nascentes e áreas degradadas. Além de restaurar funções ecológicas da floresta, essas iniciativas contribuem diretamente para a segurança hídrica e para a qualidade da água utilizada pela população.

“As nascentes são áreas de preservação permanente. Elas garantem continuidade e qualidade da água captada e utilizada por nós”, explicou.

Ele cita como exemplo a Reserva Biológica de Pedra Talhada, situada entre Alagoas e Pernambuco e considerada uma das áreas mais importantes de Mata Atlântica do Nordeste. Após décadas de exploração madeireira, a unidade passou a desempenhar papel essencial no abastecimento hídrico da região.

“A quantidade de água que Pedra Talhada proporciona para toda a região exerce uma função-chave no abastecimento das barragens, da agricultura e das comunidades”, ressaltou.

O gestor lembra ainda que a recuperação de áreas degradadas permite que regiões antes devastadas voltem a cumprir funções ecológicas importantes, criando novos refúgios para fauna e flora nativas.

Mesmo com avanços recentes nos índices de preservação ambiental em Alagoas, Alex avalia que o estado ainda enfrenta desafios históricos relacionados ao uso do fogo, à caça ilegal e à captura de animais silvestres.

“As nascentes são áreas de preservação permanente. Elas garantem continuidade e qualidade da água captada e utilizada por nós”, explicou Alex Nazário do IMA/AL (Foto: Lucas França)



“A gente ainda percebe uma questão cultural muito forte ligada à caça, ao uso de gaiolas e à criação de animais silvestres em casa”, alertou.

Segundo ele, o fortalecimento da educação ambiental tem sido uma das ferramentas mais importantes para mudar essa realidade. O gerente defende que campanhas educativas, projetos socioambientais e acesso à informação precisam alcançar escolas, associações e comunidades de todo o estado.

“A informação existe e precisa ser incentivada. Hoje, até nos locais mais distantes, há acesso à comunicação. Precisamos fazer com que as pessoas estejam mais próximas dos órgãos ambientais e entendam a melhor forma de lidar com o meio ambiente”, afirmou.

Para Alex Nazário, iniciativas que unem conservação, educação e participação comunitária representam um dos caminhos mais eficientes para preservar o que resta da Mata Atlântica em Alagoas e construir uma relação mais equilibrada entre sociedade e natureza.