Maternidade sem culpa: o silêncio por trás da depressão pós-parto e das perdas gestacionais e neonatais

Ansiedade, depressão e sensação de culpa atingem milhares de mulheres e reforçam importância do acolhimento e do apoio psicológico

Por Lucas França - Repórter / Bruno Martins - Revisão / Ana Volpe - Agência Senado - Foto de capa | Redação Tribuna Hoje

A saúde mental materna tem ganhado cada vez mais destaque entre especialistas e instituições de saúde diante do aumento dos casos de ansiedade, depressão e outros transtornos emocionais durante a gravidez e no período pós-parto. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que uma em cada cinco mulheres no mundo enfrentará algum episódio de doença mental durante a gestação ou no primeiro ano após o nascimento do bebê.

Segundo a OMS, cerca de 20% das mulheres que desenvolvem transtornos mentais nesse período pode apresentar pensamentos suicidas ou comportamentos de automutilação, o que reforça a necessidade de acompanhamento especializado e fortalecimento das redes de apoio.

Pesquisas do World Maternal Health Day mostram ainda que muitas mães silenciam o sofrimento emocional. Aproximadamente 70% das mulheres escondem ou minimizam os sintomas, enquanto uma em cada cinco enfrenta transtornos de humor e ansiedade relacionados à maternidade.

No Brasil, o cenário também preocupa. Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Ministério da Saúde revelam que a depressão pós-parto atinge aproximadamente 25% das brasileiras. Entre os transtornos mais comuns estão ansiedade, depressão, síndrome do pânico, estresse pós-traumático, psicose pós-parto e fobias.

Unidade de referência para gestantes de alto risco trabalha com equipe multiprofissional

Na Maternidade Escola Santa Mônica (MESM), da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), o cuidado com a saúde emocional das mães faz parte da rotina da equipe multiprofissional, formada por psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e outros profissionais que atuam no acolhimento das pacientes e familiares.

De acordo com a psicóloga Regina Japiá, o nascimento de um bebê também representa o surgimento de uma nova mulher, que precisa ser acolhida emocionalmente durante esse processo de adaptação. Ela destaca que muitas vezes a sociedade concentra toda a atenção na criança e esquece das fragilidades emocionais enfrentadas pela mãe.

(Foto: Ascom MESM)
“O cuidado com a saúde mental precisa ser tratado como prioridade. A mulher necessita ser ouvida, acolhida e compreendida em suas vulnerabilidades”.
Regina Jupiá
Psicóloga da Maternidade Escola Santa Mônica

Entre as ações desenvolvidas pela unidade estão atendimentos individuais, rodas de conversa e orientação às famílias para identificação precoce de sinais de sofrimento emocional. Mudanças de humor, choro frequente, sensação de incapacidade, isolamento social, medo excessivo e tristeza persistente são alguns dos sintomas que merecem atenção.

A psicóloga alerta que é importante diferenciar as alterações emocionais comuns do pós-parto de quadros mais graves, como ansiedade intensa e depressão pós-parto. Segundo ela, o apoio familiar pode fazer diferença decisiva na recuperação da mulher e na prevenção de complicações mais severas.

ACOLHIMENTO

A experiência vivida pela mãe Rebeca de Souza Nicastro, de 30 anos, reforça a importância do acolhimento durante momentos delicados. Ela acompanhou a internação dos filhos gêmeos, Heitor e Henrique, nascidos prematuramente com 31 semanas de gestação, e descreveu o período na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal como um grande desafio emocional.

Rebeca afirmou que o suporte da equipe médica e psicológica ajudou a enfrentar a ansiedade e o medo durante a internação dos bebês. Segundo ela, receber explicações claras sobre cada etapa do tratamento e sentir-se acolhida fizeram diferença para atravessar o momento com mais tranquilidade.

Especialistas explicam que a depressão pós-parto pode surgir logo após o nascimento ou até meses depois. Entre os principais fatores relacionados ao problema estão alterações hormonais intensas, privação do sono, estresse, insegurança diante da nova rotina e histórico prévio de transtornos mentais.

Maternidade Escola Santa Mônica (Foto: Adailson Calheiros / Arquivo)

Embora mais frequente entre mulheres, o transtorno também pode atingir os homens, especialmente diante das mudanças emocionais e das novas responsabilidades familiares após a chegada do bebê.

O tratamento inclui acompanhamento psicológico, suporte psiquiátrico e, em alguns casos, uso de medicamentos antidepressivos. A participação da família e o fortalecimento da rede de apoio são considerados fundamentais para reduzir impactos emocionais e garantir qualidade de vida para os pais e para a criança.

Profissionais da saúde reforçam que buscar ajuda não deve ser motivo de vergonha. O diagnóstico precoce e o acolhimento adequado podem evitar agravamentos e fortalecer o vínculo afetivo entre mãe e bebê.

O acompanhamento psicológico e psiquiátrico, aliado ao uso de medicação, quando necessário, costuma apresentar resultados positivos.

Psiquiatra Igor Oliveira (Foto: Lucas França)

“Cuidar da saúde mental 

da mãe é cuidar do bebê”

O cuidado mental materno envolve ações voltadas à preservação do equilíbrio emocional da mulher, incluindo acompanhamento terapêutico, orientação psicológica, fortalecimento da rede de apoio e suporte especializado conforme a necessidade de cada paciente.

Especialistas destacam que cuidar da saúde mental da mãe também significa cuidar do bebê e de toda a estrutura familiar. O bem-estar emocional da mulher influencia diretamente o desenvolvimento infantil, o vínculo afetivo entre mãe e filho, além da relação conjugal e da dinâmica familiar.

Além de prevenir transtornos como ansiedade e depressão pós-parto, o suporte psicológico adequado pode proporcionar mais qualidade de vida durante a maternidade e reduzir impactos emocionais causados pelas mudanças dessa fase.

O psiquiatra Igor Oliveira alerta ainda para quadros mais graves relacionados ao puerpério, como a psicose puerperal, condição rara, mas considerada extremamente séria.

Segundo o especialista, o transtorno atinge cerca de 1% das mulheres no pós-parto e pode provocar sintomas psicóticos, alucinações e delírios, muitas vezes relacionados ao próprio bebê. “É uma condição muito mais grave que a depressão pós-parto e que pode comprometer a relação entre mãe e filho, além de colocar toda a família em situação de risco”, explicou.

O médico ressalta que o tratamento adequado é essencial para a recuperação da paciente e fortalecimento do vínculo familiar. O acompanhamento psicológico e psiquiátrico, aliado ao uso de medicação, quando necessário, costuma apresentar resultados positivos.

“Quando tratada corretamente, a paciente melhora, os sintomas desaparecem e a relação com o bebê pode ser reconstruída de forma saudável, trazendo mais qualidade de vida para toda a família”, destacou Igor Oliveira.

O psiquiatra reforça que mulheres grávidas ou que estejam vivenciando o pós-parto devem procurar ajuda especializada ao perceber sinais persistentes de tristeza, medo excessivo, isolamento, crises de ansiedade ou dificuldade de lidar com a nova rotina. O acolhimento precoce pode fazer diferença decisiva para a saúde da mãe, do bebê e de toda a família.

“É extremamente importante buscar ajuda a qualquer sinal de mudanças. A família também deve observar e acolher a mãe”.

No vídeo abaixo, Igor Oliveira explica a importância do apoio multiprofissional e familiar. Assista.


“Vi meu filho morrer nos meus braços”, desabafa mãe após perda de bebê prematuro

A dor da perda de um filho transformou para sempre a vida da dona de casa Andreyna Tuyla Belarmino dos Santos, 22 anos. Em um relato marcado pela tristeza, a jovem mãe relembra os momentos difíceis enfrentados desde o nascimento prematuro do bebê até a despedida que, segundo ela, foi o pior dia de sua vida.

Andreyna contou que entrou em trabalho de parto prematuro no início de janeiro. O bebê nasceu no dia 9, com apenas 36 semanas de gestação, e precisou ser internado imediatamente devido ao estado delicado de saúde.

Dias depois, o recém-nascido foi transferido de Palmeira dos índios, no Agreste alagoano, para a Maternidade Escola Santa Mônica, em Maceió, onde passou por uma cirurgia considerada de urgência pela equipe médica. A mãe afirma que o procedimento ocorreu bem e trouxe esperança para a família.

“Graças a Deus, a cirurgia deu certo. Depois de 15 dias ele acordou e ainda passou mais alguns dias na UTI antes de ir para a UCI [Unidade de Cuidados Intermediários] Neonatal”, relembrou Tuyla.

Mesmo diante das dificuldades, Andreyna acompanhava cada passo do tratamento do filho e descreve que pressentia o agravamento do quadro clínico. Ela declara que chegou a alertar profissionais de saúde sobre a fragilidade do bebê antes de um procedimento para colocação de acesso no pescoço.

No dia seguinte, o estado de saúde da criança piorou rapidamente. A mãe relembra, emocionada, a sequência de paradas cardíacas sofridas pelo filho dentro da unidade hospitalar. “Ele teve a primeira parada às 10 horas. Depois veio outra e mais outra. Meu bebê já estava ficando branquinho e gelado. Foi nesse momento que deixaram eu pegá-lo nos braços”, contou, emocionada.

O bebê morreu à meia-noite e 10 minutos. Andreyna descreve a perda como uma dor impossível de explicar. 

(Foto: Arquivo pessoal)


“Foi o pior dia da minha vida. É algo que eu nunca desejo que nenhuma mãe passe.
Ver seu filho morrendo nos seus braços acaba com qualquer pessoa”.

Andreyna Tuyla Belarmino dos Santos
Na foto, com o pequeno Dominic

Desde então, ela afirma enfrentar dias difíceis, marcados pelo sofrimento e pela saudade. “Passei noites e dias sem conseguir comer. A dor é muito grande”, declarou.

O relato da mãe também reacende o debate sobre a importância do acolhimento psicológico às famílias que enfrentam perdas neonatais, especialmente em situações de internação prolongada e tratamentos intensivos. Tuyla conta com o apoio de familiares e alguns amigos verdadeiros que acompanham de perto seu sofrimento. Segundo ela, as lembranças do filho Dominic, carinhosamente chamado de Dom, e este apoio são o que a impulsionam a seguir em frente. “Poucos sabem dessa luta interna, dessa dor, mas sigo em frente também pelo meu outro filho Davi, de apenas dois aninhos, que precisa de mim”.

“Perdi meu bebê com 12 dias de 

nascido”, relata mamãe de primeira viagem

Assim como Tuyla, a jovem Maria Vanessa Cavalcante da Silva, de 23 anos, transformou a dor da perda do pequeno Christian em um relato emocionante sobre amor, esperança e despedida. Mamãe de primeira viagem, ela relembra com tristeza os poucos dias que viveu ao lado do filho.

Christian nasceu no dia 26 de janeiro de 2026, em Arapiraca. Segundo Vanessa, aquele foi o momento em que conheceu “o verdadeiro amor”. Porém, poucos dias após o nascimento, os médicos identificaram um problema no coração do bebê, que precisou ser transferido para a unidade neonatal do Hospital de Emergência do Agreste.

Com o agravamento do quadro, o recém-nascido foi encaminhado para a Maternidade Escola Santa Mônica, em busca de tratamento especializado e de uma vaga para cirurgia cardíaca, que precisaria ser realizada fora de Alagoas, em São Paulo ou Recife.

Enquanto aguardava transferência e novos exames, a família mantinha a esperança na recuperação do bebê. No entanto, Christian sofreu uma grave crise de saúde antes de conseguir realizar o procedimento. Na sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026, o bebê morreu aos 12 dias de vida.


“Não tem explicação para a dor que senti ao ver ele naquela situação.
É desesperador, dói a alma”

Maria Vanessa Cavalcante da Silva
Com o filho Christian

MAIO FURTA-COR E A SAÚDE MATERNA

  • O Maio Furta-Cor é uma campanha nacional voltada à conscientização sobre a saúde mental materna. O movimento reforça a importância do cuidado emocional das mulheres durante a gestação, o pós-parto e toda a maternidade. O nome “furta-cor” representa as diferentes emoções e desafios vividos pelas mães, mostrando que a maternidade real vai muito além da imagem perfeita apresentada nas redes sociais.
  • Em 2026, o Dia Mundial da Saúde Mental Materna será celebrado em 6 de maio. A Semana de Conscientização sobre Saúde Mental Materna é organizada pela Perinatal Mental Health Partnership UK (PMHP UK), grupo formado por profissionais da saúde e famílias com experiência no tema.

Diferença entre baby blues 

e depressão pós-parto

O baby blues é caracterizado por tristeza leve e passageira após o parto e a depressão pós-parto é a condição mais intensa e duradoura que pode afetar a rotina da mãe e o vínculo com o bebê.

Lei fortalece apoio à saúde 

mental de gestantes e puérperas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou em 9 de novembro de 2023 a Lei 14.721, que torna obrigatória a realização de ações de conscientização sobre saúde mental em hospitais e unidades de saúde públicas e privadas que atendem gestantes e mulheres no pós-parto. A nova regra foi publicada no Diário Oficial da União e já está em vigor.

A proposta teve origem no Projeto de Lei 130/2019, apresentado pela deputada Renata Abreu e relatado no Senado pela senadora Zenaide Maia. Segundo a parlamentar, muitas mulheres enfrentam ansiedade, depressão e outros transtornos durante a gravidez e após o parto, principalmente em situações de violência doméstica, dificuldades financeiras ou falta de apoio familiar.

A legislação também determina que o acompanhamento psicológico no Sistema Único de Saúde (SUS) seja iniciado ainda no pré-natal, após avaliação de profissionais da saúde. A medida altera o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e busca ampliar o cuidado emocional das mães durante toda a gestação e o período pós-parto.

Lei do Luto Parental

Entre os avanços recentes está a criação da Lei nº 15.139, conhecida como Lei do Luto Parental, sancionada em 2025. A norma institui a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental e garante direitos como acolhimento psicológico, espaços reservados para atendimento às famílias, direito ao registro civil de natimortos e capacitação de profissionais da saúde para lidar com situações de perda.

Outubro Azul e Rosa dá visibilidade 

ao luto gestacional e neonatal

Além da depressão pós-parto, outro tema que deve ser debatido e que afeta consideravelmente a saúde da mãe são as perdas gestacionais e neonatais. Elas seguem sendo algumas das dores mais silenciosas enfrentadas por milhares de famílias brasileiras. Além do impacto emocional causado pela perda do bebê durante a gestação, no parto ou nos primeiros dias de vida, especialistas alertam para a necessidade de acompanhamento psicológico e acolhimento humanizado às mães e familiares.

A campanha Outubro Azul e Rosa surgiu justamente para ampliar o debate sobre o luto parental e reforçar a importância da assistência emocional e multidisciplinar às famílias enlutadas. Em Alagoas, a iniciativa ganhou força dentro da Maternidade Escola Santa Mônica, onde profissionais de saúde passaram a desenvolver ações de conscientização e apoio desde 2020.

Maternidade Escola Santa Mônica realiza reflexão durante o Outubro Azul e Rosa (Foto: Ascom MESM)

Segundo especialistas, o cuidado emocional nesse momento delicado é tão importante quanto o atendimento clínico. A psicóloga da unidade destaca que, em muitos casos, os profissionais de saúde são os primeiros a acolher os pais após a confirmação da perda.

“É fundamental que toda a equipe esteja preparada para oferecer uma assistência adequada diante dos abortamentos, natimortos e perdas neonatais. O cuidado precisa ser humanizado e respeitoso para minimizar ainda mais o sofrimento dessas famílias”, ressaltou Regina Japiá.

Dados apontam que as perdas neonatais ainda representam um desafio de saúde pública em Alagoas. Parte significativa dos óbitos ocorre nas primeiras 24 horas de vida, especialmente em regiões como Maceió e Arapiraca. Diante desse cenário, o estado passou a fortalecer políticas públicas voltadas à humanização do luto parental e à redução da mortalidade infantil.

Unidades de referência

Em Alagoas, unidades como a Maternidade Escola Santa Mônica, o Hospital Universitário Professor Alberto Antunes e a Santa Casa de Maceió atuam como referências no atendimento de gestações de alto risco e no acolhimento de famílias que enfrentam perdas gestacionais e neonatais.

A fisioterapeuta Anna Grace, uma das idealizadoras da campanha, explica que o objetivo é conscientizar profissionais e sociedade sobre a necessidade de empatia diante dessas perdas. “Precisamos entender que o apoio emocional faz diferença para que essas famílias consigam atravessar esse momento de forma mais acolhida e respeitosa”, afirmou.

Especialistas destacam ainda que o silêncio em torno das perdas gestacionais e neonatais costuma intensificar o sofrimento emocional dos pais. Por isso, campanhas como o Outubro Azul e Rosa buscam transformar o luto invisível em uma pauta de saúde pública, fortalecendo redes de apoio e incentivando um atendimento mais humano e sensível.

SMS de Maceió reforça pré-natal e apoio psicológico para prevenir perdas gestacionais

A prevenção de perdas gestacionais e o cuidado integral à saúde da gestante fazem parte dos protocolos adotados pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Maceió em toda a rede de atenção básica do município. Segundo a pasta, o acompanhamento pré-natal é realizado em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da capital e segue protocolos voltados à identificação precoce de fatores de risco que possam comprometer a gravidez.

De acordo com a Secretaria, durante o pré-natal são realizados exames de rotina capazes de detectar doenças, infecções e outras condições que podem aumentar os riscos de perdas gestacionais, como hipertensão, diabetes e alterações clínicas da gestante. Além do acompanhamento médico, as pacientes recebem orientações sobre hábitos saudáveis, alimentação adequada, prática de exercícios físicos e cuidados necessários para uma gestação segura.

A SMS informou ainda que mulheres com histórico de aborto espontâneo ou óbito fetal recebem atenção especial das equipes de saúde. Nesses casos, o acompanhamento é intensificado e, quando necessário, são realizados encaminhamentos para atendimento especializado, seguindo os protocolos preconizados para o pré-natal de risco habitual e de alto risco.

Exames realizados durante o pré-natal auxiliam na identificação de possíveis fatores (Foto: Lucas França)

As ações educativas também fazem parte das estratégias adotadas pelo município. Segundo a pasta, atividades de conscientização são promovidas pelas equipes da Estratégia Saúde da Família e pelas UBSs, abordando temas como exames preventivos, sinais de alerta durante a gravidez, importância do acompanhamento médico regular e incentivo à amamentação.

Sobre a investigação de perdas gestacionais anteriores, a Secretaria explicou que os exames realizados durante o pré-natal auxiliam na identificação de possíveis fatores relacionados ao histórico da paciente. O acolhimento individualizado também é apontado como parte importante do atendimento. Apesar disso, a SMS destaca que nem todas as perdas apresentam causas identificáveis previamente.

A rede municipal também oferece suporte psicológico para mulheres e familiares que enfrentaram perdas gestacionais. O acompanhamento é disponibilizado nas unidades de saúde, garantindo acolhimento emocional tanto no período do luto quanto em futuras gestações.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o objetivo é assegurar que as mulheres recebam assistência contínua, humanizada e acompanhamento adequado desde o início da gravidez até o pós-parto, fortalecendo a prevenção e os cuidados com a saúde materna e fetal.

Pesquisa alerta para risco de suicídio e surtos psicóticos em mães no pós-parto

Um estudo desenvolvido pela enfermeira Kallyne Ellen Lopes Silva revelou um aumento no número de mulheres diagnosticadas com transtornos mentais e comportamentais durante o puerpério em Arapiraca, no Agreste alagoano. A pesquisa, apresentada em 2022 como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), analisou casos de depressão pós-parto (DPP) e psicose puerperal registrados no município ao longo da última década.

O trabalho teve como objetivo identificar os fatores relacionados ao surgimento desses transtornos em mulheres atendidas nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) Nise da Silveira e Álcool e Outras Drogas. A coleta de dados ocorreu entre agosto e novembro de 2021, por meio da análise de prontuários de pacientes acompanhadas pelos serviços especializados.

Segundo a pesquisa, os transtornos mentais no período pós-parto ainda recebem pouca atenção, apesar de representarem um importante problema de saúde pública. A falta de informação sobre os sintomas e a dificuldade no diagnóstico contribuem para que muitos casos não sejam reconhecidos precocemente.

Entre as mulheres diagnosticadas com depressão pós-parto, os sintomas mais frequentes foram tristeza intensa, choro constante, irritabilidade e medo. Já nos casos de psicose puerperal, destacaram-se manifestações como ideação suicida, oscilações de humor, delírios, alucinações, ansiedade e agitação psicomotora.

Para Kallyne Ellen Lopes Silva, a identificação precoce dos sinais de sofrimento psíquico é fundamental para reduzir os impactos dos transtornos no período pós-parto. “Muitas mulheres acabam enfrentando esses sintomas em silêncio, seja por desconhecimento, medo ou até pela dificuldade de acesso ao diagnóstico. Isso pode atrasar o início do tratamento e agravar o quadro clínico”, destacou a pesquisadora.

A pesquisa também identificou fatores que podem aumentar o risco para o desenvolvimento dessas condições, entre eles a baixa condição socioeconômica, histórico de eventos traumáticos anteriores à gestação, como abortos, além do uso de substâncias lícitas e ilícitas. Em um dos casos analisados, houve agravamento do quadro de depressão pós-parto após a infecção por Covid-19.

De acordo com o levantamento, as consequências dos transtornos podem afetar diretamente a saúde da mãe e da criança, aumentando o risco de desmame precoce, surtos psicóticos, tentativas de suicídio e, em situações extremas, infanticídio.

A enfermeira também ressaltou a importância do acompanhamento multiprofissional e da rede de apoio familiar durante o puerpério. “O cuidado com a saúde mental da mulher deve começar ainda no pré-natal e se estender após o nascimento do bebê. O acolhimento adequado e a atuação integrada dos serviços de saúde são fundamentais para prevenir complicações e garantir o bem-estar da mãe e da criança”, afirmou.

Para a autora, os resultados reforçam a necessidade de ampliar as políticas públicas voltadas à saúde mental materna, fortalecer as redes de apoio e investir na capacitação dos profissionais para identificação precoce dos sintomas.

O estudo também destaca a importância do acompanhamento realizado pela Enfermagem desde o pré-natal até o período pós-parto, além de incentivar a busca por atendimento especializado sempre que houver sinais de sofrimento emocional.

A pesquisa oferece subsídios para futuras investigações sobre o tema e busca ampliar a conscientização da população sobre a gravidade da depressão pós-parto e da psicose puerperal, contribuindo para a proteção da saúde de mães e bebês em Arapiraca