Vidas interrompidas pela violência doméstica em Alagoas
Feminicídios no estado expõem destruição de famílias e sonhos, com oito mulheres assassinadas nos três primeiros meses de 2026
Por Lucas França e Valdete Calheiros - Repórteres / Bruno Martins - Revisão / Agência Brasil - Foto de capa | Redação Tribuna Hoje
O ano de 2026 começou em Alagoas marcado por uma série de feminicídios que expõem a violência dentro de relações afetivas e ambientes domésticos. Cada caso revela histórias interrompidas, sonhos e rotinas devastadas por atos de extrema violência. Em apenas três meses, oito mulheres perderam a vida, segundo dados da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Sinesp), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Quatro casos ocorreram na região metropolitana de Maceió e os outros quatro nos municípios de Arapiraca, Igreja Nova, São Brás e São Miguel dos Campos.
Em 8 de janeiro de 2026, no município de Rio Largo, região metropolitana de Maceió, uma mulher foi morta a golpes de faca pelo namorado após uma discussão motivada por ciúmes. Testemunhas relataram que o casal discutia enquanto passeava, quando o agressor sacou a arma branca e desferiu vários golpes. “Era uma jovem tranquila, alegre… ninguém imaginava que isso pudesse acontecer”, contou uma vizinha, emocionada.
No dia 9 de janeiro, em Maceió, Dayane Alves Pereira Silva foi mais uma vítima deste tipo de crime. Ela foi assassinada com quatro facadas pelo ex-companheiro após um encontro. O suspeito se apresentou voluntariamente à polícia e confessou o crime, afirmando ciúmes e desconfiança como motivação.

Em dia 8 de março, em São Miguel dos Campos, Marileide Lopes da Silva, de 42 anos, foi morta pelo ex-companheiro, que após estrangulá-la com uma corda, levou o corpo a um canavial e ateou fogo.
Estas são algumas das oito vítimas mortas confirmados pelos órgãos de segurança neste início de ano. Um possível nono caso está sendo investigado em São Miguel dos Campos.
Registros destes crimes no estado
também aconteceram em 2025
No interior de Alagoas, também houve registros de feminicídios. No dia 10 de março, em Cajueiro, na Zona da Mata, Jusineia dos Santos foi encontrada dentro de casa com múltiplos ferimentos de arma branca. Segundo familiares, ela tinha vivido um relacionamento abusivo e já havia sofrido agressões anteriores. “Ela sempre tentava recomeçar, mas o medo nunca a abandonava. Perder Jusineia foi como perder uma parte da nossa família”, lamentou uma tia da vítima. Os vizinhos ficaram chocados com a brutalidade do crime, já que além dos golpes de faca, a vítima teve uma das pernas quebradas.
Em Maceió, no dia 22 de agosto, Roseane Tenório dos Santos Jerônimo, de 39 anos, foi morta com nove golpes de faca por um ex-companheiro durante um encontro marcado sob o pretexto de devolver uma aliança. Erick Lucas da Silva, assassino confesso, já possuía histórico de agressões e violência doméstica.
Em 9 de dezembro, Maria Gracieli dos Santos, de 26 anos, foi morta na própria cama, atingida por dois tiros, na cidade de Coruripe, no Litoral Sul do estado. Ela havia se mudado recentemente para a casa da irmã, fugindo de ameaças do ex-companheiro. “Ela queria recomeçar, viver em paz. Não entendemos como alguém pode fazer isso”, disse a irmã, em lágrimas. A vítima tinha vindo de Pernambuco para fugir das ameaças.
Em 13 de dezembro, em Penedo, a enfermeira Ana Beatriz Cavalcante, de 29 anos, foi morta a tiros dentro da residência onde vivia com o companheiro, um policial militar. Ana Beatriz era reconhecida por sua dedicação à profissão e aos pacientes, além de ser filha de um empresário respeitado na região. “Ela cuidava de todos, e ninguém cuidou dela”, lamentou um colega de trabalho.

Elas fazem parte da estatística daquele ano, que aponta pelo menos 29 casos de feminicídio. Este número representa um aumento de aproximadamente 31,8% em relação ao ano de 2024, quando foram registrados 22 casos no estado.
ATENDIMENTOS DO SAMU
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) atendeu, em média, 20 casos de violência doméstica contra mulheres por mês em Alagoas em 2025 — um total de 215 registros entre janeiro e novembro de 2025, segundo levantamento das Centrais de Maceió e Arapiraca.
Para a jornalista e coordenadora do Movimento de Mulheres Olga Benário, Lenilda Luna, a violência contra a mulher no Brasil tem se intensificado por conta de uma cultura de ódio e misoginia que está sendo aberta e organizada. Ela observa que esse recrudescimento não se limita a atos individuais, mas é fomentado por discursos e encontros em grupos de masculinismo, cursos e plataformas de internet, criando um cenário de violência cada vez mais agressivo e visível. Para Lenilda, isso demonstra a necessidade de políticas públicas, educação e debate social constante sobre o respeito às mulheres, onde quer que estejam.

“Antes esses misóginos se mantinham no anonimato, mas agora se sentem encorajados a propagar publicamente o ódio contra as mulheres, seja em redes sociais, canais de vídeo ou encontros presenciais. Isso alimenta uma cultura de violência que se reflete diretamente em agressões e mortes e por isso é urgente enfrentar a misoginia com leis, educação e políticas públicas consistentes”, pontuou Luna.
Lenilda também destacou o papel da internet nesse fenômeno. Segundo levantamento do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mais de 120 canais ativos no YouTube propagam conteúdos contra mulheres, reunindo cerca de 23 milhões de inscritos e mais de 130 mil vídeos. “Ideologias como redpill e incel foram alimentadas por líderes políticos de destaque e hoje esses misóginos se sentem encorajados a difundir o ódio publicamente, antes restrito ao anonimato, reforçando a urgência de medidas legais e sociais contra a misoginia. Combater a violência não se limita a medidas isoladas, como vagões exclusivos ou ônibus só para mulheres, mas exige debate amplo na sociedade sobre respeito e igualdade, em todos os espaços — igrejas, partidos políticos e escolas — para transformar a raiz desse problema”, finalizou Lenilda.
'Há uma necessidade de dar uma atenção diferenciada e estruturar mecanismos que garantam assistência à mulher e interrompam a escalada da violência', afirmou a promotora de Justiça Ariadne Dantas Meneses.
(Foto: Freepik / Ilustração)
Todos os indicadores de violência
contra a mulher mostram crescimento
Conforme dados do Disque 100, atualizados até 27 de abril de 2026, Alagoas registrou 181 protocolos de denúncias, número que representa a quantidade de vezes em que usuários acionaram a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH) para relatar situações de violência contra a mulher. Um único protocolo pode reunir uma ou mais denúncias.
No mesmo período, o sistema contabilizou ainda 247 denúncias, envolvendo vítimas e suspeitos, além de 1.323 violações de direitos humanos, que correspondem a diferentes formas de agressão, como maus-tratos, exploração e outras práticas que ferem direitos fundamentais.
Quando comparado ao ano de 2025, o cenário mostra oscilações importantes. Em Alagoas, naquele ano, foram registrados 604 protocolos de denúncias, 850 denúncias e 4.646 violações, indicando um volume significativamente maior de registros ao longo do período anterior. Em nível nacional, o Brasil contabilizou em 2025 um total de 49.950 protocolos, 72.499 denúncias e 491.404 violações, evidenciando a dimensão do problema em todo o país.
Já em 2026, até o mês de abril, os dados nacionais apontam 17.967 protocolos de denúncias, 25.673 denúncias e 142.525 violações, números que, embora referentes a um recorte parcial do ano, mostram a continuidade das notificações em escala elevada, ainda que inferiores ao acumulado anual de 2025.
No recorte específico do Ligue 180, canal de atendimento à violência contra a mulher, o primeiro trimestre de 2026 registrou em todo o Brasil 43.003 atendimentos, 45.735 denúncias e 249.126 violações, sendo que 17.949 dessas ocorrências aconteceram dentro da residência da vítima, reforçando o ambiente doméstico como principal cenário da violência.
Em Alagoas, até o mesmo período analisado, já foram contabilizadas 440 denúncias pelo Ligue 180, demonstrando a permanência das ocorrências no estado.

Poder Judiciário concede quase duas
mil medidas protetivas em 4 meses
Os números da violência contra a mulher pesam na mesa do Poder Judiciário em Alagoas. No ano passado, foram concedidas 4.481 medidas protetivas. A quantidade é superior aos anos de 2024 e 2023, quando foram concedidas, respectivamente, 4.472 e 3.740. Apenas nos quatro primeiros meses de 2026 já são 1.873 medidas protetivas concedidas pelo Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL).
No TJ/AL, no ano passado, foram abertos 3.892 novos processos sobre violência contra a mulher. A quantidade é superior aos novos processos abertos em 2024 e 2023 quando, respectivamente, a Justiça alagoana abriu 3.892 e 2.418 novos processos.
Muitas dessas vítimas dependem da Defensoria Pública de Alagoas. O órgão explicou que acompanha todas as mulheres em situação de violência doméstica e familiar, independentemente de já terem feito a denúncia ou não.
A Defensoria presta orientações jurídicas sobre como realizar a denúncia — explicando o porquê, onde e de que forma registrar, além de orientar sobre provas e demais diligências necessárias. No caso de a mulher já ter feito o registro, o órgão realiza todo o acompanhamento do trâmite da denúncia em juízo, participando inclusive das audiências ao lado das vítimas.
O pedido de medida protetiva, caso a mulher ainda não o tenha feito, é realizado pela Defensoria Pública. A partir da solicitação, o órgão também apresenta os requerimentos necessários para a salvaguarda dos direitos da mulher e para a garantia de sua integridade.
“Também fazemos a comunicação e pedidos de providências judiciais em razão de descumprimentos dessas medidas. Além disso, fazemos orientações a respeito das demandas de família e protocolamos as petições iniciais pertinentes junto às varas de família”, detalhou a Defensoria.

SECRETARIA DA MULHER
No âmbito do executivo, a Secretaria de Estado da Mulher (Semu) esclareceu que atua em diversas frentes para conter o avanço do feminicídio e da violência contra a mulher em Alagoas, além de atender as vítimas em situação de vulnerabilidade pelos serviços do Centro Especializado de Atendimento à Mulher (Ceam) Jarede Viana, oferecendo ajuda psicológica, jurídica e assistencial.
A pasta é responsável pelo Alagoas Lilás, programa pioneiro do governo do estado, em parceria com os institutos Natura e Geni, que é a primeira política pública estadual permanente do Brasil voltada ao enfrentamento da violência doméstica contra a mulher.
A iniciativa tem como objetivo fortalecer a rede de proteção, humanizar o acolhimento, reduzir os casos de feminicídio e integrar os 102 municípios alagoanos.
Conforme a Semu, em março, Mês da Mulher, as ações do percurso formativo territorial do Alagoas Lilás alcançaram 47 municípios em nove eventos realizados. E as ações continuaram em abril, quando o percurso chegou a Maceió, Coruripe e Pilar.
“Além disso, a equipe multidisciplinar do Ceam realiza palestras em escolas públicas para conscientizar as crianças e adolescentes sobre o enfrentamento à violência contra a mulher. A Semu é parceira da segurança pública do estado, com contatos e articulações interinstitucionais com a Delegacia da Mulher e com os militares da Patrulha Maria da Penha”, resumiu a secretaria.
Ainda de acordo com a Semu, a equipe do Ceam está sempre a postos para receber e atender mulheres vítimas de violência que procuram o centro de atendimento após serem encaminhadas ao registrarem boletim de ocorrência na delegacia. O atendimento também pode ocorrer por demanda espontânea.
“E ainda existe a parceria com a ONU-Habitat, que fortalece a política do Alagoas Lilás por meio de atividades que combinam rodas de conversa, leitura do território e construção de propostas”, acrescentou a pasta.
LEI MARIA DA PENHA
- A pena para violência contra a mulher no país varia conforme o tipo e a gravidade do crime, com a Lei Maria da Penha e a Lei nº 14.994/2024 (a nova lei contra feminicídio e violência de gênero) prevendo penas mais rigorosas.
- O feminicídio pode levar a penas de 20 a 40 anos, enquanto outros crimes como lesão corporal em contexto de violência doméstica e ameaça podem ter penas agravadas, por exemplo, para dois a cinco anos de reclusão.
MUDANÇA NA LEI
Em outubro do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou um projeto de lei que aumentou as penas para feminicídio e outros crimes cometidos contra mulheres.
A nova legislação estabelece pena mínima de 20 anos e máxima de 40 anos para o assassinato de mulheres motivado por violência doméstica ou discriminação de gênero. Antes, a pena prevista variava de 12 a 30 anos.
As penas também podem ser aumentadas em um terço se a vítima estiver grávida ou até três meses após o parto, bem como nos casos em que a vítima tenha menos de 14 anos ou mais de 60 anos.
O aumento de um terço também se aplica quando o crime for cometido na presença de filhos ou dos pais da vítima.
OAB Alagoas intensifica ações no
combate à violência contra a mulher
Edâmara Araújo, presidente da Comissão Especial da Mulher da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Alagoas (OAB/AL), reforça o compromisso da entidade no enfrentamento à violência de gênero em Alagoas, especialmente diante do aumento alarmante dos casos de feminicídio. Sob sua liderança, a Comissão promove ações variadas e integradas, que incluem rodas de conversa, palestras educativas e campanhas de conscientização, voltadas tanto para informar a população sobre os direitos das mulheres quanto para mobilizar a sociedade em torno do tema. Além disso, a Comissão oferece orientação jurídica e social às vítimas, atuando como intermediária junto à rede de proteção.
“Entre as iniciativas destacadas pela Comissão estão o Projeto Recomeçar, que promove capacitação profissional para mulheres em situação de vulnerabilidade; o programa OAB nas Escolas, voltado à educação sobre direitos e prevenção da violência entre crianças e adolescentes; e a ação OAB por Elas – Olhares que Protegem, que realiza mapeamento da rede de proteção para assegurar um acolhimento direcionado às necessidades das mulheres. A cada dia 25, a campanha Dia LARANJA, em parceria com a Fecomércio, reforça a conscientização sobre a prevenção e o enfrentamento da violência contra meninas e mulheres”, pontuou Edâmara.

Araújo ressaltou ainda a importância do trabalho articulado com outros órgãos e instituições competentes, garantindo apoio, acolhimento e orientação jurídica às vítimas. “A OAB/AL, através da Comissão Especial da Mulher, se dedica não apenas ao atendimento emergencial, mas também à prevenção e erradicação da violência de gênero, reforçando o fortalecimento das políticas públicas e o compromisso contínuo com a proteção dos direitos das mulheres”.
Ministério Público estadual aumenta
ações contra a violência à mulher
O Ministério Público do Estado de Alagoas (MP/AL) tem ampliado suas ações no enfrentamento à violência contra a mulher, diante do aumento dos casos registrados nos últimos anos. De acordo com a promotora Dra. Ariadne Dantas Meneses, coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher (Nudemp), desde 2024 vêm sendo realizadas audiências públicas em diversas regiões do estado com o objetivo de conscientizar gestores e fortalecer a rede de proteção. “Há uma necessidade de dar uma atenção diferenciada e estruturar mecanismos que garantam assistência à mulher e interrompam a escalada da violência”, destacou.
Além das audiências, o MP/AL também investe em campanhas educativas e na atuação direta dos promotores nas comarcas. Segundo a coordenadora, esse trabalho ocorre por meio de palestras, reuniões e encontros com a população. “Outro destaque é um projeto voltado à área da educação, que busca inserir nas escolas conteúdos relacionados aos direitos das mulheres e ao combate à violência. A iniciativa pretende contribuir para mudanças culturais e sociais a longo prazo”.

A promotora ressaltou ainda que o órgão tem papel essencial dentro da rede de proteção, atuando tanto na fiscalização quanto na execução de medidas legais. “O Ministério Público está presente em todos os processos, podendo requerer medidas protetivas, prisão em caso de descumprimento e acesso a serviços públicos de saúde e assistência social”, explicou. “Em algumas situações, o órgão também pode solicitar o acolhimento da vítima em local seguro”, pontuou a promotora.
Em relação ao crescimento na quantidade de casos, a coordenadora do Nudemp considera que o aumento se deu pela disseminação de informações. Confira o áudio abaixo:
O Nudemp atua de forma integrada com instituições públicas e privadas, promovendo estudos, eventos e acompanhamento de políticas públicas voltadas aos direitos das mulheres. Entre suas atribuições estão o incentivo à participação social, políticas públicas e mudanças legislativas e o fortalecimento do diálogo entre o Ministério Público e a população, ampliando o acesso à informação e à proteção.
Operações nacionais geram 195 prisões
por violência contra mulheres em Alagoas
Entre fevereiro e março de 2026, 195 pessoas foram presas em Alagoas durante operações nacionais voltadas ao combate da violência contra mulheres e meninas. As prisões ocorreram no âmbito da Operação Mulher Segura, conduzida em parceria com secretarias estaduais de segurança, e da Operação Alerta Lilás II, realizada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Na Operação Mulher Segura, realizada entre 19 de fevereiro e 5 de março, 192 suspeitos foram detidos, enquanto a Alerta Lilás II, que ocorreu de 9 de fevereiro a 5 de março, resultou em três prisões no estado, todas relacionadas a mandados judiciais por crimes de violência de gênero.
Essas iniciativas integram o Pacto Brasil entre os Três Poderes, que visa prevenir o feminicídio, proteger vítimas e responsabilizar agressores por meio da cooperação entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

IMPACTO NACIONAL
No país, as operações resultaram na prisão de 5.238 pessoas. Na Mulher Segura, 4.936 suspeitos foram detidos, sendo 3.199 em flagrante e 1.737 por mandados judiciais. Já a Alerta Lilás II registrou 302 prisões em todo o território nacional.
Coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, a Mulher Segura mobilizou 38.564 agentes, 14.796 viaturas e 42.339 diligências em 2.050 municípios. Foram acompanhadas 18.002 medidas protetivas de urgência e 24.337 vítimas receberam atendimento. Além disso, campanhas de conscientização alcançaram cerca de 2,2 milhões de pessoas.
ESTRUTURA DE PREVENÇÃO
A Alerta Lilás II, considerada a maior ação da PRF voltada à proteção de mulheres, combinou fiscalização e inteligência, resultando em 39,4% das prisões com base em dados de investigação e 60,6% em flagrantes.
O plano de trabalho do Pacto Brasil inclui mutirões de cumprimento de mandados de prisão, fortalecimento da rede de acolhimento, monitoramento de medidas protetivas e criação de centros integrados de atendimento a mulheres, além de unidades móveis e iniciativas educativas.
Com essas medidas, o governo busca intensificar a prevenção da violência de gênero e garantir maior proteção e Justiça para vítimas em todo o país.
Em todo o país, maioria dos
casos acontece dentro de casa
Em 2025, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, serviço do Ministério das Mulheres, contabilizou 1.088.900 atendimentos, uma média de quase 3 mil por dia, o que representa um aumento de 45% em relação ao ano anterior. Desses contatos, 155.111 foram denúncias de violência contra mulheres, 17,4% a mais do que em 2024, com uma média diária de 425 ocorrências.
O levantamento aponta que a maior parte das agressões ocorre dentro de casa, sendo 40,76% na residência da vítima e 28,58% na casa compartilhada com o agressor. Outros ambientes, como vias públicas e o espaço virtual, registraram menos de 3% das denúncias cada.
As vítimas que mais recorreram ao Ligue 180 em 2025 tinham entre 26 e 44 anos, representando 37,19% dos casos, e mulheres negras foram as mais afetadas, com 43,16% das denúncias registradas. Entre os tipos de violência, a psicológica lidera, respondendo por quase metade dos registros, seguida da física, sexual e patrimonial.
A violência vicária, quando terceiros são usados para atingir psicologicamente a vítima, registrou 7.064 casos em 2025, e já mostra aumento em 2026. Em abril, o presidente sancionou a Lei 15.384/2026, tipificando o crime de vicaricídio e elevando-o à categoria de crime hediondo.
Regionalmente, o Sudeste concentrou 47,4% das denúncias, seguido pelo Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Norte. Entre os estados, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais lideraram os registros.
O Ministério das Mulheres reforça que pedidos de ajuda e denúncias podem ser feitos pelo Ligue 180, disponível 24 horas por dia, também pelo WhatsApp, e em delegacias especializadas, Casas da Mulher Brasileira, Disque 100 e Polícia Militar.
Feminicídio atinge toda
família, ressalta psiquiatra
Na avaliação do psiquiatra e psicogeriatra Gustavo Omena, a violência contra a mulher e, de forma extrema, o feminicídio, não atinge apenas uma pessoa. Ela desorganiza famílias inteiras e deixa marcas que atravessam gerações.
“Quando uma mulher vive em um contexto de violência (seja física, psicológica, sexual ou patrimonial), o ambiente ao redor deixa de ser previsível e seguro. Para uma criança, isso é especialmente grave. O cérebro em desenvolvimento precisa de estabilidade para amadurecer de forma saudável. Em ambientes marcados por medo, tensão e imprevisibilidade, há alterações em circuitos ligados ao estresse, à regulação emocional e à memória. Isso aumenta o risco, no futuro, de ansiedade, depressão, transtorno do estresse pós-traumático, abuso de substâncias e dificuldades nos vínculos afetivos”, esclareceu.
De acordo com Gustavo Omena, há também um fenômeno importante: a repetição de padrões. Crianças que crescem em ambientes violentos podem, na vida adulta, se envolver mais frequentemente em relações abusivas, seja como vítimas, seja reproduzindo comportamentos agressivos.
“Não se trata de escolha consciente, mas de um mecanismo do cérebro que tende a buscar aquilo que lhe é familiar, mesmo que seja doloroso. É o ciclo da violência”, salientou.

Ainda conforme o psiquiatra, no caso do feminicídio, o impacto é devastador. A morte de uma mulher nessas circunstâncias não representa apenas a perda de uma vida, ela rompe a estrutura emocional, econômica e afetiva de toda a família. Filhos, parentes e pessoas próximas frequentemente desenvolvem sintomas de trauma: pesadelos, mudanças bruscas de comportamento, ansiedade intensa, depressão e até risco aumentado de suicídio, mesmo quando não presenciaram diretamente o crime.
“Em escala social, esses efeitos se acumulam. Estamos falando de um problema de saúde pública. A violência contra a mulher aumenta a demanda por serviços de saúde mental, compromete o desenvolvimento de crianças, perpetua ciclos de sofrimento e impacta diretamente a produtividade, a educação e a qualidade de vida de uma sociedade inteira”.
Portanto, acrescentou Gustavo Omena, enfrentar o feminicídio e a violência de gênero não é apenas uma questão de Justiça, é uma necessidade urgente de proteção da saúde mental coletiva. Cada mulher protegida é também uma infância preservada, uma família que não se rompe e um futuro que se torna mais saudável para todos.
VEJA COMO DENUNCIAR CASOS DE VIOLÊNCIA
Ligue 190: Em caso de perigo iminente, a ligação para a Polícia Militar pode ser feita como se fosse um pedido de delivery, uma forma discreta de pedir socorro.
Ligue 180: A Central de Atendimento à Mulher funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. A ligação é gratuita e o serviço orienta sobre direitos, legislação e encaminha denúncias aos órgãos competentes e atende ainda pelo WhatsApp (61) 99610-0180.
Disque 100: Canal de denúncias de violações de direitos humanos, também gratuito e anônimo.
Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam): realizam ações de prevenção, apuração e enquadramento legal. É possível solicitar medidas protetivas de urgência. Em Alagoas, há três unidades:
1ª Delegacia da Mulher (Maceió): Complexo de Delegacias Especializadas, Mangabeiras. Funciona 24 horas. Telefone: (82) 3315-4976.
2ª Delegacia da Mulher (Maceió): Rua Antônio Souza Braga, Conjunto Salvador Lyra, Tabuleiro do Martins. Funciona das 8h às 18h. Telefone: (82) 3315-4327.
Delegacia da Mulher de Arapiraca: Rua São Domingos, Centro. Funciona das 8h às 18h. Telefone: (82) 3521-6318.
Delegacias comuns: Em municípios onde não há Deam, a vítima deve procurar qualquer delegacia de polícia.


