Boom do turismo expande negócios na Costa dos Corais alagoana

Empreendimentos de iniciativa pública e privada ganham incrementos significativos e ajudam a desenvolver o setor; somente o BNB destinou R$ 268 milhões de créditos para a região em 2025, um crescimento de 1.240%

Por Valdirene Leão - repórter / Bruno Martins - revisão / Foto de capa: Lucas Meneses - Ascom Setur | Redação Tribuna Hoje

O Litoral Norte de Alagoas se consolida como destino de destaque. A cada ano, a região tem registrado aumento no número de visitantes em busca de lazer e, dessa forma, atraído investimentos para diversos setores atrelados à cadeia do turismo. Oriundos do setor público ou privado, os recursos estão voltados para ampliar o acesso às cidades balneárias, seja por meio terrestre ou aéreo, acomodar os visitantes, melhorar a experiência gastronômica e de entretenimento, além de promover o emprego e a renda local.

Não há dados detalhados e precisos sobre o crescimento do setor como um todo na região denominada de Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais alagoana, composta por oito municípios: Paripueira, Barra de Santo Antônio, São Luís do Quitunde, Passo de Camaragibe, São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras, Japaratinga e Maragogi. As informações existentes são fragmentadas e incompletas. Sobre a ocupação hoteleira, por exemplo, a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Alagoas (ABIH/AL) informa que não há dados específicos, isso porque há poucos associados na região.

O Mapa do Turismo, do Ministério do Turismo (MTur), destaca que a costa Norte tem 824 meios de hospedagem, 27.781 leitos, 1.405 empresas formais do setor e gera aproximadamente 17.091 empregos. Desses, 10.714 são promovidos pelos meios de hospedagem. No entanto, Paripueira não aparece no estudo. Dos sete municípios listados, apenas quatro têm informações sobre a receita tributária. Ainda assim podem ser imprecisos visto que foram obtidos por meio de um questionário autodeclaratório.

Com inauguração prevista para este ano, 12 hotéis devem incrementar rede hoteleira em 3.200 novos leitos (Foto: Sandro Lima)

Já o Observatório do Turismo da Secretária de Turismo de Alagoas (Setur/AL) aponta para 422 meios de hospedagem e 17.044 leitos. Conforme a plataforma, a região possui quatro locadoras, 391 bares e restaurantes, 20 associações, 127 atrativos turísticos, 237 empresas do ramo turístico e 18 receptivos.

Os dados divergem, mas uma coisa é certa: a cadeia do turismo segue em crescimento contínuo no Litoral Norte e ele é visivelmente perceptível pela expansão hoteleira, de bares e restaurantes, do receptivo, imobiliária e dos investimentos em infraestrutura.

E a demanda por crédito do Banco do Nordeste (BNB) para novos empreendimentos ou para modernizar os já existentes é uma prova do “boom” do turismo na APA Costa dos Corais. A instituição destinou créditos da ordem de R$ 268 milhões para negócios localizados na região em 2025. O valor representa uma alta de 1.240% em relação a 2024, quando foram destinados R$ 20 milhões. Em todo o estado, a expansão foi expressiva (184%), mas nada comparado ao desempenho obtido na costa Norte.

Os investimentos ajudam a alavancar não só o setor, mas toda a cadeia em torno dele, como a construção civil, o mercado imobiliário e os serviços em geral, dentro dos quais o turismo está inserido.

E mais empreendimentos estão vindo por aí, sejam financiados pelo BNB ou outras instituições financeiras. Conforme a Setur/AL, 22 empreendimentos hoteleiros estão em construção no estado. 10 deles no Litoral Norte, que vão incrementar a oferta na região em 2.590 leitos.

São eles, o Ritz Carro Quebrado e Refúgio das Lontras Pousada, na Barra de Santo Antônio; Oikos Maragogi e MME Maragogi, em Maragogi; Mar Azul Hotel, Nannai Milagres e Morena Milagres, em São Miguel dos Milagres; Salinas Milagres (Salg Patacho Exclusive Resort) e Marghot Hotel Spa, em Porto de Pedras; e Nakka Exclusive Hotel, em Passo de Camaragibe. Quatro deles estão na lista dos 12 com previsão de inauguração no estado ainda em 2026 para incrementar a rede hoteleira em 3.200 novos leitos no período.

Conforme a Setur, 22 empreendimentos hoteleiros estão em construção no estado, 10 deles no Litoral Norte, que vão incrementar em 2.590 a oferta de leitos na região (Foto: Divulgação)

Infraestrutura: obras de aeroporto e duplicação de rodovia somam quase R$ 800 milhões

O crescimento também é traduzido em grandes obras de infraestrutura de transporte, como a do Aeroporto Costa dos Corais no município de Maragogi, cujo aporte foi da ordem de R$ 371 milhões, obtido pelo governo do estado a partir da operação de crédito junto ao Banco do Brasil.

Ilustração do Aeroporto Costa dos Corais, que está sendo construído e tem obras adiantadas (Imagem: Ilustração)

A obra é uma demanda antiga. Com 340 hectares e infraestrutura para voos nacionais e internacionais, o empreendimento está em fase final de conclusão, com previsão do início das operações para junho. A pista de pouso e decolagem deverá atender aeronaves de grande porte. O equipamento público contará com um pátio para estacionar até duas aeronaves, terminal de passageiros, heliponto, portões para embarque e desembarque, quatro balcões de check-in, aparelho de raio-X para verificação de bagagens, edifício administrativo, além de estacionamento para carros de passeio, ônibus e vans. Quando entrar em operação, o Aeroporto Costa dos Corais deve atrair ainda mais visitantes para a região.

Diante do crescimento da procura pelo destino tanto por turistas como nativos, o poder público também iniciou obras de duplicação de parte da AL-101 Norte, que liga o bairro de Garça Torta, em Maceió, ao município de Barra de Santo Antônio. Com um investimento aproximado de R$ 412 milhões, financiado pelo Tesouro Estadual em parceria com o Banco de Desenvolvimento da América (CAF), a nova via integra a Rota do Charme e terá 30 quilômetros de extensão.

O projeto prevê um corredor principal com duas faixas de rolamento em cada sentido, contemplando cinco acessos. Três deles na Praia da Sereia, Saúde e Ipioca, localizados em Maceió. Os outros dois em Paripueira e na Praia de Tabuba, que fica na Barra de Santo Antônio. Atualmente, os serviços estão concentrados em terraplenagem, pavimentação, drenagem e outras etapas complementares. O primeiro trecho, com seis quilômetros de extensão — entre as praias de Guaxuma e Sereia —, tem entrega prevista para o final do primeiro semestre deste ano.

Duplicação AL-101 Norte vai ligar bairro de Garça Torta, em Maceió, ao município de Barra de Santo Antônio (Foto: Thiago Sampaio / Agência Alagoas)


FOMENTO

Ao perceber o potencial do setor para gerar emprego e renda na região, o governo do estado também investiu em programas para desenvolver o turismo regional. Alagoas figura como referência em regionalização do Ministério do Turismo, tanto pelo número de instâncias formalizadas, como em repasse por meio do Termo de Fomento para estruturação, manutenção e promoção das regiões turísticas. Para a APA Costa dos Corais, um termo de fomento assinado pela Setur destinou, em 2024, R$ 100 mil para ações de oficinas de sustentabilidade, efetivação e criação de rotas e manutenção do Selo Bandeira Azul.

“Você não precisa ir longe, vai ser feliz em Alagoas”

A Praia de Maragogi é uma das mais visitadas e o segundo polo turístico de Alagoas. Foi o ponto inicial para o “boom” do turismo no Litoral Norte. A fama do lugar, cujo cenário remete às praias caribenhas, se espalhou e foi atraindo gente do Brasil e do mundo.

Mas as belezas naturais não estão todas concentradas em Maragogi. Todos os outros municípios que fazem parte da APA Costa dos Corais são dotados de paisagens exuberantes, praias de areia branca, mar calmo de águas cristalinas em tons de azul turquesa e coqueirais.

São 120 quilômetros de cenários incríveis, isso porque o mar da região tem uma barreira de corais em toda sua extensão, que vai do município de Paripueira até Maragogi, em Alagoas, e continua em Pernambuco. Essa barreira de recifes de corais de águas rasas, uma das maiores do mundo, dá o tom, a calmaria e transforma o lugar em um verdadeiro paraíso, especialmente aos olhos dos nativos.

E não demorou muito para que os turistas percebessem tamanha beleza de toda a costa Norte alagoana. Em 2022, o apresentador Fábio Porchat visitou o estado e se encantou com o que viu. Ele usou as redes sociais para dizer que Alagoas tem as praias mais bonitas do Brasil. “Maldivas é imbatível. Caribe é lindo demais, é o máximo. Agora o único lugar do mundo que bateu de frente com Maldivas foi [São Miguel dos] Milagres. Alagoas, deixa eu te falar de Alagoas? Alagoas é um negócio violento assim: Maragogi, Milagres, Barra de São Miguel, é um negócio de outro planeta. Você não precisa ir longe, não. Você vai ser feliz em Alagoas.”

E o número de pessoas que procuram Alagoas para ser feliz, especialmente nas cidades balneárias do Litoral Norte, só tem crescido. Não há dados precisos, mas estimativas dão conta de que a região atrai em média 500 mil pessoas por ano.

Diversos famosos já visitaram a região para passar férias, Réveillon e até para oficializar a união. Em fevereiro de 2018, o youtuber Whindersson Nunes e a cantora Luísa Sonza escolheram a pequena capela na Praia de Marceneiro, em São Miguel dos Milagres, para casar. A festa virou ponto de encontro de famosos e movimentou a pequena cidade de pouco mais de 7 mil habitantes, localizada a 94 quilômetros de Maceió. Dois anos depois, o casal se separou.

Conhecida pelas famosas festas de Réveillon, a cidade atrai famosos nos feriadões de fim de ano. Celebraram a última virada de ano por lá a atriz Bruna Marquezine e a estilista, empresária e influenciadora Sasha Meneghel, filha da apresentadora Xuxa. Bruna estava acompanhada do cantor canadense Shawn Mendes e Sasha, do marido, o artista João Lucas.

E essa procura vertiginosa pelos municípios do Litoral Norte tem levado empreendedores de todos os portes a apostarem na região para montar, expandir ou modernizar seus negócios.

'O turismo é um motor de inclusão social, gerando empregos diretos e indiretos em restaurantes, passeios e artesanato. Cada dólar investido na gestão de áreas protegidas pode gerar até US$ 7 para a economia local' - Fábio Leão, economista.

Com 30% do valor da obra financiados pelo BNB, Maragogi Brisa Hotel incrementou a rede hoteleira do Litoral Norte em 160 apartamentos e 220 empregos diretos (Foto: Divulgação)

“Maior potencial econômico e social de Alagoas”

Atraído pelas potencialidades da região, o empresário do ramo hoteleiro Kiko Gatto, resolveu expandir os negócios e instalou em Maragogi o quarto hotel da rede Brisa. O Maragogi Brisa Hotel contou com um aporte de R$ 80 milhões, 30% dele oriundo do BNB, por meio da linha FNE Proatur, e entrou em operação em 2022. O empreendimento incrementou a rede hoteleira na região com 160 apartamentos e 220 empregos diretos.

Localizado bem à beira mar da Praia de Antunes, o Maragogi Brisa Hotel é um resort compacto, como descreve Gatto. O empreendimento conta com uma piscina gigante, separada do mar por alguns metros de areia. O lugar é propício para quem quer descansar e se divertir em família. Para o lazer, há quadra de beach tennis, futmesa, caiaque, bicicleta aquática, spa, sauna, recreação para crianças e música ao vivo todas as noites.

Em cinco anos de atividade, o empresário ainda não obteve retorno do valor investido. Mas, segundo ele, o desempenho está dentro do previsto. A média de ocupação é de 70%. No verão chega a 80% e, no inverno, cai para 50%. “O retorno do investimento de um empreendimento como este é de longo prazo. Isso porque o custo é alto. Ele começa aproximadamente com 10 anos”, explicou.

Com experiência de mais de 40 anos na hotelaria de Maceió, ao expandir os negócios para Maragogi, Kiko Gatto tem enfrentado dificuldades em manter o padrão dos serviços da rede Brisa na região. Isso porque a localidade ainda é carente de infraestrutura.

“As dificuldades nossas são grandes por causa dessa falta de infraestrutura. Mas a gente está enfrentando. A internet não é boa. Não tem transporte público. Então gente comprou cinco vans para buscar os funcionários em casa. E olhe que nós temos funcionários de Maragogi, de Japaratinga, de Porto Calvo e de Barreiros, em Pernambuco. São quatro cidades. Então, imagine como a gente não roda para buscar os funcionários”, relatou ele.

O negócio enfrenta ainda dificuldades relacionadas à distribuição de água e energia elétrica. “Nós temos dois geradores full para não deixar faltar energia. Se falta energia, ligamos um deles e o outro fica de reserva para o caso do primeiro quebrar. E assim a gente vai levando”, salientou.

Kiko Gatto, empresário da Rede Brisa de hotéis (Foto: Sandro Lima)

“Quando você tem o destino de pousadas de charme, essas coisas passam meio que despercebidas. Porque a pessoa vai para uma pousadinha, num lugar deserto, então ela já sabe que pode ser que não tenha água, pode ser que a internet não pegue, o funcionário não está treinado. Mas quando ele vai para um hotel maior, como é o nosso, que tem 160 apartamentos, o número de exigência já é um pouco maior”, acrescentou Gatto.

Mesmo assim, o empresário se mostrou otimista com os resultados do Maragogi Brisa Hotel, tanto que já planeja instalar outro hotel na cidade. Para ele, o Litoral Norte é a “bola da vez” no que se refere à expansão turística. “O Maragogi Brisa Hotel fica na Praia de Antunes, mas temos um projeto de um segundo hotel na cidade. Esse vamos fazê-lo pequeno lá na orla de Maragogi.”

O hoteleiro destaca a importância do negócio para alavancar a economia da região. Mas reclama dos entraves burocráticos na hora de instalar um novo hotel. “Eu fico impressionado porque nós temos uma parcela muito grande da nossa sociedade, cerca de 30%, abaixo da linha da pobreza. Nós precisamos crescer muito para ajudar essas pessoas, para gerar emprego, para gerar renda. E a gente não consegue fazer isso porque a burocracia é terrível. E essa burocracia hoje é o grande fator que freia o crescimento da nossa economia.”

No entanto, o empresário ressaltou que a infraestrutura voltada para o turismo está sendo construída. “Os últimos governos fizeram muita infraestrutura, melhoraram muito as estradas. A BRK tem feito investimento. Por exemplo, a Barra de São Miguel agora está 100% com saneamento. Antes era uma deficiência. Em Piranhas, também estão começando a fazer os saneamentos. O governo do estado está fazendo o aeroporto de Maragogi. Tem aquele pequeno aeroporto lá em Marechal Deodoro, que presta serviços aos helicópteros da polícia, Corpo de Bombeiro e do Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência]. Então, essa infraestrutura voltada para o turismo está sendo construída.”

Para Gatto, o turismo é o maior potencial econômico e social de Alagoas. De olho na próxima “bola da vez”, ele já planeja expandir os negócios para o Litoral Sul. “Primeiro para a Barra de São Miguel, porque eu acredito no potencial turístico daquela cidade. Acho que as praias mais bonitas de Alagoas estão lá. Nós temos já diversos atrativos turísticos que estão se instalando no Litoral Sul. A gente tem as falésias da praia do Gunga, tem o Francês que virou um polo gastronômico e hoje é referência, com muitos restaurantes de alto nível, de muito boa qualidade. Têm os hotéis Vila Galé, que estão se instalando em Miaí de Cima, no município de Coruripe. Nós temos, também em Coruripe, a Reserva da Pituba, de Teresa Collor, que é um loteamento de altíssimo luxo, com pista de avião a jato para pouso”, destacou.

Entretanto, é em Maceió que está a maioria de seus investimentos na área. São quatro hotéis da rede que administra. O mais recente foi inaugurado no final de fevereiro deste ano, o Venti Hotel. Localizado à beira-mar da Praia de Pajuçara, o empreendimento foi construído onde antes funcionava uma pousada da família, a Praia Bonita. O imóvel era uma casa de veraneio do avô de Gatto, onde, durante a infância, ele costumava passar os fins de semana.

Depois de Maragogi, Brisa volta a investir no maior polo turístico de Alagoas e instala Hotel Venti em Maceió, a quinta unidade da rede no estado (Foto: Sandro Lima)

Com uma proposta mais luxuosa, 204 apartamentos e capacidade para hospedar até 500 pessoas, o Venti reúne rooftop com restaurante autoral, spa e pool bar, organizados em torno de uma piscina de borda infinita. A vista panorâmica da orla de Maceió amplia a integração entre hotel e destino.

A sofisticação está presente em cada ambiente do Venti. O hotel é a “menina dos olhos” de Gatto e, segundo o empresário, leva a impressão dos 45 anos de sua experiência e 65 anos de sua família no ramo hoteleiro.

“O principal polo turístico é Maceió, sem sombra de dúvida e, em segundo lugar, está Maragogi. Aí depois vêm os outros polos turísticos. Por exemplo, Piranhas, tem crescido muito e recebido muitos investimentos. Penedo com o turismo histórico. O estrangeiro gosta muito do turismo de história e vai para Penedo”, finalizou o empresário.

Venti reúne rooftop com restaurante autoral, spa e pool bar, organizados em torno de uma piscina de borda infinita (Foto: Sandro Lima))

Puxadas pelo Litoral Norte, turismo demanda mais crédito do BNB que demais setores em Alagoas

As atividades ligadas ao turismo tiveram crescimento maior na contratação de crédito do BNB, em 2025, do que os demais setores econômicos em Alagoas. Foram R$ 315 milhões financiados ao segmento ano passado contra R$ 111 milhões em recursos contratados em 2024.

Os municípios que mais demandaram crédito para o turismo foram, em ordem decrescente, Porto de Pedras, Maceió, Passo de Camaragibe, Japaratinga e Maragogi, evidenciando a expansão do turismo no Litoral Norte do estado.

Os créditos foram destinados às mais diversas atividades para implantar, expandir, modernizar, reformar ou relocalizar empreendimentos, além de capacitar pessoal, informatizar a empresa e investir em marketing. As que obtiveram maiores valores financiados foram meios de hospedagem, bares e restaurantes, agências de viagens, receptivos e transportes turísticos. No entanto, a maior parte dos recursos contratados (78%) foi para implantação de empreendimentos turísticos.

(Infográfico produzido com IA)

“O resultado aponta o aquecimento do turismo no estado, que vem apresentando desempenho positivo em termos de desembarque de turistas, seja de origem nacional ou internacional, ocupação hoteleira, infraestrutura local, atrações, que vão além das belezas naturais, enfim, é um setor que vem se estruturando e se fortalecendo e que conta com o apoio do BNB em suas diversas necessidades de crédito”, pontuou o superintendente estadual do BNB em Alagoas, Sidinei Reis.

E o que ele afirma faz todo sentido. A alta temporada de 2025/2026 injetou na economia alagoana R$ 2,6 bilhões, levando em consideração o fluxo viário. Nesse período desembarcaram no Aeroporto Zumbi dos Palmares aproximadamente 1,3 milhão de pessoas. Levando em consideração o fluxo rodoviário, o incremento na economia alagoana pode chegar a R$ 2,8 bilhões. O número representa um aumento de R$ 600 milhões em relação à temporada anterior.

O fluxo internacional de passageiros também teve resultado relevante. Conforme a Setur, foram 36.120 nesta temporada contra 22.003 na anterior, obtendo um crescimento de 64,16%.

Sem contar que Alagoas é o estado onde os turistas nacionais realizaram os maiores gastos em viagens, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada em outubro de 2025. Conforme o levantamento, em 2024, cada visitante que permaneceu ao menos uma noite em Alagoas desembolsou em média R$ 355 por dia.

E as facilidades oferecidas pelo BNB ajudam a expandir a rede e potencializar o destino para receber bem os visitantes. As linhas de crédito do Banco do Nordeste destinadas ao setor de turismo permitem prazo de financiamento de até 20 anos, no caso de implantação de hotéis e outros meios de hospedagem, com recursos oriundos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE).

Para micro, pequenas empresas e microempreendedor individual (MEI), a instituição oferece a linha FNE-MPE Turismo; para o pequeno-médio e maiores empreendedores, o Programa de Apoio ao Turismo Regional (Proatur); e, para todos os tamanhos, o Fundo Geral do Turismo (Fungetur). Todos têm a possibilidade de acessar o crédito verde, que é voltado a iniciativas que incluam práticas de responsabilidade ambiental.

GERENTE DE NEGÓCIOS

O gerente de negócios Hélvio Loureiro destacou as facilidades que o BNB oferece para impulsionar o setor. “Para turismo especificamente, temos operações de investimento de longo prazo, com juros subsidiados do FNE, com taxas que variam de 0,66% até 1,12% ao mês, sem a incidência de IOF [Imposto sobre Operações Financeiras], incluídos até cinco anos de carência. Para financiamento de máquinas, equipamentos, veículos, os prazos chegam a até 15 anos”, explicou.

Segundo Loureiro, o financiamento pode chegar a 100% do valor do empreendimento, mas o que vai definir são o porte e a localização. Empreendimentos localizados nos municípios prioritários, selecionados pelo BNB para receber atenção especial na aplicação dos recursos do FNE, têm mais chances de obter financiamento máximo. Isso porque o foco do banco é no desenvolvimento regional, redução da desigualdade e promoção da sustentabilidade.

Gerente de negócios Hélvio Loureiro destaca as facilidades que o BNB oferece para impulsionar o setor turístico (Foto: Sandro Lima)

“As condições do Banco do Nordeste são as mais atrativas em razão do fundo constitucional, cujas condições são pensadas para financiar a região de atuação do banco, minimizando as diferenças regionais e promovendo o desenvolvimento sustentável”, ressaltou Loureiro.

Conforme o gerente de negócios, o carro-chefe do banco é o FNE. “Mas também temos operações com recursos do Fungetur, que são mais sazonais, com taxas de 5% ao ano acrescido da variação anual do INPC [Índice Nacional de Preço ao Consumidor], de até 240 meses incluídos 60 meses de carência, tanto para investimentos como para [capital de] giro”.

BNDES e Desenvolve

A Desenvolve, que é a Agência de Fomento de Alagoas, e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também disponibilizam linhas de crédito voltadas ao desenvolvimento do turismo regional. Procurada pela reportagem, as duas instituições não informaram dados específicos sobre o Litoral Norte alagoano.

A Desenvolve, por meio do Fungetur, programa do MTur, destinou, em 2025, R$ 5,16 milhões ao setor em todo o estado. Já em 2024, foram R$ 3,02 milhões pelo mesmo programa. Os dados apontam queda geral de um ano para o outro.

Linhas de apoio ao turismo

  • Já o BNDES possui linhas de apoio ao turismo voltadas a todo tamanho de empreendimento. Há crédito para micro, pequenas e médias empresas e empresários individuais, no limite de até R$ 20 milhões por ano. Financiamento a partir de R$ 20 milhões para implantação, reforma ou ampliação de empreendimentos como, por exemplo, hotéis, centros de convenções e parques temáticos. A instituição também apoia projetos multissetoriais, que envolvam investimentos em urbanização e infraestrutura, saneamento, equipamentos públicos, revitalização de áreas degradadas e habitações de interesse social.
  • Na página da instituição na internet, há informações para os macrosetores. Para o macrosetor de Serviços, no qual o turismo está inserido, o banco destinou R$ 98 milhões em créditos para Alagoas no ano passado. Entretanto, não há detalhes sobre os microsetores nem sobre as regiões onde a demanda por crédito da instituição foi maior.

Demanda por gastronomia qualificada leva empresário a ampliar negócios em São Miguel dos Milagres

Mais um que apostou na região foi o empresário do ramo de bares e restaurantes Elthon Massau. Há 10 anos, ele administra um restaurante em São Miguel dos Milagres, o Kioske do Massau. Com o crescimento do turismo e a demanda por uma gastronomia mais qualificada, ele resolveu montar uma pizzaria na mesma cidade.

Foi o crescimento vertiginoso de turistas que o fez ampliar os negócios na região. “Com o alto crescimento da procura pela Rota Ecológica dos Milagre, vimos que era preciso nos estruturarmos melhor para atender a um público mais exigente e viajado”, explicou Massau.

Para abrir o novo negócio, o empresário buscou recursos junto ao Banco do Nordeste. “Peguei o crédito em 2023 e a pizzaria entrou em funcionamento em setembro de 2025. O Kioske Massau funciona das 11h às 17h. Abrimos a pizzaria Jaboticaba no horário das 17h às 23h. Quando um fecha o outro abre, para oferecer gastronomia de boa qualidade a nativos e turistas.”

Kioske Massau e pizzaria Jaboticaba: "quando um fecha o outro abre para oferecer gastronomia de boa qualidade a nativos e turistas” (Foto: Google Street View / Reprodução)

O empresário avaliou que em São Milagres quase não existe baixa temporada, do alto de quem vê a procura pelo lugar crescer a cada ano. “Antes existia uma baixa temporada. Mas de 2023 para cá quase não está existindo essa baixa temporada.”

Massau já estava com as obras em andamento quando os recursos acabaram. Foi aí que resolveu levantar um empréstimo para concluir os serviços e colocar a pizzaria em funcionamento. O empresário confessou que buscou o crédito pelo BNB devido à baixa taxa de juros. “Bem menor que as outras instituições financeiras. Eles têm várias opções de financiamento, desde o pequeno até uma empresa maior. Peguei o financiamento no finalzinho da obra. Aí passei mais um tempinho juntando para comprar os equipamentos, embora tivesse a opção de pegar mais [dinheiro]. Só que como vivo de movimento, tenho medo de pegar e me atrapalhar.”

Ele falou que a orientação dada pelo Programa de Desenvolvimento Territorial (Prodeter) foi essencial para que tudo desse certo. “E tivemos a orientação sobre como e onde deveríamos aplicar o crédito disponibilizado. Com as ideias, nos estruturamos, desde maquinários mais modernos, devido à falta de mão de obra, até mesmo na contratação de músicos.”

PRODETER

Programa do BNB facilita acesso ao crédito para fortalecer cadeias produtivas

Para fortalecer a atividade econômica, em julho de 2025, o Banco do Nordeste levou para a região o Prodeter. O programa tem o objetivo de promover o acesso facilitado ao crédito, o planejamento coletivo da produção, a capacitação técnica e gerencial, a integração entre produtores, mercado e tecnologia e o aumento da competitividade regional.

O Prodeter atua por territórios e cadeias produtivas prioritárias. E o turismo é uma delas, já que representa um potencial no Litoral Norte. Lá a atuação se dá em cinco municípios: Passo de Camaragibe, São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras, Japaratinga e Maragogi. O foco maior está em bares, restaurantes, artesanato, hotéis e pousadas.

Um grupo gestor, composto por secretarias de Turismo e Desenvolvimento, Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), ABIH/AL, Associação do Peixe Boi e o próprio BNB, é responsável por atuar de modo a desenvolver ações voltadas para capacitação, sustentabilidade ambiental, cultura e financiamentos orientados e integrados.

De acordo com o gerente de desenvolvimento do BNB no Litoral Norte, Roberto da Silva Gitaí, a região tem um grande potencial turístico, com uma demanda crescente, mas a falta de mão de obra qualificada fez com que a instituição levasse o programa para lá.

“Estamos tentando melhorar isso promovendo cursos de capacitação de graça para qualificar pessoas e, às vezes, não conseguimos atingir um público maior. Porque, com uma melhor qualificação, você oferece serviços de alta qualidade e, com certeza, atrai o turismo para as belezas naturais do local e fideliza o turista. Isso faz com que mais turistas visitem a região, gastem seus recursos e, consequentemente, dinamizem a economia local”, explicou Gitaí.

Gerente de desenvolvimento do BNB no Litoral Norte, Roberto da Silva Gitaí, diz que falta de mão de obra qualificada fizeram com que o BNB levasse programa para a região (Foto: Divulgação)

O programa funciona com a articulação de produtores, prefeituras, cooperativas, universidades e instituições voltadas para o ramo de serviço e empreendedorismo. Todos unidos para organizar as cadeias produtivas, promover o acesso a mercados, gerar emprego e renda e, assim, alavancar a economia local.

Segundo o gerente de Desenvolvimento Territorial do BNB no estado, Manoel Roberto Muniz, as atividades apoiadas pelo Prodeter no estado eram tradicionalmente rurais. “O Prodeter de Turismo do Litoral Norte alagoano foi nosso primeiro Prodeter de atividade urbana no estado. Foi uma demanda dos atores econômicos daquela região e de instituições ligadas ao setor. Este ano, também estamos trabalhando a atividade, com a metodologia do Programa, na região do Agreste alagoano e no baixo São Francisco, contribuindo para a promoção da interiorização do turismo”, ressalta.

Sebrae desenvolve ações para fortalecer cadeia do turismo na região

Para fortalecer o turismo no Litoral Norte, o Sebrae tem buscado se aproximar dos empreendedores, escutá-los e desenvolver ações na região.

Em junho do ano passado, o Sebrae realizou uma escuta ativa na Eco Pousada Paraíso dos Coqueirais, em Japaratinga. O evento reuniu empreendedores do turismo e demais atividades ligadas ao setor, como alimentação, passeios turísticos, artesanato, produção local e serviços associados.

A escuta ativa teve como principal objetivo compreender, de forma prática e participativa, as reais necessidades dos empresários do território, para que ações mais eficazes e personalizadas sejam implementadas na região.

Com base nessa escuta, o Sebrae realizou um diagnóstico coletivo da região para traçar um plano de ação regional, voltado especificamente para o desenvolvimento sustentável da cadeia turística no Litoral Norte de Alagoas.

Por meio do Prodeter, Sebrae oferece suporte técnico, consultoria e capacitação para estruturar o turismo local (Foto: Lucas Meneses / Ascom Setur)

“A escuta ativa é uma estratégia que adotamos para aproximar ainda mais o Sebrae dos empreendedores. Quando ouvimos diretamente quais são os principais gargalos, conseguimos agir com mais precisão e construir soluções em conjunto. Além disso, esse tipo de encontro cria uma relação de confiança, fortalece os vínculos locais e amplia o impacto das nossas ações”, destacou Cristina Moreira, analista do Sebrae Alagoas.

O Sebrae também oferece suporte técnico, consultoria e capacitação para estruturar o turismo local por meio do Prodeter.

A atuação do Sebrae no programa busca capacitar empresários, promover a inovação e melhorar a competitividade dos negócios locais nos municípios de São Miguel dos Milagres, Passo de Camaragibe, Porto de Pedras, Japaratinga, Maragogi, Barra de Santo Antônio e Paripueira.

Pousada econômica oferece conforto e boa localização para quem busca pagar menos

A alagoana Carmem Omena, de 45 anos, também é uma empresária da região. Ela possui a Pousada Villa Marceneiro Beach, na Praia de Marceneiro, no município de Passo de Camaragibe, localizado na Rota Ecológica dos Milagres. O negócio funciona há sete anos, mas a empresária trabalha no segmento de hospedagem há 11 anos.

Ela contou que nunca sonhou em ter pousada, mas ao visitar o lugar, se apaixonou pelo destino, como muitos que se instalaram por lá. “Antes era muito paradisíaco e com poucas opções de hospedagem. E tudo foi acontecendo e fui ficando. Em fevereiro fez 11 anos que trabalho no segmento de hospedagem. Fiquei quatro anos atuando com aluguel de casa por temporada e, depois de uma reforma e ampliação, fui para o segmento de pousada”, explicou.

Carmem disse que seu negócio é considerado uma “pousada econômica”. “Não temos o luxo das pousadas pé na areia, mas temos o conforto e economia necessários para atender a um público que busca pagar menos, ficar bem acomodado e bem localizado. Temos uma boa avaliação em todos os canais de hospedagem.”

Entre 2024 e 2025, a empresária viu seu empreendimento registrar crescimento no número de hóspedes em 50%. Segundo ela, os investimentos em modernização das reservas online foram decisivos para atrair o público crescente na região. “Hoje o cliente pode fazer a reserva diretamente com a pousada 24 horas, tudo de forma online. O investimento foi necessário, porque, se o fluxo aumenta, você não consegue atender sem melhorias. Agora espero ter um crescimento de no mínimo 25% em 2026.”

Pousada Villa Marceneiro Beach levanta crédito junto ao BNB para ampliação do espaço de enxoval (Foto: Divulgação)

A Pousada Villa Marceneiro Beach conta com 18 suítes. Apesar de a procura acontecer quase que o ano inteiro, exceto no período de chuvas, e da crescente demanda, por enquanto Carmem não tem pretensões de ampliar o número de leitos. “Temos tido um aumento significativo na procura por hospedagem. A maioria desse público, aproximadamente 65%, é de convidados para os casamentos aqui em Milagres.”

O projeto atual da empresária é a ampliação do espaço para guardar o enxoval, como camas, colchões, entre outros. Para isso, levantou crédito junto ao BNB, pela linha Fungetur. Com seis meses de carência e 60 meses para pagar, o negócio deve ganhar impulso para continuar expandindo.

A empresária buscou o BNB devido à carência e taxas mais baixas oferecidas pela instituição e avaliou que elas são de fundamental importância para a sobrevivência de uma pequena empresa, como a pousada que administra. “Normalmente usamos esses valores para compra de enxovais, modernização dos equipamentos, como ar condicionado e smart TV, e melhoria na estrutura física da pousada”, explicou.

Pousada pé na areia oferece experiência em roteiro de charme com luxo

Quem também apostou na região foi a empresária alagoana Marileusa Ferreira Neto. Em 2014, ela abriu uma hospedagem de pequeno porte na Praia de Marceneiro, em Passo de Camaragibe. A Pousada Marceneiro fica pé na areia e conta com 11 leitos. Dois deles com piscina privativa.

Todos os quartos possuem varanda com vista para o mar e são classificados em quatro categorias: luxo, master, master premium e premium. O master premium conta como adicional a banheira de hidromassagem, o master premium com banheira de imersão e o premium com piscina privativa aquecida.

A empresária resolveu investir no serviço de hospedagem, mais precisamente em uma pousada de luxo, quando idealizou ter o próprio negócio. Segundo ela, a decisão foi baseada nas habilidades e aptidões e no estudo de viabilidade econômica financeira para implantação do negócio.

Para pôr em prática o projeto, a empresária contou com financiamento do BNB. A instituição disponibilizou 60% do crédito que ela precisava. “Temos um ótimo relacionamento com o BNB, tanto pelo excelente atendimento, como pelo apoio na execução de nossos projetos. E escolhi o BNB pela vocação que tem em oferecer produto compatível com a nossa necessidade. Ao obter o financiamento, temos um prazo de carências, as taxas de juros são menores do que as demais praticadas no mercado financeiro, o que contribui para a execução do projeto e, por consequência, contribui com a geração de emprego e renda do local em que está instalado o empreendimento.”

A pousada começou a operar com oito leitos. Mas, com demanda crescente, foi necessário ampliar e a empresária buscou novamente recurso do BNB. Isso ocorreu em meados de 2022. O financiamento ajudou a melhorar a estrutura física e operacional, com a inovação das instalações e dos serviços aliados às ações de marketing. Tudo focado na venda dos serviços.

Pousada Marceneiro contou com crédito do BNB na implantação e, posteriormente, na ampliação (Foto: Divulgação)

“Durante a alta temporada tínhamos uma demanda reprimida. Aí decidimos ampliar a oferta de leitos, com a perspectiva de melhor atender e a oportunidade de aumentar a receita. Também de oferecer produto diferente”, pontuou a empresária. Foi nessa ampliação que a pousada passou a dispor de dois apartamentos com piscina privativa.

“Na construção da pousada, conseguimos um financiamento para aquisição do material de construção, móveis e utensílios. Essa parceria foi de suma importância para a realização do negócio. Da mesma forma, quando projetamos a ampliação, mais uma vez obtivemos outro financiamento”, enfatizou Marileusa. “O trabalho do Prodeter é muito importante para fomentar o turismo na região”, completou.

A demanda por hospedagem no local teve boa performance entre 2024 e 2025, conforme a empresária. “A procura ocorreu dentro da expectativa. A demanda na baixa temporada foi menor no ano de 2025. Nos meses de novembro e dezembro de 2025, a demanda foi maior. O ano de 2026 tem eleições e Copa, então a perspectiva é que, de certa forma, poderá haver uma queda na demanda. Vamos acompanhar a movimentação e continuar trabalhando e participando de eventos que venham fortalecer o turismo”, disse Marileusa.

Além dos quartos luxuosos, o empreendimento dispõe de restaurante para servir café da manhã, almoço e jantar. O jardim tem piscina, gazebo, bar e é ideal para apreciar o mar, ler, fazer atividade física, tomar banho de piscina e experimentar a gastronomia da pousada.

“Sem contar que a região da Rota Ecológica dos Milagres é um lugar lindo. Tem como característica o turismo ecológico, lugares tranquilos que propiciam descanso e paz. Também existe demanda para celebração de casamentos e, consequentemente, reflete no aumento do serviço de hospedagem”, reforçou a dona do empreendimento, que conta também com estrutura para realizar eventos, como casamentos, pré-weddings, aniversários, encontros de amigos e de família.

A empresária tem pautado seu negócio no princípio da sustentabilidade. “Aproveitamos água da chuva, instalamos energia solar e fazemos coleta seletiva”, disse.

Mercado imobiliário e construção civil são puxados pela alta do turismo de luxo

O boom do turismo não beneficia apenas a rede hoteleira e de serviços da região. Ela é responsável por alavancar outros setores da economia. O ramo imobiliário, por exemplo, também foi puxado por esse crescimento. O corretor de imóveis Kenny Wilson é testemunha desse fenômeno.

Kenny disse que há 20 anos tem presenciado o turismo imobiliário se consolidando na região. O lugar antes inexplorado foi ganhando infraestrutura, como saneamento, abertura de novas vias e isso fez com que as pessoas enxergassem o lugar para uma segunda moradia. Construtoras, imobiliárias, corretores de imóveis, incorporadoras e empreendedores começaram a levar uma cadeia de serviços. Segundo Kenny, comandados pela construção civil.

“Cresceu muito a questão dos aluguéis por temporada. A taxa de retorno imobiliário começou a ser mais atrativa do que imóveis convencionais em regiões que não são de praia. Por exemplo, na capital Maceió, a taxa de valorização de um imóvel residencial é inferior e não acompanhou a velocidade da taxa de valorização dos imóveis em região costeira, como a da Rota Ecológica. Então essa evolução do turismo de lazer fez surgir o turismo imobiliário, em que o cliente começou a acreditar no desenvolvimento da região e passou a trazer investimentos”, avaliou o especialista.

A região é uma das mais promissoras do mercado imobiliário, especialmente os municípios da Rota Ecológica dos Milagres, composta por São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras e Passo de Camaragibe. As cidades de natureza preservada têm atraído compradores nacionais e estrangeiros em busca de investimentos de alto padrão para lucrarem com aluguel por temporada e valorização patrimonial.

Oikos Maragogi é um dos 10 que vão incrementar a rede hoteleira no Litoral Norte, cujas obras também alavancam o ramo da construção civil (Foto: Divulgação)

No Réveillon, as cidades são muito disputadas por turistas nacionais e internacionais, fazendo com que as diárias cheguem a R$ 11 mil em pousadas e casas de luxo e pacotes de feriados batam na casa dos R$ 50 mil por quatro noites.

No que se refere a patrimônio, a região tem concentrado alguns dos maiores valores por metro quadrado do estado. Segundo levantamento da Brain Consultoria, São Miguel dos Milagres registra cerca de R$ 11.181 o metro quadrado, enquanto Maragogi chega a R$ 14.779. Os valores são maiores do que o registrado na capital alagoana, onde o preço médio é de R$ 9.653, conforme o Índice FipeZAP, confirmando o que o corretor Kenny Wilson destacou.

“Se a gente for estimar em percentuais, nesses últimos 20 anos, o investimento na região subiu 70% contra 20% em Maceió. O investimento acentuado na região obrigou as cidades, como São Miguel dos Milagres, como Porto de Pedras, como Passo de Camaragibe, a procurar parcerias com o governo do estado e o governo federal a fim de melhorar a infraestrutura para poder recebê-los. Ou seja, o progresso chegou, mas os municípios não estavam preparados para esse volume de investimentos do setor privado”, avaliou Wilson.

Nos próximos cinco anos são esperados ainda R$ 3,5 bilhões para o ramo imobiliário, conforme Wilson. “São pousadas, casas na modelagem boutique de charme. Mas, graças a Deus, o estado está dando a sua contribuição. Está calçando ruas, tentando melhorar a segurança, trazendo o mínimo que é necessário para poder atender esse novo público que está chegando na região. E toda essa cadeia que está se formando em torno do turismo acaba trazendo desenvolvimento econômico para a região.”

Crescimento é percebido pela expansão da infraestrutura e do PIB da região

O economista e analista do Sebrae Fábio Leão diz que o crescimento da Costa dos Corais em Alagoas é um fenômeno multidimensional que pode ser avaliado por indicadores econômicos robustos. Mesmo com a falta de dados precisos, ele afirma que o crescimento pode ser medido por meio da expansão da infraestrutura turística e do impacto no Produto Interno Bruto (PIB). Os investimentos em hotelaria, o Valor Adicionado Bruto (VAB) e a conectividade aérea são indicadores que apontam para esse crescimento.

“Apenas em Maceió, a previsão é de entrega de seis hotéis de alto padrão até 2026. A Região Norte segue essa tendência com a valorização acelerada de imóveis e novos empreendimentos. Entre 2015 e 2022, o turismo em Alagoas cresceu 146,6%, injetando bilhões na economia. Maragogi se destaca com o maior VAB per capita do turismo no estado. E o aumento expressivo de voos, que cresceu 65,82% em 2024 via Maceió, é um termômetro direto da demanda crescente”, avaliou Leão.

Segundo Leão, esse crescimento tem impactos positivos e negativos na vida dos nativos. Os benefícios giram em torno da geração de emprego e renda. “O turismo é um motor de inclusão social, gerando empregos diretos e indiretos em restaurantes, passeios e artesanato. Cada dólar investido na gestão de áreas protegidas pode gerar até 7 dólares para a economia local”, disse o economista.

O crescimento também atua como um catalisador de investimentos estatais, porque o poder público é forçado a melhorar a infraestrutura para que essa economia se estabeleça. A construção do Aeroporto Costa dos Corais em Maragogi e outros investimentos em mobilidade, no Litoral Norte e em todo o estado de Alagoas, são exemplos disso.

(Infográfico produzido com IA)

“O Aeroporto Costa dos Corais é a obra de infraestrutura mais emblemática para facilitar o acesso e escoamento na Região Norte. Além disso, programas de mobilidade, como o Pró-estrada e Alagoas de Ponta a Ponta com investimentos da ordem de R$ 470 milhões aplicados em 2025, buscam melhorar a segurança e o trânsito de turistas e moradores. Alagoas tem previsão de bilhões em investimentos federais até 2026, por meio do Novo PAC, para obras como a ponte Penedo-Neópolis e melhorias nas rodovias federais BR-416 e BR-101. Então esses são impactos positivos”, explicou o economista.

A inauguração do aeroporto de Maragogi, prevista para o final deste semestre, permitirá voos diretos e até internacionais, abrindo a região para mercados globais que hoje dependem dos aeroportos de Maceió ou Recife.

No que se refere ao emprego formal do setor turístico, a Costa dos Corais se destaca. Conforme o economista, a região é um dos principais motores de emprego formal, embora a capital Maceió ainda concentre a maior fatia das vagas no estado.

PIB

A região da Costa dos Corais consolidou-se como o segundo maior polo econômico e turístico de Alagoas, impulsionada por um crescimento do PIB acima das médias nacional e regional nos últimos anos.

Conforme Leão, o desempenho econômico da região é liderado por Maragogi, que detém o maior PIB da Região Norte de Alagoas e é a 10ª maior economia do estado. O PIB do município cresceu 459% na última década, atingindo R$ 1,1 bilhão em 2025. Na sequência vem Passo de Camaragibe, com PIB de R$ 378,4 milhões. Com forte peso para agropecuária (57,8%) e serviços (14,1%).

Desempenho econômico é liderado por Maragogi, que detém o maior PIB da Região Norte (Foto: Assessoria)

Crescimento da região impõe desafios sociais e ambientais, diz economista

No entanto, Fábio Leão destacou que essa expansão turística e imobiliária impõe desafios sociais e ambientais significativos para a Região Norte do estado. Ele alerta que esse crescimento pode levar a riscos de exclusão, se ocorre de forma desordenada.

“O turismo desordenado ameaça a biodiversidade. Monitoramentos recentes indicaram a mortalidade de cerca de 80% dos corais em certas áreas devido à poluição e aquecimento das águas. Além disso, a urbanização rápida pode gerar ‘sistemas de proteção social frágeis’ se não acompanhada de políticas públicas eficazes”, enfatizou o economista.

Mortandade de corais aponta para necessidade de explorar as belezas naturais com responsabilidade e sustentabilidade (Foto: Kaio Fragoso / Ascom Setur)

Segundo Fábio Leão, a região tem uma enorme potencialidade, mas precisa ser explorada com responsabilidade e sustentabilidade. “O crescimento futuro é limitado pela capacidade de carga dos ecossistemas. A recuperação da barreira de corais e a gestão de resíduos sólidos são vitais para que o destino não perca seu principal atrativo. Investir em turismo de propósito também é importante, visto que há uma tendência crescente para roteiros personalizados e experiências autênticas, por meio do turismo rural e imersões culturais. O que pode atrair um público de maior valor agregado.”

Falta de dados: falha técnica ou mecanismo de manutenção de poder?

Sobre falta de dados detalhados e precisos da região, o economista não a interpreta como uma falha técnica, mas como um mecanismo de manutenção de poder. Segundo ele, quando o poder público deixa de produzir ou divulgar informações claras sobre o PIB local, cadeias de suprimentos ou impactos sociais, instala-se um ‘apagão estatístico’, que dificulta à sociedade civil e à academia questionar a eficácia das políticas públicas ou a distribuição da riqueza gerada pelo turismo.

“A economia da região ainda é muito influenciada por grupos tradicionais, o agro e agora hotelaria. A falta de dados permite que grandes investimentos sejam aprovados sem estudos de impacto de vizinhança robustos, favorecendo o crescimento econômico imediato em detrimento do desenvolvimento social de longo prazo”, explicou.

E uma população com acesso limitado à educação técnica e sem dados em mãos tende a ter uma postura mais reativa do que propositiva. “Sem indicadores de desigualdade ou custo de vida, fica difícil para o cidadão comum perceber que, embora o PIB do município cresça, sua renda real ou qualidade de vida podem estar estagnadas”, disse Leão.

Economista avalia que dinâmica gera crescimento importado: "lucro sai da região e a população local fica com os subempregos e o ônus da infraestrutura sobrecarregada" (Foto: Ascom São Miguel dos Milagres)

Toda essa dinâmica acaba gerando um crescimento importado, em que o capital vem de fora, o lucro sai da região e a população local fica com os subempregos e o ônus da infraestrutura sobrecarregada.

Para superar essa dificuldade de ‘apagão de dados’, o economista disse que seria necessário o fortalecimento de algumas instituições que atuam na região, como conselhos de turismo e associações comerciais. “Seria o caminho para exigir essa transparência. Ou a pressão precisaria vir de organismos externos, como o Ministério Público e o Tribunal de Contas. Esses órgãos externos e sem influência política predatória poderiam ser grandes aliados da população rumo a um tipo de desenvolvimento mais inclusivo e redutor de desigualdades”, finalizou.