Crise se arrasta por décadas e leva profissionais à fome e abandono da profissão em hospital de Maceió

Com salários atrasados há anos, trabalhadores relatam dívidas, insegurança e dependência de ajuda para sobreviver

Por Ana Paula Omena, Lucas França e Valdete Calheiros - Repórteres / Revisão: Bruno Martins | Redação Tribuna Hoje

A rotina de quem trabalha no Hospital Veredas, em Maceió, deixou de ser apenas sobre cuidar de pacientes. Entre plantões e a responsabilidade com a vida de pacientes, profissionais da unidade enfrentam uma crise que se prolonga há mais de duas décadas: atrasos salariais constantes, acúmulo de dívidas e dificuldades para manter necessidades básicas. “Tem gente passando fome”, relata um trabalhador da enfermagem, sob condição de anonimato por medo de represálias.

O cenário, segundo os próprios funcionários, expõe um desgaste contínuo. De um quadro que já contou com cerca de 1.200 trabalhadores, o hospital hoje opera com aproximadamente metade desse número. Em meio à greve, relatos indicam que parte dos profissionais abandonou a área da saúde e migrou para setores como comércio e teleatendimento, em busca de estabilidade financeira.

Foto: Freepik


Para quem permanece, a realidade é marcada por incertezas. A técnica de enfermagem identificada apenas como Arielle (nome fictício) afirmou que, ao longo dos últimos cinco anos, enfrentou atrasos frequentes e chegou a passar até três meses sem receber salário. “Já tive que pedir dinheiro emprestado para comprar itens essenciais e pagar contas. Quando o pagamento sai, ele já está comprometido com dívidas e juros”, disse.

A crise, que ultrapassa o ambiente hospitalar, impacta diretamente a vida pessoal dos trabalhadores, que relatam contas atrasadas, falta de alimentos e dependência da ajuda de terceiros para sobreviver.


ATRASOS EXPÕEM CRISE PROLONGADA

TRABALHADORES RELATAM DESISTÊNCIA DA PROFISSÃO E PEDIDOS DE AJUDA PARA SOBREVIVER


Há mais de 20 anos os funcionários foram obrigados a conviver com os atrasos iniciais de salários. À época, eram 1.200 funcionários. Atualmente, contou a presidente Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Alagoas (Sineal) Cinthia Carvalho, o Hospital Veredas conta com a metade apenas. Os funcionários continuam em greve.

A técnica de enfermagem Arielle relata dificuldades enfrentadas ao longo dos últimos cinco anos de trabalho no Hospital Veredas. Segundo ela, o período tem sido marcado por prejuízos financeiros e emocionais causados por atrasos frequentes nos pagamentos e pela falta de condições dignas de trabalho.

Arielle também destaca o impacto psicológico causado pela instabilidade. “A situação por lá nunca foi fácil. Tenho colegas que, de tanta pressão, 'pediram para sair'. É como se a gente não estivesse trabalhando, porque quando pegamos dinheiro emprestado, o salário só serve para quitar dívidas. Trabalhamos para manter a casa, comprar comida e remédios, mas sem receber, como fazer isso?”, questiona.


INCERTEZAS

Segundo ela, mesmo quando há pagamento parcial, a incerteza permanece. “A gente fica se perguntando se no mês seguinte vai receber na data certa, se os colegas também receberam. Quando vamos reclamar, dizem apenas que estão aguardando recursos para a folha de pagamento, mencionam convênios e repasses do Sistema Único de Saúde (SUS), mas nada se resolve”, relatou.

A profissional afirma que os protestos realizados pelos trabalhadores têm como objetivo dar visibilidade à situação. “Queremos fazer nosso serviço corretamente. Não gostamos de deixar pacientes sem atendimento, mas precisamos do mínimo e de melhores condições de trabalho. Trabalhamos por amor, sim, mas esse amor precisa de retorno, porque também temos famílias para sustentar. Ninguém consegue trabalhar sem receber”, disse.

Ela ainda ressalta os efeitos na saúde dos profissionais. “Quando a situação chega a esse ponto, a gente adoece, física e emocionalmente”, completou.

Apesar das dificuldades, Arielle afirma que ainda não deixou o emprego por falta de alternativas. “Não é fácil conseguir um novo trabalho e a gente sabe que a situação não está simples em lugar nenhum. Não temos para onde correr”, concluiu, dizendo que para se manter, teve que buscar uma alternativa. “Quando não estou na escala do hospital, eu faço home care, tenho os pacientes particulares e recebo por plantão”.


CRISE NÃO É ISOLADA, MAS CENÁRIO EXTREMO CHAMA ATENÇÃO

Atrasos salariais na área da saúde são registrados em diferentes regiões do país, especialmente em unidades que dependem de repasses públicos ou enfrentam problemas de gestão.

No entanto, a combinação de meses sem pagamento, greve prolongada, intervenção judicial e impacto direto na sobrevivência dos trabalhadores coloca o caso do Hospital Veredas entre os mais graves já registrados no país.

A situação não é única no mundo, mas repete um padrão observado em sistemas de saúde em crise, quando profissionais seguem trabalhando mesmo sem remuneração, diante da falta de substituição e da necessidade de manter o atendimento.

Trabalhadores deixam a profissão

Sem previsão de regularização, parte dos profissionais decidiu abandonar a enfermagem. Segundo relatos, alguns deles passaram a atuar em outras funções para garantir renda imediata. Outros retornaram para a casa de familiares ou passaram a depender de apoio externo.

Mesmo diante das dificuldades, parte da equipe segue em atividade para manter o funcionamento dos serviços.




Trabalhadores deixam a profissão Sem previsão de regularização, parte dos profissionais decidiu abandonar a enfermagem.

ATRASOS SE ACUMULAM E MOBILIZAM PROTESTOS


A crise no hospital não é recente. Trabalhadores denunciam atrasos salariais que chegam a meses, além do não pagamento de benefícios como 13º salário e férias.

O Ministério Público do Trabalho em Alagoas (MPT/AL) tem atuado no acompanhamento das denúncias envolvendo o Hospital Veredas especialmente no que diz respeito a demissões em massa, atrasos salariais e falta de pagamento de verbas rescisórias. Em resposta a questionamentos da reportagem do portal Tribuna Hoje, o órgão detalhou as medidas adotadas e o andamento das negociações com a unidade hospitalar e sindicatos da saúde.

De acordo com o MPT, em audiência realizada no dia 24 de janeiro de 2025, ficou estabelecido que futuros desligamentos de funcionários devem ser previamente discutidos com as entidades sindicais. A medida busca proteger trabalhadores em situação mais vulnerável, como aqueles afastados por motivos de saúde ou próximos da aposentadoria.

Foto: Edilson Omena

Na ocasião, o Hospital Veredas justificou as demissões como parte de um processo de reestruturação administrativa. A unidade apresentou documentos como atas de reuniões, comunicados enviados aos sindicatos e Termos de Rescisão de Contrato de Trabalho (TRCTs) referentes às demissões realizadas em janeiro daquele ano.

Sobre as demissões ocorridas antes da audiência, os sindicatos foram consultados para identificar possíveis irregularidades. O Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem de Alagoas (Sateal) informou que apenas uma trabalhadora estava prestes a se aposentar, mas optou por não retornar ao cargo após ser aprovada em concurso público. Posteriormente, o sindicato relatou que duas técnicas chegaram a demonstrar interesse na reintegração, mas desistiram. Já o Sineal comunicou, em maio de 2025, que todas as enfermeiras demitidas tiveram suas dispensas anuladas. O Sindicato dos Trabalhadores da Saúde (Sintecal), por sua vez, informou que não houve desligamentos em sua categoria.

Em relação aos números gerais, o hospital apresentou, em setembro de 2025, uma lista indicando a demissão de 204 trabalhadores entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025. Deste total, 108 ingressaram com ações trabalhistas, enquanto 96 não acionaram a Justiça. Já em março de 2026, a direção da unidade informou que o pagamento das verbas rescisórias seria realizado conforme o ajuizamento das ações, em razão de um controle determinado pela Justiça Federal.

MPT DIZ QUE PROBLEMAS ENFRENTADOS POR PROFISSIONAIS DO VEREDAS PERSISTEM

Sobre denúncias de desligamentos de funcionários em tratamento de saúde ou com problemas psicológicos, o MPT afirmou que não possui dados consolidados sobre esses casos específicos.

Apesar das medidas adotadas, o órgão reconhece que os problemas enfrentados pelos profissionais persistem. O MPT segue atuando por meio de audiências, mediações e acompanhamento judicial para tentar garantir o cumprimento dos direitos trabalhistas e minimizar os impactos causados aos trabalhadores da unidade hospitalar.

Foto: Freepik

A reportagem também entrou em contato com o Ministério Público de Alagoas (MP/AL) e com a Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Alagoas (OAB/AL) para saber se acompanham a situação do hospital ou se há alguma denúncia conjunta dos funcionários sobre a precariedade na unidade.

O MP/AL disse que acompanha o caso, mas o promotor responsável prefere não se pronunciar publicamente sobre as ações. Já a OAB/AL explicou que não acompanha o caso e que isso só é feito quando o órgão é provocado via comissão do trabalho.

INTERVENÇÃO JUDICIAL

A Defensoria Pública da União (DPU) é uma das autoras da Ação Civil Pública que garantiu, por meio de acordo, a intervenção judicial no Hospital Veredas, com o escopo de diagnosticar e superar os problemas financeiros e estruturais enfrentados pelo hospital nos últimos anos, inobstante o recebimento de elevado montante de verbas públicas federais, estaduais e municipais, tendo como objetivo a retomada plena e irrestrita da prestação do serviços público no âmbito do SUS, que é de extrema relevância para a rede pública e para os usuários de Alagoas.

Já a Defensoria Pública Estadual afirmou acompanhar a situação dos pacientes que precisam de algum atendimento médico e não conseguem devido à crise. O acompanhamento é feito pelo Núcleo da Saúde ou pelo Núcleo de Defesa do Consumidor. A Defensoria explicou que o paciente ou representante do paciente que precisar pode buscar o atendimento da Defensoria Pública na subsede no bairro do Poço, na capital alagoana.

Os casos do SUS são acompanhados pela Seção de Saúde Pública e os casos de pacientes com planos de saúde, pelo Núcleo de Defesa do Consumidor.

A Sesau informou que acompanha com atenção a situação assistencial e administrativa do Hospital Veredas, reafirmando o compromisso com a manutenção dos serviços de saúde oferecidos à população alagoana.

Secretaria de Estado da Saúde - Foto: Ascom Sesau

A Secretaria de Estado da Saúde reforçou ainda sua sensibilidade diante do cenário enfrentado pela unidade e divulgou que mantém o diálogo aberto com a administração do hospital, visando sempre o equilíbrio do sistema de saúde e o respeito aos profissionais e pacientes.

O Ministério Público Federal (MPF) de Alagoas afirmou que no âmbito da Ação Civil Pública que obteve decisão judicial por intervenção no Hospital Veredas, acompanha a situação com atenção não apenas à continuidade da prestação do serviço de saúde, mas também aos impactos decorrentes para os trabalhadores da unidade.

Assim, o MPF disse que tem buscado informações atualizadas sobre o funcionamento do hospital, inclusive quanto à regularidade de vínculos, condições de trabalho e eventuais atrasos ou inadimplências que possam afetar os profissionais.

Foto: Sandro Lima

“Esse acompanhamento ocorre em reuniões com representantes de trabalhadores, diálogo com gestores e órgãos públicos envolvidos. É importante destacar que, em questões diretamente relacionadas a direitos trabalhistas, há atuação específica do Ministério Público do Trabalho, com quem o MPF mantém interlocução, sempre que necessário, para garantir uma atuação articulada e eficaz. O objetivo do MPF é contribuir para que eventuais soluções adotadas para o hospital considerem, de forma responsável, a proteção dos trabalhadores, evitando violação de direitos, descontinuidade de vínculos e assegurando que medidas sejam conduzidas com transparência e respeito”.


Hospital Veredas destaca reestruturação e

afirma priorizar regularização trabalhista e assistência aos pacientes

Em meio ao processo de reestruturação administrativa e financeira, o Hospital Veredas afirmou que vem adotando medidas para equilibrar as operações da unidade, regularizar obrigações trabalhistas e fortalecer a assistência prestada, especialmente aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Em nota, a direção destacou que as mudanças fazem parte de um processo de reorganização institucional e ressaltou que mantém diálogo com as equipes durante a implementação das medidas.

Veja a nota na íntegra abaixo:

O Hospital Veredas avança em seu processo de reestruturação administrativa e financeira, priorizando a regularização de obrigações trabalhistas e a eficiência operacional. A gestão assegura que tem atuado com responsabilidade para sanar pendências e cumprir os compromissos assumidos, preservando um canal de diálogo aberto e transparente com todas as equipes. Quanto às movimentações funcionais, é fundamental destacar que o cenário recente foi marcado por um fenômeno de transição institucional.

Além das adequações conduzidas entre o final de 2024 e o início de 2025 para corrigir ociosidades em setores inativos, a unidade registrou, ao longo de todo o ano de 2025, um número expressivo de pedidos de desligamento por iniciativa dos próprios profissionais. Esse volume de saídas voluntárias superou o quantitativo de desligamentos realizados no início da intervenção judicial, evidenciando uma rotatividade natural dentro do processo de transformação da unidade.

Atualmente, as ações de gestão seguem a diretriz de otimização de processos e melhor alocação de recursos. Tais medidas são indispensáveis para equilibrar a operação hospitalar e garantir que os investimentos sejam direcionados à assistência direta ao paciente e à estabilidade do corpo técnico atual. "Nossa prioridade é transformar o Hospital Veredas em uma instituição técnica, eficiente e financeiramente saudável. Honrar os acordos com nossos colaboradores e ajustar a estrutura funcional são passos necessários para que a assistência aos alagoanos, especialmente via SUS, nunca seja interrompida", afirma a Direção Geral do Hospital Veredas.