O sertão que contei, o sertão que eles viram

Entre narrativas do cangaço e mergulhos no Rio São Francisco, Piranhas revela o papel do Banco do Nordeste no fortalecimento do turismo

Por Thayanne Magalhães - Reportagem e foto de capa / Bruno Martins - Revisão | Redação Tribuna Hoje

Piranhas nunca foi, para mim, apenas um destino — sempre foi uma promessa adiada. Há anos cultivo uma devoção pelo Rio São Francisco, um afeto que nasce daquilo que ele representa e daquilo que ele silencia. Faltava, no entanto, o gesto mais importante: apresentá-lo aos meus filhos. Foi assim que, numa sexta-feira, dia 13, ao meio-dia, parti com Gabriel e Vicente para um encontro que eu vinha ensaiando havia tempo demais — o deles com o rio, e o meu com a certeza de que algumas paixões só se completam quando são compartilhadas.

A estrada se alongou sob o sol firme do sertão até que a noite nos alcançou já em Piranhas. Foi ali, na casa de dona Tereza, que nos instalamos. Ela e o marido, Francisco, nos receberam com uma delicadeza antiga, dessas que não se ensinam — acolhem. Havia algo de avó no jeito dela, algo de porto seguro na maneira como ele nos indicava onde sentar, o que provar, como descansar.

Descemos as ladeiras na saída da casa, fincada em um morro bem ao lado das torres de entrada do Centro Histórico, para onde fomos caminhando, jantamos sem pressa e, depois, sob a tranquilidade das luzes amareladas que repousavam sobre os casarios como se o tempo tivesse decidido ficar.

Na manhã seguinte, atravessei o rio dirigindo até o outro lado, em Sergipe, guiada por uma curiosidade quase infantil de mostrar aos meninos a escala das coisas que os livros não alcançam. Foi quando surgiu, imensa e silenciosa, a Usina Hidrelétrica de Xingó — uma obra que não apenas corta o curso do Rio São Francisco, mas redesenha a paisagem e o imaginário de quem a vê. “Olha o tamanho desse lugar”, exclamavam minhas crianças de nove e 12 anos.

(Foto: Thayanne Magalhães)

Dali, seguimos até o catamarã que nos levaria pelos Cânions do Xingó — esses corredores de pedra que guardam uma das maiores formações navegáveis do planeta. O vento batia leve, e o rio, verde e profundo, parecia nos conduzir com uma paciência milenar. Em determinado ponto, trocamos o barco por uma canoa estreita que nos levou até a Gruta Talhado, onde navegamos em silêncio, para não assustar aquelas pedras milenares. Mergulhamos na água: era fria, densa, de um verde quase irreal — como se o próprio rio nos convidasse a entrar em sua história.

Navegamos de volta, atravessamos novamente a ponte entre os dois estados e chegamos a Alagoas. O dia se despediu com um esforço recompensado. Subimos, um a um, os mais de 360 degraus até o Mirante Secular de Piranhas. No alto, o mundo se organizava em silêncio: a cidade desenhada em cores, o rio serpenteando com elegância, o sertão se estendendo até onde os olhos não alcançam. Gabriel observava calado. Vicente fazia perguntas que eu não precisava responder. Às vezes, a paisagem explica tudo.

'Esse rio parece até o mar entre as montanhas, mamãe. É tão bonito quanto a senhora me fazia imaginar', disse o pequeno

(Foto: Thayanne Magalhães)

Entre heróis e foras da lei: o sertão de chapéu de couro

Eles já conheciam aquela história — ou, pelo menos, achavam que conheciam. Muitas vezes, antes de dormir, eu tinha contado a Gabriel e Vicente sobre homens e mulheres que cruzavam o sertão como personagens de um faroeste brasileiro, desafiando o medo e a lei. Por isso, quando seguimos em direção à Grota de Angicos, não era exatamente novidade. Era, antes, o reencontro com algo que já habitava o imaginário deles.

Repeti, agora com o cenário diante dos nossos olhos, que tudo começou no calor duro do sertão, entre o fim do século XIX e o início do XX, quando o cangaço transformou a Caatinga em território de disputa e sobrevivência. Sob o comando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, os bandos percorriam estados inteiros, sempre em fuga das volantes, vestindo couro, ornamentos e carregando uma fama que nunca coube em uma única versão: heróis para uns, criminosos para outros.

Eles lembravam de Maria Bonita — “a rainha”, como Vicente repetiu, com a familiaridade de quem já tinha ouvido aquela parte mais de uma vez. Eu confirmei, acrescentando que foi com a chegada dela, em 1930, que a história ganhou ainda mais força, mais presença, mais ruptura com o que se esperava daquele tempo.

Maria Bonita e Lampião (Foto: Divulgação)

Mas havia um ponto da narrativa que, mesmo já contado, parecia sempre suspenso — como se aguardasse o momento certo para ganhar forma. E ele chegou ali. Diante da grota, retomei o desfecho que tantas vezes eu havia suavizado nas noites em casa: na madrugada de 28 de julho de 1938, o esconderijo foi delatado. As volantes, comandadas pelo tenente João Bezerra, cercaram o local ao amanhecer. O ataque foi rápido, violento, definitivo. Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros foram mortos quase sem reação.

Desta vez, não havia como poupar detalhes. Eles olhavam ao redor enquanto eu explicava que, depois, os corpos foram decapitados e expostos — um gesto extremo que marcou o fim simbólico do cangaço. Gabriel já não fazia perguntas. Vicente também não. A história que antes cabia na imaginação agora ocupava o espaço real, com o peso que só o lugar é capaz de dar.

E foi nesse silêncio, compartilhado entre nós três, que entendi: algumas histórias a gente conta para preparar. Outras, só o chão onde elas aconteceram é capaz de explicar.

Local onde cangaceiros foram executados (Foto: Thayanne Magalhães)

Depois da trilha debaixo do calor do sertão, uma hora indo, uma hora vindo, aproveitamos para aliviar o calor no Velho Chico. Teve peixe, salada e tobogã. E na volta, a parte que parecia a mais divertida para Vicente, a rede onde podia viajar recebendo “massagem” do rio enquanto o catamarã nos levava para a despedida do nosso final de semana imerso em história e Caatinga.

De volta a Piranhas, a vida seguia em outro ritmo. Restaurantes, passeios, guias, pequenos negócios — tudo articulado em torno do rio e da memória. O turismo ali não é apenas encanto: é sustento, continuidade, permanência. E é nesse ponto que a experiência individual encontra um sentido mais amplo.

O Banco do Nordeste aparece como uma dessas pontes discretas, mas essenciais. Por meio de linhas de crédito voltadas ao turismo, à gastronomia e aos pequenos empreendimentos, a instituição tem contribuído para que cidades como Piranhas não apenas preservem sua história, mas a transformem em oportunidade concreta de desenvolvimento.

Na volta, enquanto o sertão escurecia lentamente pela janela, compreendi que não tinha levado meus filhos apenas a um destino. Eu os tinha conduzido a um encontro — com o rio, com o tempo, com as histórias que nos antecedem e, de algum modo, continuam a nos escrever.

E o Rio São Francisco, sereno como sempre, seguiu seu curso — levando consigo um pouco de nós e deixando, em troca, muito mais do que viemos buscar.

Crédito que transforma paisagem em oportunidade

Para quem chega, Piranhas é encontro com a beleza e a história. Para quem vive do turismo ali é também planejamento, investimento e permanência. Por trás de pousadas familiares, restaurantes e passeios que cortam o Rio São Francisco, existe uma base menos visível — mas determinante — de crédito estruturado.

É nesse cenário que atua o Banco do Nordeste, por meio de diferentes linhas financiadas com recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), principal instrumento de desenvolvimento regional do país.

Entre elas, o FNE Proatur se destaca por atuar diretamente na cadeia produtiva do turismo, com foco na geração de emprego e no fortalecimento das potencialidades locais.

À frente da agência de Delmiro Gouveia, o gerente geral José Pessoa Júnior explica como essa engrenagem chega ao cotidiano de cidades como Piranhas: “quando o crédito é bem aplicado, ele muda a dinâmica econômica do território. O turismo deixa de ser apenas vocação e passa a ser atividade estruturada, capaz de gerar renda de forma contínua”, afirmou.

O programa financia desde a implantação de empreendimentos até sua modernização e ampliação, incluindo construção, reforma, aquisição de veículos, embarcações, equipamentos e até serviços especializados de consultoria e monitoramento.

Na prática, isso significa viabilizar desde pequenos negócios familiares até estruturas mais complexas, conectando diferentes elos do setor. “A cadeia do turismo é ampla. Quando apoiamos um empreendimento, impactamos transporte, alimentação, serviços e toda a rede que gira em torno do visitante”, destacou o gerente.

Gerente da agência do BNB em Delmiro Gouveia, José Pessoa Júnior (Foto: Arquivo pessoal)

Além do Proatur, linhas como o FNE-MPE Turismo ampliam o alcance para micro e pequenas empresas, permitindo financiar até 100% do investimento, incluindo capital de giro associado — um fator decisivo para negócios em regiões com sazonalidade.

Os prazos longos, que podem chegar a 20 anos em projetos estruturantes como meios de hospedagem, representam um diferencial importante. Eles permitem que o investimento se converta em sustentabilidade econômica ao longo do tempo.

“As condições são pensadas para a realidade do Nordeste. O empreendedor consegue investir hoje e pagar com o próprio crescimento do negócio. Isso faz toda a diferença em regiões turísticas como o sertão alagoano”, explicou José Pessoa Júnior.

Mais do que números, o impacto aparece na paisagem e na rotina. O crédito financia melhorias que o visitante percebe — e oportunidades que permanecem com quem vive ali.

“Quando o turismo cresce com planejamento, ele preserva a identidade local e amplia as oportunidades. O crédito não substitui a história, mas permite que ela continue sendo contada”, resumiu o gerente.

Em Piranhas, onde cada rua guarda um capítulo e o rio segue como protagonista, o desenvolvimento também passa por essas decisões silenciosas. E é nelas que o passado encontra espaço para continuar existindo — agora, com perspectiva de futuro.

Do sonho à estrutura: quando o crédito viabiliza o turismo

Se, para quem visita Piranhas, a experiência se traduz em paisagens e memória, para quem empreende ali o desafio é outro: transformar potencial em estrutura, fluxo em permanência, e movimento em renda. À frente do Complexo Turístico Serra do Sol, o empresário Rafael Clemente é um dos exemplos de como o crédito pode ser o ponto de partida para esse processo.

“O projeto só saiu do papel porque tivemos acesso ao financiamento. O Banco do Nordeste foi essencial para viabilizar desde a construção até a aquisição de equipamentos e tudo que envolve colocar um empreendimento desse porte de pé”, afirmou.

Empresário Rafael Clemente (Foto: Arquivo pessoal)

O Complexo Serra do Sol nasce com a proposta de atuar em duas frentes complementares dentro do turismo local. A primeira delas já é realidade desde abril de 2023: o Centro Gastronômico Rota do Chico. Com 12 operações que vão de alimentação a artesanato, moda praia e entretenimento infantil, o espaço tem capacidade para atender até 600 pessoas simultaneamente.

Gastronomia como porta de entrada

Inserido em uma cidade que já se consolidou como um dos principais destinos turísticos de Alagoas, o Rota do Chico surgiu para responder a uma demanda crescente — tanto de visitantes quanto da própria população local.

“A ideia foi ampliar a oferta com qualidade e diversidade. Hoje, conseguimos atender bem quem chega e também quem mora aqui. Isso fortalece o destino como um todo”, explicou Rafael Clemente.

Centro Gastronômico Rota do Chico (Foto: Divulgação)

Mais do que um ponto de apoio ao turista, o centro gastronômico se tornou um espaço de convivência e circulação econômica, reunindo diferentes pequenos negócios em um mesmo ambiente e ampliando as oportunidades dentro da cadeia produtiva do turismo.

Um novo atrativo para prolongar a experiência

A segunda etapa do projeto já está em andamento e carrega uma expectativa ainda maior. Com previsão de inauguração para o segundo semestre de 2026, o Parque Aquático Serra do Sol deve se tornar um novo polo de atração na região dos cânions do Rio São Francisco.

O empreendimento ocupa uma área de mais de 20 mil metros quadrados e terá capacidade estimada para receber até 80 mil visitantes por ano. A estrutura inclui não apenas atrações aquáticas, mas também uma arena de esportes de areia, com modalidades como beach tennis, vôlei de praia e futmesa.

“A proposta é criar um produto turístico âncora, assim como já são os passeios náuticos. Quando você amplia as opções, aumenta o tempo de permanência do turista, e isso impacta toda a economia local”, destacou o empresário.

Segunda etapa do projeto está em andamento (Foto: Divulgação)

Segundo ele, essa lógica é fundamental para regiões como Piranhas, onde o turismo ainda tem espaço para crescer de forma estruturada e integrada.

O papel do crédito no desenvolvimento local

Para Rafael Clemente, o financiamento não representa apenas viabilidade financeira, mas também segurança para investir em escala e com planejamento. “Não é só construir. É ter fôlego para estruturar, operar e crescer. O apoio do banco permite pensar o negócio no longo prazo”, afirmou.

Ele também destacou a relação direta com a agência do banco na região. “Contamos com o apoio constante da equipe da agência de Delmiro Gouveia, que entende a realidade local e acompanha de perto os projetos. Isso faz diferença para quem está empreendendo”.

Ao viabilizar iniciativas como o Complexo Serra do Sol, o crédito contribui para algo que vai além do empreendimento individual. Ele impulsiona uma cadeia inteira — que envolve fornecedores, trabalhadores, serviços e outros negócios que orbitam o turismo.

“Nosso objetivo é continuar investindo no maior potencial econômico da região, que é o turismo. E isso só é possível com parceiros que acreditam nesse desenvolvimento junto com a gente”, concluiu o gerente José Pessoa Júnior.

Em um cenário onde cada novo equipamento turístico amplia horizontes, histórias como essa mostram que, por trás da experiência de quem visita, existe uma base sólida sendo construída — e financiada — para sustentar o crescimento de destinos como Piranhas.