PSICÓLOGA SONJA CAMELO

OUTUBRO ROSA: O CUIDADO NÃO TEM DATA PARA TERMINAR

PSICÓLOGA SONJA CAMELO 29 de outubro de 2026

Naquela manhã, enquanto organizava a agenda da família, ela percebeu que havia consultas marcadas para todos.

O marido precisava retornar ao cardiologista. A mãe tinha exames pendentes. Os filhos, compromissos que não podiam ser esquecidos.

Tudo cuidadosamente anotado.

Até que, entre um compromisso e outro, encontrou uma solicitação de mamografia. A sua. Guardada havia meses.

Olhou para o papel e pensou: “Depois eu marco.”

Era sempre depois.

Depois que os filhos estivessem bem. Depois que a casa estivesse em ordem. Depois que sobrasse tempo.

Mas o tempo, curiosamente, nunca sobrava para ela.

Lá fora, outubro coloria as vitrines de rosa. Campanhas lembravam às mulheres a importância da prevenção. E ela, que jamais esquecia de cuidar de alguém, havia se esquecido de si.

Quantas mulheres não vivem assim?

Transformam o cuidado em missão, a dedicação em rotina e, sem perceber, confundem amor com renúncia de si mesmas.

Naquela manhã, porém, algo lhe ocorreu: desde quando amar os outros passou a significar abandonar a si mesma?

A pergunta parecia simples, mas carregava uma verdade profunda.

Amar é querer o bem. E a própria vida também é um bem que nos foi confiado, digno de zelo, respeito e responsabilidade.

Talvez a prudência começasse naquele pequeno gesto de não adiar mais uma consulta. Talvez a fortaleza estivesse justamente em enfrentar o medo de um resultado. E talvez a temperança lhe ensinasse que até a dedicação precisa reconhecer limites.

Ela pegou o telefone e marcou o exame.

Nada de extraordinário aconteceu.

A casa continuou precisando de cuidados. Os compromissos permaneceram na agenda. A vida seguiu com suas urgências habituais.

Mas alguma coisa havia mudado.

Pela primeira vez em muito tempo, ela compreendera que o amor verdadeiro não exige o abandono de quem ama.

E que uma mulher não precisa adoecer para merecer atenção, nem chegar à exaustão para se permitir descansar.

Quando outubro terminar, as vitrines perderão seus laços cor-de-rosa, as campanhas se despedirão e o calendário seguirá adiante.

Mas espero que aquela pequena decisão permaneça.

Porque talvez o maior ensinamento do Outubro Rosa não esteja apenas em lembrar às mulheres que precisam fazer seus exames, mas em ajudá-las a compreender que também merecem o cuidado que oferecem ao mundo.

Afinal, quem passa a vida inteira cuidando de tantos corações não pode esquecer que também carrega um dentro do peito.

E esse coração também merece amor.