PSICÓLOGA SONJA CAMELO
OUTUBRO ROSA: O CUIDADO NÃO TEM DATA PARA TERMINAR
Naquela manhã, enquanto organizava a agenda da família, ela percebeu que havia consultas marcadas para todos.
O marido precisava retornar ao cardiologista. A mãe tinha exames pendentes. Os filhos, compromissos que não podiam ser esquecidos.
Tudo cuidadosamente anotado.
Até que, entre um compromisso e outro, encontrou uma solicitação de mamografia. A sua. Guardada havia meses.
Olhou para o papel e pensou: “Depois eu marco.”
Era sempre depois.
Depois que os filhos estivessem bem. Depois que a casa estivesse em ordem. Depois que sobrasse tempo.
Mas o tempo, curiosamente, nunca sobrava para ela.
Lá fora, outubro coloria as vitrines de rosa. Campanhas lembravam às mulheres a importância da prevenção. E ela, que jamais esquecia de cuidar de alguém, havia se esquecido de si.
Quantas mulheres não vivem assim?
Transformam o cuidado em missão, a dedicação em rotina e, sem perceber, confundem amor com renúncia de si mesmas.
Naquela manhã, porém, algo lhe ocorreu: desde quando amar os outros passou a significar abandonar a si mesma?
A pergunta parecia simples, mas carregava uma verdade profunda.
Amar é querer o bem. E a própria vida também é um bem que nos foi confiado, digno de zelo, respeito e responsabilidade.
Talvez a prudência começasse naquele pequeno gesto de não adiar mais uma consulta. Talvez a fortaleza estivesse justamente em enfrentar o medo de um resultado. E talvez a temperança lhe ensinasse que até a dedicação precisa reconhecer limites.
Ela pegou o telefone e marcou o exame.
Nada de extraordinário aconteceu.
A casa continuou precisando de cuidados. Os compromissos permaneceram na agenda. A vida seguiu com suas urgências habituais.
Mas alguma coisa havia mudado.
Pela primeira vez em muito tempo, ela compreendera que o amor verdadeiro não exige o abandono de quem ama.
E que uma mulher não precisa adoecer para merecer atenção, nem chegar à exaustão para se permitir descansar.
Quando outubro terminar, as vitrines perderão seus laços cor-de-rosa, as campanhas se despedirão e o calendário seguirá adiante.
Mas espero que aquela pequena decisão permaneça.
Porque talvez o maior ensinamento do Outubro Rosa não esteja apenas em lembrar às mulheres que precisam fazer seus exames, mas em ajudá-las a compreender que também merecem o cuidado que oferecem ao mundo.
Afinal, quem passa a vida inteira cuidando de tantos corações não pode esquecer que também carrega um dentro do peito.
E esse coração também merece amor.
PSICÓLOGA SONJA CAMELO
Sobre
Psicóloga Clínica e professora do Cesmac estudiosa da Psicologia Tomista, possue edição de livro infantil.




