Petrucia Camelo

FINADOS: EX-VOTOS

Petrucia Camelo 27 de outubro de 2026

Dois de novembro é dia de cultuar os mortos; também é dia propício para reflexão e, embora pareça incoerência, é dia para se refletir sobre a vida, porque todos procuram explicação para esse fato. Nisso está inclusa a procura de um significado para a morte, tal é a relação entre ambos.

O espirito humano transita nessa trajetória, e nesse trâmite entre vida e morte, somente se tem a certeza de que a vida física ocorreu quando acaba preenchendo os campos santos, em cuja lápide está a inscrição de identificação da importância daquela vida.

Pelo dia especial de saudades, Dia de Finados particulariza-se, fazendo menção ao cemitério municipal de São José, cognominado de cemitério dos Pobres, ou do Caju, onde, logo no portão de entrada, se lê no seu frontispício Mortvis Moritvri (aos mortos os que hão de morrer), situado na AV: Siqueira Campos, no Bairro do Trapiche da Barra em Maceió.

No citado cemitério de São José, à revelia de qualquer coisa, inclusive de maiores cuidados, lá em meio ao descaso governamental do Município, encontra-se, entre os túmulos da pobreza, o mausoléu de um menino nascido em 5 de fevereiro de 1925, batizado em vida com o nome de Petrúcio Correia que, após o seu falecimento, ocorrido em 25 de abril de 1938, acometido de febre tifoide, foi batizado pelos devotos como “Santo Petrúcio”.

Essa história teve início na Casa dos Pobres no bairro do Vergel do Lago entre as freiras da Congregação “Filhas da Caridade de São Vicente de Paula”, onde aquela criança viveu por seis anos e sempre apresentou virtudes evangélicas. Seu túmulo recebe visitas constantes de devotos de todo o Brasil; sobre o seu jazigo acumulam-se ex-votos, agradecimentos por graças alcançadas.

Mas o que faz o reconhecimento da santidade dos mortos e a movimentação dos vivos é justamente esse caminhar de peregrinos por longos anos, de veneração que se atribui a santidade do Menino Petrúcio. Muitos anos depois, chamou a atenção da Igreja, que agora começa a se interessar a dar os primeiros passos sobre esses relatos de promessas alcançadas, que já chegou a ser tema de um trabalho de conclusão de curso de Teologia apresentado no mês de outubro de 2006, com o título de: “Menino Petrúcio Vida e Santidade” promovido pelo Seminário Provincial Nossa Senhora da Assunção, por dois seminaristas: Gilberto Pinheiro dos Santos e Reginaldo Luiz Soares, sob a orientação do professor Álvaro Queiroz.

Mas vê-se outro aspecto que se empresta aos cemitérios, situados no primeiro mundo, que, além de se prestarem às suas reais finalidades, sem perderem o respeito pelos mortos e nem banalizarem a morte, divulgaram os seus endereços em roteiros turísticos para visitação pública, tanto quanto são os grandes santuários. Tais é a valorização dada aos túmulos de pessoas que foram importantes no desenvolvimento de várias áreas, enquanto vivas; essa iniciativa gera recursos para os cofres públicos.

Os cemitérios ainda oferecem uma atenção à parte; a ornamentação e as instalações físicas dos mausoléus, onde estão expostas verdadeiras obras de arte, assinadas por grandes arquitetos. Cultuar os mortos, além de ser um dever cristão, faz-se importante a divulgação de seus legados de valores, exemplo para as novas gerações, não deixando que eles passem despercebidos. Senão perder-se-ão no tempo, onde tudo se renova.