PSICÓLOGA SONJA CAMELO

O AMOR QUE SE TORNA ALIANÇA

PSICÓLOGA SONJA CAMELO 20 de outubro de 2026

Há um instante na vida em que duas pessoas, diante de Deus, olham uma para a outra e pronunciam uma promessa que parece caber em poucas palavras, mas que levará uma vida inteira para ser compreendida:

“Prometo amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.”

Naquele momento, os olhos brilham, as mãos se entrelaçam e o coração parece conhecer todas as respostas.

Mas será que conhece?

Será que, ao dizer “para sempre”, compreendemos verdadeiramente o tamanho da eternidade que desejamos colocar dentro do tempo?

O amor costuma chegar delicadamente.

Às vezes, começa num olhar que se demora, numa conversa que não queremos terminar, num sorriso que, sem pedir licença, passa a morar em nossos pensamentos.

E então sonhamos.

Sonhamos com uma casa, uma família, uma mesa rodeada de filhos, viagens, domingos tranquilos e uma velhice de mãos dadas.

Mas há algo que os sonhos raramente nos contam: o amor não será provado apenas nos dias em que tudo floresce.

Haverá dias em que o cansaço falará mais alto que a ternura. Haverá preocupações, desencontros, enfermidades e palavras que precisarão ser perdoadas.

E é justamente aí que o amor começa a revelar sua verdadeira grandeza.

Porque amar alguém quando tudo é belo pode ser encantador. Mas continuar querendo o bem quando a vida se torna difícil exige algo mais profundo que o encantamento.

Exige virtude.

Amar é querer o bem do outro.

Que verdade tão simples e, ao mesmo tempo, tão exigente!

Querer o bem do outro não significa concordar com tudo, silenciar diante do que machuca ou renunciar à própria dignidade. Significa reconhecer que aquela pessoa, com suas qualidades e limitações, possui um valor que ultrapassa nossos desejos e expectativas.

É compreender que o amor não é posse, mas doação. Não é domínio, mas encontro. Não é a ausência de diferenças, mas a disposição de atravessá-las com respeito e sabedoria.

E, nessa caminhada, descobrimos que o coração também precisa ser educado.

A prudência nos ensina a escolher as palavras antes que elas se transformem em feridas.

A justiça nos recorda que amar também é respeitar, reconhecer direitos e cumprir compromissos.

A fortaleza nos sustenta quando as dificuldades parecem maiores que nossas forças.

E a temperança nos ensina que nem todo impulso precisa ser seguido, nem toda irritação precisa se transformar em resposta.

Assim, pouco a pouco, o amor deixa de ser apenas aquilo que sentimos e se transforma também naquilo que decidimos construir.

E uma das mais belas descobertas do matrimônio é esta:

Não nos casamos com alguém que já sabe amar perfeitamente. Casamo-nos com alguém que, assim como nós, ainda precisa aprender a amar.

Duas histórias se encontram. Duas educações, duas maneiras de enxergar o mundo, duas personalidades.

Não é a união de duas perfeições.

É o encontro de duas pessoas imperfeitas, chamadas a construir uma comunhão de vida.

E Deus, conhecendo profundamente a fragilidade humana, não deixou os esposos entregues apenas às próprias forças.

Elevou o matrimônio entre os batizados à dignidade de sacramento, oferecendo-lhes a graça para santificar essa união.

Porque o amor conjugal, vivido à luz da fé, não é apenas um compromisso diante dos homens. É uma aliança assumida diante de Deus.

Uma aliança que não elimina as dificuldades, mas oferece um caminho da graça para atravessá-las.

Mas é quando encontra a inteligência, a vontade, as virtudes e a graça de Deus que pode amadurecer e se transformar numa aliança verdadeiramente profunda.

Afinal, amar é um dom de Deus, mas aprender a amar é uma missão que atravessa toda a vida.

E seja esse o grande segredo do matrimônio.

E assim, o amor que um dia nasceu de um encontro torna-se uma aliança que o tempo é chamado a amadurecer e que a graça de Deus ajuda a santificar.