Petrucia Camelo

ENCONTRO DE PRIMAVERA

Petrucia Camelo 16 de outubro de 2026

A primavera está à porta e, no caminho, estão a cor e a luz ao alcance do olhar, que despertam os estímulos sensoriais. Essa estação anima o espírito e faz respirar novos ares; leva a caminhadas pelos caminhos cobertos de arvoredos, onde se vê o brilho de diamante das gotículas de orvalho a escorrerem sobre a folhagem, feito lágrimas de mãe banhando a face.

E ainda mais, na primavera, há outras cores além do verde, no encontro delicado com as flores silvestres; dessas, há espécies singulares, aureolando e atapetando o caminho a completar a paisagem, a formar o clima primaveril.

No Brasil, e em particular no Estado de Alagoas, em especial no campo tem-se realmente o despertar florido da primavera; há variedades de flores, que, em cor e forma, reinam absolutas. Nas capitais, nos jardins bem cuidados, ou mesmo nos cerrados, nas matas, até nas margens dos córregos maltratados, uma pequenina flor, mesmo pálida e triste, pela pobreza do solo, teima em desabrochar.

E, em meio ao silêncio audível dos sons da mata e do vento, encontram-se florações, desde as mais simples às mais exuberantes, todas revestidas na beleza da cor, da maciez e do perfume que o sol lhes impõe.

Portanto, é no caminho que se tem a companhia da simplória flor silvestre, que não foge à vida que a convida a eclodir atapetando o matagal. Apesar de sua aparência minudente, mas pelo viço das frágeis pétalas, dá-se para observar a sua participação, que não desperdiça e nem faz esperar o tempo que lhe foi concedido, o que nos leva a pensar e a questionar sobre a sua capacidade de sobrevivência: quais seriam os recursos que ela utiliza em sua autodefesa, para adquirir resistência em meio a tantos reveses?

Talvez, a razão do sucesso da pequenina flor rasteira se deva à manutenção do seu ciclo natural e, por não ser cultivável, não sofre influências estrangeiras, mantendo a sua originalidade; e, pela proximidade de umas com as outras, e sem sofrer pelo viço da outra, mantém, também, a unidade, a umidade e, assim, ela vai longe ocupando os espaços ao redor.

Coisa que não ocorre com a juventude da periferia das cidades, a qual, por falta de oportunidades, isolada pela ignorância, exposta ao meio da criminalidade, despreparada e desprotegida; não consegue acompanhar o exemplo de persistência da flor sem nome. Seus caules não a arrastam ao sol.

Mas, dizem que o mover do caminhar se faz pelo que se encontra no caminho. Indo ao encontro do mundo das flores, também se observa que nem tudo são perfume e cor; e, em meio a pétalas amassadas no tapete florido que se estende até onde a vista alcança, observa-se que um pequenino pássaro de plumagem colorida jaz, morto, e essa nota destoante compara-se a versos do poema Caramuru do Frei José de Santa Rita Durão: perde o lume dos olhos, pasma, e treme /Pálida a cor, o aspecto moribundo... (Lima, Renira Lisboa de Moura. A morte de Moema. Maceió: Edufal, 2000).

A primavera é suscetível a imagens. Então, para vê-la sorrir, deve-se acomodá-la nos cômodos da casa para expressar emoções inimagináveis... Mãos à obra! Ao caminho, ao encontro da primavera!