Petrucia Camelo

FACES DA PRIMAVERA

Petrucia Camelo 08 de outubro de 2026

No desperdiçar da hora, é-nos impossível analisar as perdas, reunir os sentimentos gastos; ver o espanto tardio, ao comprovar que a hora é preciosa, é o que se tem de mais real. Passada, nunca mais será revista, retomada; será passado e será esquecida e o sentimento que se apodera é o da nulidade, como se esse sentimento houvesse estripado os ponteiros do relógio. No tempo perdido, não há hora, tudo se atropela

Precisa-se aproveitar as horas na primavera que é a estação das flores, tempo de as flores eclodirem. É uma estação linda, florida, colorida e perfumada, que oportuniza a todos saber, ver, sentir o que se passa ao seu redor.

Flores múltiplas, em variadas formas, cor, perfume e tamanho, brotam das plantas rasteiras, dos arbustos, das árvores frutíferas que floram num prenúncio do fruto que está por vir; há flores para todos os gostos. Na primavera, elas brotam nos lugares mais inusitados, preenchendo a hora do nosso olhar.

E se pergunta: quantas primaveras hão de vir? E mais ainda: quantas ainda haverá que possamos testemunhar as suas presenças? Vejam essa que agora se vê, muitos não sentem as flores perfumando o ambiente dos jardins, emoldurando as calçadas, debruçando-se sobre portões e cercas, penduradas nos terraços, e ainda, veem-se as flores tremerem no tremor dos cavaletes ao sabor do vento, marcando as horas, pincelando o tempo.

Como diz Cecília Meireles: Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis uma sonora ou silenciosa canção: flor do espírito, desinteressada e efêmera.

Não é de praxe marcarem-se os acontecimentos pelas estações, para se fazer recordar os fatos, pois, às vezes, não se sabe nem onde se está; talvez, se assim fosse, seria mais fácil viver o saudosismo, pois, no caso da primavera, os sentimentos se abrem sem tragédia tornam a alma renovada; passante, a primavera parece ser uma janela de luz em cada flor que nasce.

Veem-se as pétalas de ontem, ao chegar da primavera de hoje? As flores não eram estas. Mas, embora as horas não tenham sido perdidas, a vivência do ontem, de flores anteriores foi levada pelo vento, mas coisa alguma se ensina à primavera: ela não desiste, persiste, pois não dá para esquecer que, nas primaveras anteriores, haviam pétalas de cor rosa, vermelha até “salmon”.

A primavera ainda não se faz esperar: deixa-se eclodir em folhas e flores, atraindo as borboletas, as carícias dos beija-flores contumazes. E as jarras, os jarros, se pensassem e falassem, logo diriam: “Somos os da vez, ainda é a nossa hora, mesmo guardados, não perdemos a hora”. Que desperdício! O que seria das flores sem festas se o nosso tempo acabasse?

Mas viver a primavera é cultivar as flores em suas cepas, dar-lhes nutrientes, propiciar-lhes água e sol, para vê-las sorrindo com a graça de crescerem e se multiplicarem, colorindo e perfumando profusamente os ambientes.

Então, tem-se a graciosidade das flores, tem-se a construção de Deus produzindo mais essa imagem linda, benéfica, que não faz perder as horas em nulidades, que não deixa que florem as lágrimas, nem tropece em desarmonia, pois é tempo de cor, perfume e luz refletida na maciez de pétalas, que sugere colocar à mesa louça florida, e nos ambientes aconchegantes, cobertas e cortinas em cores da natureza florida, além de confeccionar arranjos florais para os demais ambientes.

E o que ainda se observa é que, nas verdades primaveris, a hora empresta momentos de frescor, como as das manhãs; há aromas de prazer para todos os lados, que se denunciam nos jardins floridos, molhados. Para o bom observador, são privilégios para os órgãos dos sentidos e para a alma, para aqueles que não perdem e não deixam passar a hora, que veem as rosas na primavera em buquês, ramalhetes, guirlandas...