PSICÓLOGA SONJA CAMELO

A Primavera Começa Onde Ninguém Vê

PSICÓLOGA SONJA CAMELO 18 de setembro de 2026

Hoje pela manhã, uma flor me fez parar.

Era pequena, quase escondida entre as folhas. Dessas que a pressa transforma em paisagem.

Aproximei-me e pensei:

Deus poderia ter criado o mundo apenas necessário.

Mas criou o belo.

Uma flor não precisaria de tantas cores, perfume ou pétalas tão delicadas. Mas Deus não economizou beleza.

Talvez porque o Autor da vida seja também o maior Jardineiro do mundo.

A primavera nos recorda disso.

Um galho que parecia vazio amanhece coberto de flores. E quase esquecemos que, antes delas, houve raiz, silêncio e espera.

A vida humana também tem suas estações.

Perdemos folhas, pessoas, sonhos, certezas. E, olhando para nossos galhos vazios, às vezes pensamos que tudo terminou.

Mas nós vemos o galho.

Deus conhece a raiz.

Nós queremos flores.

Deus trabalha primeiro onde ninguém vê.

E um dia florescemos novamente.

Não como antes — porque a vida não volta, ela prossegue.

Talvez por isso o jardim seja tão diverso.

A rosa não tenta ser lírio. A margarida não inveja a orquídea. Cada flor possui sua beleza, seu perfume e seu tempo.

Deus não fez um jardim de repetições.

Fez um jardim de singularidades.

Assim também somos nós.

Há quem floresça cedo. Há quem passe longas estações criando raízes. E nenhuma vida é esquecida pelo Jardineiro.

Mas as flores também caem.

E talvez esteja aí uma de suas maiores lições.

A infância passa. Os filhos crescem. Os abraços terminam. Pessoas que amamos partem. E tantas coisas comuns só revelam o quanto eram preciosas quando se tornam lembrança.

Por isso, a primavera parece nos dizer:

olhe enquanto está diante de você.

Abrace enquanto seus braços alcançam.

Agradeça enquanto a mesa está posta.

Ame enquanto é tempo.

Antes de ir embora, olhei novamente para aquela pequena flor.

E compreendi:

a primavera não existe apenas para anunciar que as flores voltaram.

Ela existe para nos lembrar que a queda das folhas nunca foi a última palavra do Jardineiro.

Porque, mesmo quando nossos olhos enxergam apenas galhos vazios,

Deus já está cuidando com amor da próxima primavera.