Petrucia Camelo
ELEIÇÃO: OS CANDIDATOS
Os candidatos se utilizam de chamariz para se aproximarem diretamente do eleitor, e logo se vê a cor na arte da propaganda eleitoral delineando as imagens partidárias expressas nos outdoors, nos painéis automobilísticos, na textura das paredes, nas letras musicais em som audível em decibéis insuportáveis.
Na paisagem, do cotidiano veem-se postes humanos segurando bandeiras que tremulam sob os efeitos do vento morno. Nas caminhadas, os candidatos, acompanhados de familiares, amigos, correligionários e simpatizantes, vão até onde o povo está, em plena pobreza, num cinturão humano que cinge toda a periferia da cidade de Maceió.
Dos indivíduos constantes, não se pode contar em número ou qualidade, pois se apresenta como uma massa humana uniforme, nivelada pelas mesmas necessidades, abastecendo-se dos recursos de sua criatividade, “do viver por si”, criando os seus próprios líderes, os seus heróis anônimos, as suas próprias normas que os salvam e que os condenam.
Essa gente de todas as faixas etárias, que enche as ruas ao transitá-las, vive amontoada em becos, vilas e vielas e a maioria residem na margem da lagoa, cercada de esgotos a céu aberto, a esperar por dias melhores. Resiste e persiste às reviravoltas com a falta de recursos que geram a velhice desamparada, a juventude que sonha um sonho sem perspectivas, à deriva em constante gravidez, de primípara a multípara, que se ocupa em adquirir recursos minguados de subsistência diária.
Esse povo precisa de ações governamentais coletivas nas áreas da saúde, educação, segurança, habitação e da valorização da mão de obra, capacitando a pedra bruta do talento, que posto em prática, de arranjo, gera atividades marginais, que, por falta de preparo e oportunidade, levam-no a trabalhar o hoje, a ganhar o agora, o momento que necessita de ser alimentado, custe o que custar. Daí a errônea e imperdoável interpretação da pobreza versus criminalidade.
Mas que povo é esse que se chama pobreza? É um povo que não é oriundo da classe de trabalhadores e nem de aventureiros, que procura, pois necessita colher o fruto sem plantar a árvore, que não tem pinta de malandro e não promove o desenvolvimento urbano, e sim, o seu estrangulamento.
Porém, é um povo que elege um Presidente da República por duas vezes consecutivas, tal é a sua força em números. É, pois, um povo de uma fé inabalável em Deus, mesmo sem ter a promessa da terra prometida, talvez na esperança de um céu sem distinção, um céu de abolição.
E a caravana dos candidatos passa semanas, meses, vai e volta, transitando em direção aos pontos cardeais da cidade em busca da população atrás do voto. Decerto ver de perto a explosão demográfica instalada na periferia da cidade de Maceió e o descaso governamental, mesmo assim o povo promete elegê-los se vivo for.
E quiçá os candidatos não se inspirem no exemplo das flores silvestres, próprias da estação da primavera, que floram profusamente, espaçadamente e rudemente, aureolando os córregos pútridos, como se quisessem apenas com as suas presenças mudar a paisagem.
Petrucia Camelo
Sobre
Petrucia Camelo é Assistente Social, nasceu em Viçosa-AL. Casada com o médico e escritor Arnaldo Camelo. Possui 14 livros publicados, dois livros premiados. Pertence a Academia Alagoana de Letras. Sócia Honorária do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Sócia da UBE-PE. Fundadora e Presidente do Clube Café, Vinho e Arte - CCVA.




