T+ Claudio Bulgarelli
Turismo Imobiliário: entre o progresso e à ordem
Avaliação é do corretor de imóveis Kenny Wilson
Kenny Wilson, corretor de imóveis, delegado distrital do CRECI na Rota Ecológica, foi o criador do termo Turismo Imobiliário em Alagoas para definir um fenômeno que, ao longo dos anos, ganhou força especialmente em regiões de grande vocação turística, como a Rota Ecológica dos Milagres. Naquele momento, à expressão representava uma oportunidade, ou seja, a união entre turismo, mercado imobiliário, investimentos, geração de empregos, valorização territorial e desenvolvimento econômico.

Hoje, olhando para esse fenômeno com mais maturidade, se percebe que existe uma relação que precisa ser discutida com seriedade, Segundo ele. ``O turismo imobiliário produz desenvolvimento, mas o desenvolvimento, quando não é planejado, pode produzir gentrificação. É uma relação de causa e efeito´´.
O lado positivo: desenvolvimento e não há como negar os efeitos positivos. O turismo imobiliário movimenta a economia local, atrai investimentos, estimula a construção civil, cria empregos, amplia a oferta de serviços, melhora infraestrutura e coloca pequenos municípios no mapa dos grandes investimentos. Uma região que antes era pouco conhecida passa a receber pousadas, restaurantes, empreendimentos, casas de veraneio, condomínios e novos negócios.
Mas existe uma pergunta que precisa acompanhar esse progresso: progresso para quem?
O outro lado: gentrificação. Quando a valorização imobiliária acontece em velocidade superior à capacidade de planejamento do município, surge um efeito colateral que não pode mais ser ignorado: a gentrificação. O território passa a ser valorizado economicamente, mas o morador que sempre viveu ali pode começar a perder a capacidade de permanecer. O imóvel que era acessível deixa de ser. O aluguel aumenta. O custo de vida acompanha a valorização. Terrenos passam a ter preços incompatíveis com a realidade econômica da população local. E, pouco a pouco, o morador pode ser empurrado para regiões mais distantes.
Segundo Kenny, é nesse momento que o desenvolvimento deixa de ser apenas uma questão de mercado e passa a ser também uma questão de ordem territorial, social e urbana. “Ordem e Progresso”. Existe algo particularmente curioso no lema inscrito na Bandeira do Brasil. Durante muito tempo, quando olhamos para o turismo imobiliário, enxergamos principalmente o progresso: investimento, valorização, emprego, turismo, infraestrutura e novos negócios´´, disse ele.
Mas, especialmente na Rota Ecológica, talvez esteja chegando o momento em que precisa discutir também a ordem. Não a ordem no sentido de impedir o desenvolvimento. Muito pelo contrário. A ordem necessária para que o progresso seja sustentável, inclusivo e capaz de permanecer no território sem expulsar dele quem ajudou a construí-lo.
Para o corretor, a questão não é ser contra o turismo imobiliário. ``Seria um erro transformar essa discussão em uma oposição entre desenvolvimento e preservação, ou entre investidores e moradores. A questão é encontrar equilíbrio. O turismo imobiliário não precisa ser o problema.
Ele pode fazer parte da solução. Mas precisamos construir mecanismos para que a valorização imobiliária também produza valor social. Precisamos pensar em habitação para trabalhadores locais, planejamento urbano, infraestrutura compatível com o crescimento, proteção ambiental, mobilidade, saneamento, regularização fundiária e políticas que permitam ao morador permanecer no território onde nasceu e construiu sua história´´, finaliza ele.
T+ Claudio Bulgarelli
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