PSICÓLOGA SONJA CAMELO
POLÍTICA SEM VIRTUDE: O QUE ACONTECE COM UMA NAÇÃO
Era domingo, e a família estava reunida em volta da mesa.
O almoço seguia como tantos outros: pratos sendo servidos, crianças atravessando a sala, alguém pedindo mais arroz, uma mãe insistindo para que todos comessem antes que a comida esfriasse.
Até que alguém pronunciou o nome de um político.
A palavra caiu sobre a mesa como uma pedra.
Em poucos minutos, as vozes se elevaram. Um interrompeu o outro. Aqueles que haviam chegado como família passaram a se olhar como adversários. Já não importava compreender. Era preciso vencer.
O pão continuava sobre a mesa, mas ninguém mais o repartia.
Talvez seja assim que a política, quando perde a virtude, começa a ferir uma nação: não primeiro nos palácios, mas dentro das casas; não apenas nas leis, mas nas palavras; não somente nas instituições, mas no coração das pessoas.
Santa Catarina de Sena viveu no século XIV, em uma época também marcada por conflitos, disputas e ambições. Não possuía cargo, exército ou partido. No entanto, teve coragem para aconselhar papas, reis e rainhas sobre justiça, paz e responsabilidade.
Ela compreendeu algo que os séculos não conseguiram envelhecer: o poder que se afasta da verdade deixa de servir e começa a dominar.
Seus ensinamentos nos fazem olhar para o Brasil e perguntar:
O que acontece com uma nação quando o poder deixa de ser responsabilidade e passa a ser tratado como propriedade?
Acontece que os números ocupam o lugar dos rostos.
Esquece-se de que, por trás de cada decisão política, existe uma mesa onde talvez esteja faltando pão. Existe uma mãe preocupada com o futuro do filho, um idoso esperando cuidado e um jovem lutando para não perder a esperança.
Nenhuma decisão pública termina no papel em que foi assinada.
Ela chega à escola de uma criança, ao medicamento de um doente, ao salário de um trabalhador e ao prato de uma família.
Por isso, o Brasil não pertence aos que governam.
Pertence ao seu povo.
Governar não é colocar-se acima dele, mas a serviço dele. É compreender que autoridade não é privilégio, mas dever; não é licença para fazer tudo o que se deseja, mas compromisso de realizar aquilo que é justo.
Uma nação precisa de governantes prudentes nas escolhas, justos com cada pessoa, fortes diante da corrupção e humildes diante do poder.
Mas seria fácil demais colocar toda a responsabilidade nas mãos dos governantes.
Também o povo precisa de virtude.
Há algo profundamente triste em uma sociedade na qual uma eleição consegue destruir uma amizade e uma ideologia se torna maior que uma família. Aos poucos, deixamos de discordar de ideias e começamos a rejeitar pessoas.
A política entra em nossas casas, senta-se à mesa e, se não estivermos atentos, ocupa o lugar da ternura.
Defendamos a verdade, sim.
Defendamos a justiça.
Mas sem vingança e sem violência.
Porque não basta combater o mal que está fora de nós. É preciso impedir que, durante o combate, esse mesmo mal encontre morada em nosso coração.
A justiça sem amor pode transformar-se em crueldade. A coragem sem prudência pode tornar-se violência. A firmeza sem humildade pode converter-se em soberba. E até uma causa aparentemente nobre pode adoecer quando passa a justificar o ódio.
Naquela mesa de domingo, depois de tantas palavras duras, uma criança fez algo simples.
Pegou o pão, partiu-o ao meio e ofereceu uma parte ao avô que pensava diferente de seu pai.
O gesto não encerrou a discussão política. Não resolveu os problemas do país nem apagou as divergências daquela família.
Mas todos se calaram.
Por alguns instantes, lembraram-se de que ainda pertenciam uns aos outros.
Talvez seja disso que o Brasil mais precise: recordar que somos uma nação antes de sermos partidos, uma família antes de sermos adversários e seres humanos antes de qualquer ideologia.
O Brasil está ferido.
Mas uma ferida não é uma sentença.
Enquanto houver alguém repartindo o pão, uma mãe rezando por seus filhos, um jovem escolhendo a honestidade e uma pessoa capaz de estender a mão àquela que pensa diferente, a esperança continuará viva.
Brasil, nação consagrada a Nossa Senhora Aparecida, não te esqueças:
Tu tens uma Mãe.
Que, sob o seu manto, aprendamos novamente a olhar uns para os outros como irmãos.
E que, juntos, possamos devolver a virtude à política, a esperança ao nosso povo e o coração de nossa Pátria para Deus.
PSICÓLOGA SONJA CAMELO
Sobre
Psicóloga Clínica e professora do Cesmac estudiosa da Psicologia Tomista, possue edição de livro infantil.





