PSICÓLOGA SONJA CAMELO
A Fonte que Nunca Secou
Houve um tempo em que os homens sabiam onde ficava a fonte.
Não era preciso mapa. Os mais velhos levavam os mais novos pela mão, subiam a montanha e, diante de duas pedras antigas, encontravam uma água tão cristalina que era possível enxergar o fundo.
Abaixavam-se, juntavam as mãos em concha e bebiam.
Ninguém discutia muito sobre a água. Bebia-se.
Talvez porque algumas coisas, quando são muito fundamentais, permaneçam silenciosas. Como o amor de uma mãe, a palavra dada, a diferença entre ferir e cuidar, a necessidade de pedir perdão, a dignidade de uma vida ou aquela antiga certeza de que nem tudo aquilo que desejamos nos faz bem.
A fonte estava lá.
E isso bastava.
Até que, um dia, alguém fez uma pergunta aparentemente simples:
— Por que precisamos subir até lá?
A pergunta não era ruim. Perguntar nunca foi o problema.
O problema começou quando, acomodados , desanimados e mergulhados na procrastinação, não quiseram enfrentar a subida, os homens decidiram que seria mais conveniente se a verdade descesse a montanha e se adaptasse ao lugar onde cada um estivesse.
Vieram então as garrafas.
E eram lindas.
Havia águas doces, águas coloridas, águas que prometiam prazer, águas que faziam esquecer, águas que diziam exatamente aquilo que cada pessoa desejava ouvir.
Nunca se bebeu tanto.
Curiosamente, nunca se teve tanta sede.
Foi então que aconteceu algo ainda mais estranho: em vez de perguntarem se estavam bebendo a água errada, começaram a desconfiar da própria sede.
Talvez o homem fosse mesmo um ser destinado à insatisfação.
Talvez não existisse nascente alguma.
Talvez falar em água limpa fosse apenas uma construção dos antigos ou até mesmo não existisse .
E assim, pouco a pouco, a trilha que levava à montanha foi tomada pelo mato.
Não porque alguém tivesse destruído a fonte.
Simplesmente porque ninguém mais fazia o caminho.
Essa talvez seja uma das tragédias da vida: há coisas que não perdemos porque foram arrancadas de nós; perdemos porque deixamos de visitá-las e dar o valor da importância que ela tem na hierarquia das coisas!
A verdade pode desaparecer assim de uma família.
Primeiro deixa de ser vivida.
Depois deixa de ser ensinada.
Em seguida deixa de ser compreendida.
E finalmente passa a parecer estranha.
Uma geração recebe princípios.
A seguinte ainda se lembra deles.
A terceira pergunta para que servem.
A quarta já não sabe que existiram.
E, no entanto, a fonte continua correndo.
Penso muito nisso quando observo nosso tempo.
Temos mais possibilidades do que nossos antepassados jamais imaginaram. Mais informação, mais conforto, mais escolhas, mais maneiras de nos expressarmos.
E tudo isso possui uma beleza verdadeira.
Mas talvez tenhamos cometido um grande equívoco, começamos a acreditar que ser livre significava não receber de ninguém uma direção.
Como se toda orientação fosse prisão.
Como se todo limite fosse violência.
Como se dizer “não” a um desejo fosse negar a própria identidade.
E fomos ficando extraordinariamente livres para escolher — e cada vez menos capazes de escolher aquilo que nos faz bem.
É curioso.
Conquistamos o mundo exterior e começamos a perder o governo do mundo interior.
Sabemos atravessar oceanos em algumas horas, mas às vezes não conseguimos atravessar uma contrariedade sem desmoronar e com muita fragilidade emocional. Porque nos falta crescimento nas virtudes!
Temos milhares de pessoas ao alcance de uma tela e sofremos de solidão, ansiedade e depressão.
Falamos incessantemente de liberdade enquanto tantas pessoas são escravas da aprovação, do consumo, da aparência, do prazer, da comparação, da raiva ou de si mesmas.
Talvez seja essa a sede do nosso tempo.
Não falta água.
Falta nascente.
E é aqui que penso nas crianças.
Porque toda geração recebe uma escolha, entregar aos filhos apenas as garrafas que encontrou pelo caminho mas quase nunca mostrar-lhes também a fonte onde nasce a água.
Ensinar virtudes talvez seja exatamente isso.
Não é fabricar crianças impecáveis.
Não é criar pequenos adultos obedientes, incapazes de perguntar.
Muito menos entregar respostas prontas para impedir que pensem.
É ajudá-las a formar dentro de si algo semelhante a uma bússola.
Para que um dia, quando estivermos ausentes, consigam reconhecer a direção.
Prudência para discernir o certo do errado, escolhendo o bem e evitando o mal.
Justiça para reconhecer o direito do outro que lhe é devido.
Fortaleza para permanecer diante firme diante da dificuldade.
Temperança para não transformar todo desejo em senhor e ser escravo dele.
Virtudes não eliminam a liberdade.
Elas tornam a liberdade possível.
Porque o homem verdadeiramente livre não seja aquele que pode fazer tudo o que deseja, mas seja aquele que consegue desejar alguma coisa e, ainda assim, perguntar:
“Isto merece ser escolhido?”
Essa pergunta exige uma nascente.
Um ponto anterior às nossas vontades.
Uma medida que não inventamos conforme a conveniência do momento.
Para quem crê, essa Fonte possui um nome.
Deus.
Não um Deus usado para preencher aquilo que ainda não compreendemos, mas Aquele diante de quem o homem reconhece uma verdade profundamente libertadora:
É preciso parar e refletir que o homem.
Não é a origem de tudo.
Não criou o bem.
Não criou a verdade.
Não criou o amor.
Não criou sequer a sua própria existência.
Mas Deus sim, a Santíssima trindade é a Resposta de Tudo.
Somos como um peregrino na existência de nossa vida. Somos como alguém que chega sedento a uma montanha e descobre uma água que já corria muito antes de nossa chegada.
Talvez educar seja justamente isso.
Não colocar água dentro de uma criança.
Mas levá-la, tantas vezes quanto pudermos, até a fonte.
Um dia ela crescerá.
Encontrará outras águas.
Experimentará algumas.
Talvez se engane.
Talvez se afaste.
Talvez chegue a acreditar que a velha nascente era apenas uma história contada pelos pais e pelos avós.
Não poderemos acompanhá-la por todos os caminhos.
Mas poderemos deixar dentro dela a memória da água.
A lembrança de seu sabor.
E quem já bebeu água limpa talvez consiga, mesmo depois de muitos desvios, reconhecer quando está bebendo lama.
Por isso ainda acredito na educação das virtudes.
Não porque deseje devolver nossos filhos ao passado.
Mas porque desejo prepará-los para atravessar o futuro sem perder aquilo que há de mais humano e sagrado dentro deles que é a vida espiritual.
E talvez, muitos anos depois, quando nós já não estivermos aqui, um filho cansado de tantas águas se lembre de alguma coisa que ouviu na infância.
Então afastará o mato.
Procurará a velha trilha.
Subirá novamente a montanha.
Encontrará as duas pedras.
Abaixará a cabeça.
Juntará as mãos em concha.
E descobrirá, talvez com lágrimas nos olhos, que durante todo o tempo em que esteve longe…
a Fonte nunca deixou de correr.
PSICÓLOGA SONJA CAMELO
Sobre
Psicóloga Clínica e professora do Cesmac estudiosa da Psicologia Tomista, possue edição de livro infantil.





