PSICÓLOGA SONJA CAMELO
Era uma vez… e um coração que começa a ser formado
Toda noite, quase à mesma hora, acontece uma cena tão comum que ninguém pensaria em chamá-la de extraordinária.
A casa vai diminuindo os ruídos.
Os brinquedos ficam pelo chão, um copo de água repousa sobre a mesa de cabeceira e, debaixo das cobertas, uma criança esperando fala:
— Você pode contar uma história?
O adulto, muitas vezes cansado, mas pega um livro de história .
Talvez esse pai ou essa mãe pense que estão apenas adiando por alguns minutos a hora de dormir. Talvez imagine que aquelas páginas servirão para aquietar ou diminuir as curiosas perguntas próprios da infância e conduzir, pouco a pouco,
os olhos pequenos da criança ao sono.
Então papai ou mamãe abre o livro.
E diz:
— Era uma vez…
A criança fica atenta.
E alguma coisa começa a acontecer.
Um lugar que não existe aparece diante dela. Uma floresta nasce onde antes havia apenas a parede do quarto. Animais falam. Sementes carregam sonhos. Meninos atravessam pontes. Meninas enfrentam medos. Alguém perde, alguém encontra, alguém cai e precisa decidir se permanece no chão ou tenta outra vez.
A criança está com o soninho chegando na cama, mas no seu imaginário percorre mundos inteiros.
Ela ainda não sabe explicar o que é prudência.
Nunca ouviu uma definição de fortaleza.
Talvez justiça e temperança sejam apenas palavras grandes demais para caber em sua pequena compreensão.
Mas ela entende quando o personagem poderia mentir e escolhe dizer a verdade.
Percebe quando alguém tem medo, mas encontra coragem para fazer o que precisa ser feito.
Sente quando uma personagem divide aquilo que gostaria de guardar somente para si.
Torce por quem cai e tenta novamente.
E, sem perceber, começa a fazer uma das descobertas mais importantes da vida:
toda escolha nos leva um pouco na direção da pessoa que estamos nos tornando.
É interessante pensar nisso.
Enquanto o adulto acredita que está contando a história de outra pessoa, a criança talvez esteja começando a escrever, silenciosamente, uma parte da sua própria história.
Porque a infância aprende muito antes de saber explicar.
Primeiro ela vê.
Depois imagina.
Experimenta interiormente.
Admira.
E deseja imitar aquilo que reconhece como belo e bom.
É assim que uma história pode ultrapassar as páginas de um livro.
A coragem daquele pequeno personagem pode reaparecer meses depois, quando a criança precisar enfrentar alguma coisa que lhe dê medo.
A generosidade da menina da história talvez seja lembrada diante do brinquedo que precisa ser dividido.
A perseverança daquele personagem que tentou mais uma vez pode surgir justamente no instante em que pequenas mãos estiverem prestes a desistir.
Não porque alguém lhe deu uma longa explicação sobre virtudes.
Mas porque, certa noite, alguém importante para ela lhe mostrou como os personagens se apresentam quando ganham vida.
Essa é uma das delicadezas da educação que quase não percebemos:
há ensinamentos que entram pela imaginação antes de alcançarem a razão.
E há verdades que uma criança encontra primeiro numa história para, muitos anos depois, reconhecer na própria vida.
O tempo passa.
A criança cresce.
Um dia, aquele livro fica pequeno demais para suas mãos. Vai parar numa caixa, numa estante mais alta ou entre tantas outras lembranças da infância.
Ela talvez esqueça o nome do personagem.
Talvez não se recorde de quem encontrou o tesouro, de quem atravessou a floresta ou de como terminava aquela aventura que pedia todas as noites um :
— Conta de novo!
Mas há coisas que a memória guarda de outro jeito.
Talvez permaneça a lembrança de um colo.
O barulho das páginas sendo viradas.
A luz baixa do quarto.
A segurança de saber que, por alguns minutos, alguém deixou todas as outras coisas do mundo para estar ali.
E, permaneça também alguma coisa ainda mais importante:
A inclinação para o bem.
Anos depois, aquela criança poderá estar diante de escolhas muito maiores.
Não haverá ilustrações.
Não haverá narrador.
E ninguém dirá qual é a próxima página.
Será preciso escolher.
Dizer a verdade ou escondê-la.
Permanecer ou desistir.
Pensar somente em si ou perceber quem está ao lado.
Fazer o que é mais fácil ou aquilo que reconhece como certo.
E talvez ela nunca saiba explicar de onde veio aquela pequena voz interior que a convida a escolher o bem.
Talvez tenha vindo de muitas pessoas, muitos exemplos, muitas experiências.
E talvez uma de suas primeiras sementes tenha sido plantada numa noite aparentemente comum, quando alguém abriu um livro e pronunciou três palavras:
— Era uma vez…
Naquela noite, uma criança adormeceu.
Mas nem tudo dentro dela dormiu.
Uma história terminou.
E um coração começava, silenciosamente, a ser formado.
PSICÓLOGA SONJA CAMELO
Sobre
Psicóloga Clínica e professora do Cesmac estudiosa da Psicologia Tomista, possue edição de livro infantil.





