PSICÓLOGA SONJA CAMELO

Era uma vez… e um coração que começa a ser formado

PSICÓLOGA SONJA CAMELO 24 de agosto de 2026

Toda noite, quase à mesma hora, acontece uma cena tão comum que ninguém pensaria em chamá-la de extraordinária.
A casa vai diminuindo os ruídos.

Os brinquedos ficam pelo chão, um copo de água repousa sobre a mesa de cabeceira e, debaixo das cobertas, uma criança esperando fala:

— Você pode contar uma história?

O adulto, muitas vezes cansado, mas pega um livro de história .

Talvez esse pai ou essa mãe pense que estão apenas adiando por alguns minutos a hora de dormir. Talvez imagine que aquelas páginas servirão para aquietar ou diminuir as curiosas perguntas próprios da infância e conduzir, pouco a pouco,

os olhos pequenos da criança ao sono.

Então papai ou mamãe abre o livro.

E diz:
— Era uma vez…

A criança fica atenta.

E alguma coisa começa a acontecer.

Um lugar que não existe aparece diante dela. Uma floresta nasce onde antes havia apenas a parede do quarto. Animais falam. Sementes carregam sonhos. Meninos atravessam pontes. Meninas enfrentam medos. Alguém perde, alguém encontra, alguém cai e precisa decidir se permanece no chão ou tenta outra vez.

A criança está com o soninho chegando na cama, mas no seu imaginário percorre mundos inteiros.

Ela ainda não sabe explicar o que é prudência.

Nunca ouviu uma definição de fortaleza.

Talvez justiça e temperança sejam apenas palavras grandes demais para caber em sua pequena compreensão.

Mas ela entende quando o personagem poderia mentir e escolhe dizer a verdade.

Percebe quando alguém tem medo, mas encontra coragem para fazer o que precisa ser feito.

Sente quando uma personagem divide aquilo que gostaria de guardar somente para si.

Torce por quem cai e tenta novamente.

E, sem perceber, começa a fazer uma das descobertas mais importantes da vida:

toda escolha nos leva um pouco na direção da pessoa que estamos nos tornando.

É interessante pensar nisso.

Enquanto o adulto acredita que está contando a história de outra pessoa, a criança talvez esteja começando a escrever, silenciosamente, uma parte da sua própria história.

Porque a infância aprende muito antes de saber explicar.

Primeiro ela vê.

Depois imagina.

Experimenta interiormente.

Admira.

E deseja imitar aquilo que reconhece como belo e bom.

É assim que uma história pode ultrapassar as páginas de um livro.

A coragem daquele pequeno personagem pode reaparecer meses depois, quando a criança precisar enfrentar alguma coisa que lhe dê medo.

A generosidade da menina da história talvez seja lembrada diante do brinquedo que precisa ser dividido.

A perseverança daquele personagem que tentou mais uma vez pode surgir justamente no instante em que pequenas mãos estiverem prestes a desistir.

Não porque alguém lhe deu uma longa explicação sobre virtudes.

Mas porque, certa noite, alguém importante para ela lhe mostrou como os personagens se apresentam quando ganham vida.

Essa é uma das delicadezas da educação que quase não percebemos:

há ensinamentos que entram pela imaginação antes de alcançarem a razão.

E há verdades que uma criança encontra primeiro numa história para, muitos anos depois, reconhecer na própria vida.
O tempo passa.

A criança cresce.

Um dia, aquele livro fica pequeno demais para suas mãos. Vai parar numa caixa, numa estante mais alta ou entre tantas outras lembranças da infância.

Ela talvez esqueça o nome do personagem.

Talvez não se recorde de quem encontrou o tesouro, de quem atravessou a floresta ou de como terminava aquela aventura que pedia todas as noites um :

— Conta de novo!

Mas há coisas que a memória guarda de outro jeito.

Talvez permaneça a lembrança de um colo.

O barulho das páginas sendo viradas.

A luz baixa do quarto.

A segurança de saber que, por alguns minutos, alguém deixou todas as outras coisas do mundo para estar ali.

E, permaneça também alguma coisa ainda mais importante:

A inclinação para o bem.

Anos depois, aquela criança poderá estar diante de escolhas muito maiores.

Não haverá ilustrações.

Não haverá narrador.

E ninguém dirá qual é a próxima página.

Será preciso escolher.

Dizer a verdade ou escondê-la.

Permanecer ou desistir.

Pensar somente em si ou perceber quem está ao lado.

Fazer o que é mais fácil ou aquilo que reconhece como certo.

E talvez ela nunca saiba explicar de onde veio aquela pequena voz interior que a convida a escolher o bem.

Talvez tenha vindo de muitas pessoas, muitos exemplos, muitas experiências.

E talvez uma de suas primeiras sementes tenha sido plantada numa noite aparentemente comum, quando alguém abriu um livro e pronunciou três palavras:

— Era uma vez…

Naquela noite, uma criança adormeceu.

Mas nem tudo dentro dela dormiu.

Uma história terminou.

E um coração começava, silenciosamente, a ser formado.